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Descobrimentos
À custa de teimosia e sacrifícios,
as caravelas dobram a ponta da África
o
se aventurar pelo mar que bordeja a África ocidental, Portugal
ganhou nova dimensão no mundo. Para aqui acorreram marinheiros,
aventureiros, espiões de Veneza, de Gênova,
da Espanha. Sabia-se, de ouvir dizer, que a costa da África
era rota traiçoeira, sujeita a borrascas, a calmarias, a
correntes inesperadas. Como, então, tinham conseguido avançar
os navegantes portugueses? De que instrumentos dispunham? Que orientações
seguiam? Foi nesse período, enquanto as caravelas avançavam
arduamente pelas águas do sul, que o português se tornou
a língua franca da navegação e Lisboa, o pólo
de atração dos que buscam saber marítimo. Era
a hora de Portugal assegurar as conquistas obtidas, tarefa para
a qual o rei dom Afonso V convocou a iniciativa privada.
Enredado
em disputas políticas com a Espanha, dom Afonso expandiu
as descobertas marítimas lançando mão de um
expediente simples e eficaz: deu o monopólio do comércio
na região africana onde vicejava o comércio do ouro
a Fernão Gomes, rico negociante lisboeta. Em troca da concessão,
ele devia reservar à coroa uma parte dos lucros e explorar
pelo menos 100 léguas de litoral por ano, durante cinco anos.
Enquanto vigorou, a associação deu certo. O rei, no
entanto, tinha um filho e sucessor ambicioso (o futuro rei dom João
II), homem de caráter centralizador e interessadíssimo
em monopolizar os lucros do comércio ultramarino. A peça-chave
de sua política externa foi a construção do
Castelo de São Jorge da Mina, misto de fortaleza e entreposto
comercial, erguido na costa africana para garantir o comércio
do ouro. Com o estímulo de dom João, as naves portuguesas
cruzaram pela primeira vez a linha do Equador. Para isso, tiveram
de aprender a navegar com base em informações astronômicas
inteiramente novas. Os portugueses navegavam no Hemisfério
Norte usando a estrela Polar como referência. No Hemisfério
Sul, não se avista essa estrela. Foi preciso então
buscar novas referências no céu, com a ajuda dos astrônomos.
Baseado
nesses novos cálculos, Diogo Cão, reputadíssimo
navegador do oceano, pôde continuar descendo o litoral africano,
engolindo cada vez mais território. Em suas naves viajaram,
pela primeira vez, os padrões de pedra que agora assinalam
a posse portuguesa das áreas descobertas. Quanto mais longas
foram ficando as viagens, mais duras as condições
a bordo.
Foi
assim, de imensos sacrifícios, a descida pela costa africana.
Quanto mais desciam, mais perto chegavam de uma esperança
confirmar a existência de uma passagem, o Cabo das
Tormentas, no extremo sul do continente que realizaria um
sonho atingir as Índias pelo caminho do mar. A África
era ouro, prata, marfim, escravos, pimenta, muitas maneiras de renda
e comércio. Mas as Índias ah, as Índias
eram riquezas infinitas de um jaez desconhecido na Europa cristã,
sedas e pedrarias cem fim, especiarias de todos os cheiros e sabores,
um cintilante mistério a ser desvendado. Como seria essa
terra? Como seriam os índios que lá habitavam? Na
ânsia de encontrar aliados que ajudassem a quebrar o estrangulamento
do comércio por terra com o Oriente, controlado pelos infiéis
muçulmanos, imaginou-se aqui, durante muito tempo, que lá
existiriam cristãos. Alcançar as Índias pela
via do Mar Oceano iria ao mesmo tempo instalar Portugal no centro
desse comércio, em situação vantajosa, e somar
forças contra o inimigo islâmico.
