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Cidades
VEJA, 1° de julho de 1501
A cidade que mais cresce na Europa anuncia
estratégia para estancar a degradação e espelhar grandeza emergente
 Lisboa
é hoje a cidade que mais cresce em toda a Europa. Com seus
50.000 moradores, engrossados por estrangeiros atraídos pelas
oportunidades criadas com a expansão marítima, já
supera a rival Sevilha, a maior da Espanha. A manter o ritmo atual,
Lisboa dobrará de tamanho ainda neste século. Junto
com o crescimento da população, os problemas da cidade
aumentam diariamente. A fome grassa por suas vielas, que raramente
passam de 8 palmos de largura, invadidas por miseráveis.
Estimam-se em perto de 1.000 o número de desocupados que
anda a pedir esmola, sem contar os outros tantos entregues aos pequenos
furtos. O Hospital Real de Todos os Santos já não
tem condições de atender aos enfermos que vão
dar em sua porta, vítimas da desnutrição, das
péssimas condições de saneamento ou dos surtos
ocasionais de peste. Diante de tamanha desordem, o governo real,
entusiasmado com as verbas que o comércio d'além-mar
promete gerar, começa a reagir. Em fase de cofres cheios,
constrangido com a rusticidade de seu velho burgo, dom Manuel anuncia
novas obras e um conjunto de leis nas áreas de saúde
e segurança pública.
O
rei quer tornar Lisboa gloriosa, diferente da cidade feia e suja
que hoje causa má impressão aos visitantes acostumados
à sofisticação de Paris ou Florença.
Planeja erguer monumentos comemorativos das conquistas portuguesas,
como os que embelezam outras capitais européias. A construção
de um suntuoso mosteiro (veja quadro abaixo) poderá
compensar, ao menos em parte, a carência de edificações
portentosas. Lisboa não tem sua Notre-Dame e está
longe de exibir uma catedral como a de Antuérpia. Obras de
infra-estrutura, embora menos visíveis, também estão
nos planos. A implantação de canos de esgoto que despejem
detritos diretamente nas praias, aliviando o mau cheiro, é
uma delas. Até agora, o único combate aos odores dessa
natureza tem se dado por meio do fumo de alecrim, subsidiado pela
câmara municipal. O serviço público de coleta
de lixo é outra solução, já a caminho.
A
Lisboa que desperta para o século XVI, puxada pela agitação
de seus estaleiros, disporá de leis específicas para
combater seus piores problemas. A peste, cíclica na cidade,
será alvo de um regimento especial, que previna o contágio
e evite epidemias como as que mataram, entre centenas de milhares
de vítimas comuns, os reis dom Duarte e dom Afonso V. Apesar
da falta de higiene arraigada no povo, uma campanha de persuasão
está estimulando a prática do banho, tida como fundamental
para a boa saúde. O combate contra a criminalidade também
está endurecendo, como ilustra a criação de
um novo tipo de funcionário público, o chamado "pai
dos velhacos". Sua função é encaminhar
os meninos que vivem na rua a casas de família, onde possam
trabalhar em troca de guarida, desviando-se assim do caminho do
roubo. Já os ladrões pegos em flagrante serão
punidos de forma severa. Quem roubar até 300 réis
terá as orelhas cortadas com os apêndices exibidos
em praça pública, a título de alerta.
As
novas medidas anunciadas pelo rei para melhorar Lisboa são
fundamentais, mas estão longe de garantir à cidade
um aspecto compatível com a capital mundial da navegação.
Ao contrário das cidades italianas, por exemplo, nas quais
a água jorra em numerosas fontes, em Lisboa faltam chafarizes.
É preciso valentia ou dinheiro sobrando para matar a sede,
já que escravos e gente do povo brigam pela vez nos bebedouros
públicos. Os hábitos alimentares da população
seguem impregnados de insalubridade. O comércio de gêneros
alimentícios é dominado por ambulantes, geralmente
mulheres, que oferecem porções de arroz e cuscuz.
Sardinhas assadas em braseiros ao ar livre fazem grande sucesso
nas barracas da Ribeira das Naus, o centro da indústria da
construção naval, cognominado de "mal cozinhado"
por causa dos odores desagradáveis. O pão que o povo
come assa-se com um trigo encardido de terra, uma vez que em Portugal
não se costuma separá-lo do joio. Com tantos problemas,
Lisboa tornou-se a principal via de comércio de nossos dias.
Pelo Rio Tejo navegam em número cada vez maior as embarcações
que vão descobrir o mundo e buscar mercadorias. É
uma cidade que não pode parar mas, definitivamente,
precisa se organizar melhor.
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Mais
que um templo religioso, o Real Mosteiro dos Jerônimos
deverá ser o símbolo de uma época e de
uma ideologia. A época é das conquistas portuguesas.
A ideologia, da evangelização do mundo
o estandarte da propagação da fé cristã
fornece o ânimo que impulsiona o coração
dos aventureiros que se lançam ao desconhecido do Mar
Oceano, enquanto a promessa de lucro lhes agita o bolso. Dom
Manuel entende que a arquitetura pode alcançar um tempo
além do presente e, assim, perpetuar através
de suas formas o contexto cultural em que foi concebida. A
ambição do rei é criar um monumento que
reflita a transformação da História de
Portugal. As imagens entalhadas na fachada do mosteiro terão
a mesma função de um livro, narrando não
uma passagem bíblica, mas sim as ações
do rei em seu ofício. Será uma espécie
de memorial do Estado português, verdadeira súmula
do poder manuelino.
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| O mosteiro que começa a ser
erguido é um símbolo do triunfo português
durante o reinado de dom Manuel
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Não
por acaso, o projeto arquitetônico compreende o mosteiro
e o Palácio Real, interligados por um corredor de arcos.
A posição estratégica, no limite da Zona
Oeste da cidade de Lisboa e próximo à praia,
fará com que o mosteiro seja visto do Tejo. O rio,
por sua vez, funcionará como espelho para a fachada
sul da construção, que será refletida
em suas águas. Instalada em Portugal há quase
um século e meio, a Ordem de São Jerónimo
tradicionalmente mantém seus membros em clausura, vivendo
de donativos. Para ver sua glória talhada em pedra,
dom Manuel interferiu no Vaticano e pôs os bons frades
a serviço do portentoso mosteiro, no projeto desenhado
pelo arquiteto Boitaca.
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