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Arte
VEJA, 1° de julho de 1501

Idéia de que o fim dos tempos está próximo inspira demônios e monstros de Bosch

sopro de modernidade e de expectativas otimistas que varre o planeta, na onda das descobertas, convive com uma tendência completamente oposta. A idéia de que o fim do mundo está próximo agita a cristandade nos dias de hoje com impulso renovado. A segunda vinda de Cristo, precedida de grandes catástrofes, tal como prevê a Bíblia, tem sido profetizada regularmente. Em determinadas épocas, em especial de grandes pestes, fome ou insegurança, parece prestes a acontecer. A Igreja Católica prepara seus fiéis para o dia do Juízo Final, alardeando os castigos que sofrerão os descrentes e pecadores. Ao contrário de profetas do passado, que encontravam eco em grupos isolados, hoje o discurso sobre o fim dos tempos insufla multidões assustadas, a quem o temor de castigos eternos conduz ao caminho da penitência purificadora. Invocando o que chamam de decadência moral da humanidade, os pecados cometidos sem parcimônia e até os cataclismos da natureza, novos profetas do apocalipse surgem a cada dia. Até o navegador Cristóvão Colombo, convicto de que o Juízo Final se aproxima, tem gasto seu tempo e conhecimento matemático para precisar o fim do mundo. Segundo Colombo, isso acontecerá em 1650.

Luminosa e humanista entre os representantes do chamado renascimento cultural na Itália, a arte também abre espaço para essa tendência apocalíptica. As "visões" do fim do mundo são materializadas em desenhos e pinturas que procuram traçar um panorama da danação que nos aguarda. O pintor Hieronymus Bosch, sob a influência de uma formação religiosa fortíssima e talvez do clima sombrio dos Países Baixos, tem dado forma a passagens bíblicas que tratam do apocalipse. Bosch pinta grandes painéis nos quais mistura diferentes situações bíblicas, em efeitos desconcertantes. Sua mais surpreendente obra, A Tentação de Santo Antônio, finalizada no ano passado, retrata um mundo corrupto, grotesco e putrefato. Ainda assim, toda a decadência mostrada é incapaz de abater o santo, convicto de sua fé.

Para chegar a tal resultado, o pintor não se limitou a espelhar o espetáculo da loucura e do pecado, nem mesmo os horrores do inferno. Inspirado possivelmente na crença de que o Anticristo não tardará e que o Juízo Final se aproxima, Bosch mostra Santo Antônio com um olhar confiante, apesar de toda a perversão que o circunda. O santo, que viveu mais de 100 anos entre os séculos III e IV, passou a maior parte da vida no deserto do Egito. Piedoso, despertou a ira de Satanás, tornando-se alvo de insistentes assaltos demoníacos. Passagens como essas foram recriadas por Bosch num cenário mágico, no qual se misturam monstros imaginários, incêndios e situações macabras. Numa delas, uma ave engole suas crias, recém-saídas dos ovos.

A variedade de monstros e diabos na tela é espantosa, numa alegoria aos tormentos que afligiam a alma do santo peregrino. Há um demônio com crânio de cavalo, tocando alaúde; um peixe, metade gôndola, engolindo um homem; uma mulher com cauda de lagarto cavalgando uma ratazana. São imagens asquerosas, que no entanto exercem enorme fascínio. Ao retratar o fim dos tempos, Bosch entrou num caminho que o está levando a uma perturbadora inversão de valores. Em vez de imortalizar o belo com suas pinceladas, Bosch transforma o bizarro em arte. O tempo nos dirá se esse tipo de arte tem futuro. Se ainda existir o mundo, é claro.

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