Veja na História
DESCOBRIMENTO
 1° de julho de 1501
Descobrimentos

À custa de teimosia e sacrifícios, as caravelas dobram a ponta da África

o se aventurar pelo mar que bordeja a África ocidental, Portugal ganhou nova dimensão no mundo. Para aqui acorreram marinheiros, aventureiros, espiões – de Veneza, de Gênova, da Espanha. Sabia-se, de ouvir dizer, que a costa da África era rota traiçoeira, sujeita a borrascas, a calmarias, a correntes inesperadas. Como, então, tinham conseguido avançar os navegantes portugueses? De que instrumentos dispunham? Que orientações seguiam? Foi nesse período, enquanto as caravelas avançavam arduamente pelas águas do sul, que o português se tornou a língua franca da navegação e Lisboa, o pólo de atração dos que buscam saber marítimo. Era a hora de Portugal assegurar as conquistas obtidas, tarefa para a qual o rei dom Afonso V convocou a iniciativa privada.

Enredado em disputas políticas com a Espanha, dom Afonso expandiu as descobertas marítimas lançando mão de um expediente simples e eficaz: deu o monopólio do comércio na região africana onde vicejava o comércio do ouro a Fernão Gomes, rico negociante lisboeta. Em troca da concessão, ele devia reservar à coroa uma parte dos lucros e explorar pelo menos 100 léguas de litoral por ano, durante cinco anos. Enquanto vigorou, a associação deu certo. O rei, no entanto, tinha um filho e sucessor ambicioso (o futuro rei dom João II), homem de caráter centralizador e interessadíssimo em monopolizar os lucros do comércio ultramarino. A peça-chave de sua política externa foi a construção do Castelo de São Jorge da Mina, misto de fortaleza e entreposto comercial, erguido na costa africana para garantir o comércio do ouro. Com o estímulo de dom João, as naves portuguesas cruzaram pela primeira vez a linha do Equador. Para isso, tiveram de aprender a navegar com base em informações astronômicas inteiramente novas. Os portugueses navegavam no Hemisfério Norte usando a estrela Polar como referência. No Hemisfério Sul, não se avista essa estrela. Foi preciso então buscar novas referências no céu, com a ajuda dos astrônomos.

Baseado nesses novos cálculos, Diogo Cão, reputadíssimo navegador do oceano, pôde continuar descendo o litoral africano, engolindo cada vez mais território. Em suas naves viajaram, pela primeira vez, os padrões de pedra que agora assinalam a posse portuguesa das áreas descobertas. Quanto mais longas foram ficando as viagens, mais duras as condições a bordo.

Foi assim, de imensos sacrifícios, a descida pela costa africana. Quanto mais desciam, mais perto chegavam de uma esperança – confirmar a existência de uma passagem, o Cabo das Tormentas, no extremo sul do continente – que realizaria um sonho – atingir as Índias pelo caminho do mar. A África era ouro, prata, marfim, escravos, pimenta, muitas maneiras de renda e comércio. Mas as Índias – ah, as Índias eram riquezas infinitas de um jaez desconhecido na Europa cristã, sedas e pedrarias cem fim, especiarias de todos os cheiros e sabores, um cintilante mistério a ser desvendado. Como seria essa terra? Como seriam os índios que lá habitavam? Na ânsia de encontrar aliados que ajudassem a quebrar o estrangulamento do comércio por terra com o Oriente, controlado pelos infiéis muçulmanos, imaginou-se aqui, durante muito tempo, que lá existiriam cristãos. Alcançar as Índias pela via do Mar Oceano iria ao mesmo tempo instalar Portugal no centro desse comércio, em situação vantajosa, e somar forças contra o inimigo islâmico.

Uma conjunção perfeita, que dom João II se esforçou para transformar em realidade. Em 1487, despachou duas missões na direção das Índias, uma por terra, de informação (veja quadro abaixo), e outra, exploratória, por mar. À frente desta, colocou um de seus mais experientes capitães, Bartolomeu Dias, que partiu em agosto com duas caravelas e uma nave exclusivamente carregada de mantimentos. Dias chegou ao último ponto conhecido da costa africana, o Cabo das Voltas, e continuou descendo. De tempo em tempo, ancorava e depositava em terra um dos seis africanos que, bem vestidos à portuguesa e portando pequena quantidade de ouro, prata e especiarias, tinham a tarefa de indicar aos nativos o tipo de comércio que Portugal buscava. A certa altura, mandou o navio de mantimentos ancorar e esperar por sua volta.

No meio dessa viagem sem fim, as duas caravelas foram assoladas por uma tormenta que as levou para alto-mar. Por treze dias, vagaram às cegas. Bartolomeu Dias não desistia. Continou tentando seguir adiante, até que a tripulação se rebelou. Exaustos, famintos, com medo, os marinheiros exigiram voltar. O capitão, a contragosto, fez cada um assinar um documento que atestava a sua disposição de ir até o fim: só aceitava retornar por decisão da maioria. Dizem que chorou ao dar meia-volta. Começa a manobra, e eis que lhes surge à frente um imenso cabo – só então se deram conta de que, levados pela tempestade e pelos ventos que a ela se seguiram, tinham dobrado a ponta da África sem nem perceber! A porta marítima do caminho das Índias, que segundo a crença vigente por tanto tempo não existia, estava aberta.

Mais adiante, reuniram-se à nave de mantimentos, onde encontraram vivos apenas três dos nove homens lá deixados – e um morreu assim que os viu. Embarcaram os sobreviventes, queimaram a nau de víveres, como de costume (para manter secretos os detalhes da sua construção) e subiram o resto do litoral a oriente da África, que esta sua viagem acabara de reivindicar inteiro para Portugal. Dezesseis meses depois da partida para essa saga fenomenal, Bartolomeu Dias e os sobreviventes de sua tripulação aportam em Lisboa. Ao tomar conhecimento, o rei, eufórico, muda o nome da passagem: vai-se o Cabo das Tormentas, viva o Cabo da Boa Esperança, enfim confirmada. Resta agora a realização do sonho de chegar às Índias.

 

A aventura dos descobrimentos, por mar, teve um prodigioso e pouco conhecido capítulo por terra. Enquanto despachava caravelas para sondar a rota das Índias, o rei dom João II também mandou olheiros em missão secreta pela África, Arábia e Oriente. O objetivo era desvendar mistérios dos países distantes e, depois, estabelecer contato com um lendário rei cristão chamado Preste João, que há muito vem incendiando a imaginação dos europeus. Nessa tarefa, partiram de Portugal, em 1487, dois emissários reais: Pero de Covilhã e Afonso de Paiva. Uma dupla destemida, fluente no árabe, conhecedora das coisas dos mouros e experiente na arte de espionar para el-rei.

Disfarçados de mercadores árabes, percorreram Alexandria, Cairo e Aden. Separaram-se, combinando reencontro no Egito. Jamais cumpriram o trato – Afonso de Paiva morreu em seguida. Pero de Covilhã seguiu na missão de olheiro. Esteve nas Índias, na costa leste da África, na misteriosa Ilha da Lua. De suas andanças, tirou uma certeza de vital importância para os planos de Portugal: a existência de uma passagem marítima na extremidade da África. Ao voltar ao Cairo, para encerrar a bem-sucedida missão, encontrou-se com dois emissários com novas ordens do rei: ir atrás das misteriosas terras de Preste João. Súdito obediente, foi em frente. Nunca mais deu notícia. Mas, sendo Pero de Covilhã um homem de mil misteres, ainda pode ser que ouçamos um dia a sua história.