Uma
conjunção perfeita, que dom João II se esforçou
para transformar em realidade. Em 1487, despachou duas missões
na direção das Índias, uma por terra, de informação
(veja quadro abaixo), e outra, exploratória,
por mar. À frente desta, colocou um de seus mais experientes
capitães, Bartolomeu Dias, que partiu em agosto com duas
caravelas e uma nave exclusivamente carregada de mantimentos. Dias
chegou ao último ponto conhecido da costa africana, o Cabo
das Voltas, e continuou descendo. De tempo em tempo, ancorava e
depositava em terra um dos seis africanos que, bem vestidos à
portuguesa e portando pequena quantidade de ouro, prata e especiarias,
tinham a tarefa de indicar aos nativos o tipo de comércio
que Portugal buscava. A certa altura, mandou o navio de mantimentos
ancorar e esperar por sua volta.
No
meio dessa viagem sem fim, as duas caravelas foram assoladas por
uma tormenta que as levou para alto-mar. Por treze dias, vagaram
às cegas. Bartolomeu Dias não desistia. Continou tentando
seguir adiante, até que a tripulação se rebelou.
Exaustos, famintos, com medo, os marinheiros exigiram voltar. O
capitão, a contragosto, fez cada um assinar um documento
que atestava a sua disposição de ir até o fim:
só aceitava retornar por decisão da maioria. Dizem
que chorou ao dar meia-volta. Começa a manobra, e eis que
lhes surge à frente um imenso cabo só então
se deram conta de que, levados pela tempestade e pelos ventos que
a ela se seguiram, tinham dobrado a ponta da África sem nem
perceber! A porta marítima do caminho das Índias,
que segundo a crença vigente por tanto tempo não existia,
estava aberta.
Mais
adiante, reuniram-se à nave de mantimentos, onde encontraram
vivos apenas três dos nove homens lá deixados
e um morreu assim que os viu. Embarcaram os sobreviventes, queimaram
a nau de víveres, como de costume (para manter secretos os
detalhes da sua construção) e subiram o resto do litoral
a oriente da África, que esta sua viagem acabara de reivindicar
inteiro para Portugal. Dezesseis meses depois da partida para essa
saga fenomenal, Bartolomeu Dias e os sobreviventes de sua tripulação
aportam em Lisboa. Ao tomar conhecimento, o rei, eufórico,
muda o nome da passagem: vai-se o Cabo das Tormentas, viva o Cabo
da Boa Esperança, enfim confirmada. Resta agora a realização
do sonho de chegar às Índias.
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A
aventura dos descobrimentos, por mar, teve um prodigioso e
pouco conhecido capítulo por terra. Enquanto despachava
caravelas para sondar a rota das Índias, o rei dom
João II também mandou olheiros em missão
secreta pela África, Arábia e Oriente. O objetivo
era desvendar mistérios dos países distantes
e, depois, estabelecer contato com um lendário rei
cristão chamado Preste João, que há muito
vem incendiando a imaginação dos europeus. Nessa
tarefa, partiram de Portugal, em 1487, dois emissários
reais: Pero de Covilhã e Afonso de Paiva. Uma dupla
destemida, fluente no árabe, conhecedora das coisas
dos mouros e experiente na arte de espionar para el-rei.
Disfarçados
de mercadores árabes, percorreram Alexandria, Cairo
e Aden. Separaram-se, combinando reencontro no Egito. Jamais
cumpriram o trato Afonso de Paiva morreu em seguida.
Pero de Covilhã seguiu na missão de olheiro.
Esteve nas Índias, na costa leste da África,
na misteriosa Ilha da Lua. De suas andanças, tirou
uma certeza de vital importância para os planos de Portugal:
a existência de uma passagem marítima na extremidade
da África. Ao voltar ao Cairo, para encerrar a bem-sucedida
missão, encontrou-se com dois emissários com
novas ordens do rei: ir atrás das misteriosas terras
de Preste João. Súdito obediente, foi em frente.
Nunca mais deu notícia. Mas, sendo Pero de Covilhã
um homem de mil misteres, ainda pode ser que ouçamos
um dia a sua história.
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