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Seções
VEJA, outubro de 1962

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| Guimarães Rosa: personagens rurais |
Primeiras Estórias, de João Guimarães Rosa – O escritor mineiro, autor dos notáveis romances Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas, ambos de 1956, retorna aos contos em seu novo livro. Foi nesse formato que ele estreou como ficcionista, com Sagarana, de 1946. Primeiras Estórias reúne 21 contos, quase todos envolvendo personagens e paisagens rurais – uma marca do autor nascido no interior de Minas Gerais. Guimarães Rosa transita com desenvoltura entre as diversas vertentes, cores e abordagens do gênero – entre um "causo" e outro, vai do fantástico ao satírico, da comédia à tragédia, do erudito ao popular.
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| Quintana: momentos mais brilhantes |
Poesias, de Mário Quintana – Edição que reúne o melhor da obra do escritor, jornalista e tradutor gaúcho, que não publicava novos textos desde Inéditos e Esparsos, de 1953. O volume traz cinco trabalhos consagrados do poeta: A Rua dos Cataventos (coleção de sonetos, de 1940), Canções (1946), O Sapato Florido (poesia e prosa, de 1948), O Aprendiz de Feiticeiro (1950) e O Espelho Mágico (coleção de quartetos, 1951). Um dos grandes nomes da poesia moderna do país, Mário Quintana demonstra talento nas mais diversas formas poéticas – e a coletânea retrata alguns de seus momentos mais brilhantes.
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| Ken Kesey: experiências com drogas |
Um Estranho no Ninho, de Ken Kesey – Romance de estréia do jovem escritor, é uma desconfortável e fascinante viagem ao subterrâneo americano. O protagonista, Randle McMurphy, é um sujeito problemático que se finge de maluco para escapar da cadeia. Transferido para um hospício, enfrenta o tratamento cruel dispensado pelos médicos e enfermeiras aos pacientes. O livro começa a ganhar status icônico entre os jovens do país, que enxergam no trabalho de Kesey um atualíssimo libelo contra o conformismo. O autor, de apenas 27 anos, foi voluntário de experiências com drogas psicoativas enquanto estudava na Universidade Stanford, na Califórnia. Também foi servente noturno num hospital para veteranos de guerra – foi lá, sob efeito de narcóticos e conversando com os pacientes internados, que ele colheu a inspiração para o romance.

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| A 'lolita' Sue Lyon: de 12 para 14 anos |
Lolita, de Stanley Kubrick – O cineasta americano, o mesmo de Glória Feita de Sangue e Spartacus, precisou de coragem para encarar o desafio de levar o polêmico livro de Vladimir Nabokov às telas. O romance, lançado em 1955, foi alvo dos censores em diversos países. O mesmo acontece com a adaptação cinematográfica, que renovou os protestos pela "indecência" da trama. Lolita conta a história de um homem maduro apaixonado por uma menina de 12 anos. No caso do filme, a idade da garota subiu para 14 anos. No início, Nabokov aprovou o projeto. Depois, no entanto, criticou o resultado. Deve ser reconhecido pelo menos um grande mérito à adaptação de Kubrick: explorar a carga humorística do romance, contando com o talento de um belo grupo de atores. Sobretudo James Mason, no papel principal, tem desempenho na medida, entre o sinistro e o sardônico. A atriz Sue Lyon, de 14 anos, se sai muito bem no papel-título. Ao ver o filme, a famosa crítica cinematográfica Pauline Kael sentenciou: “Estamos diante da melhor comédia americana desde os anos 40”.
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| O cômico Mastroianni: impagável |
Divórcio à Italiana, de Pietro Germi – Divertida comédia estrelada pelo astro italiano Marcello Mastroianni. Ele interpreta o hilário barão siciliano Fefé Cefalù, infeliz com a mulher, Rosalia (Daniela Rocca), e apaixonado por uma bela prima, Angela (Stefania Sandrelli), que costuma passar os verões em seu palacete. Como o divórcio é proibido na Itália, ele decide matar Rosalia. Antes, precisa arrumar um amante para a própria esposa – se conseguir levar Rosalia a praticar adultério, o barão pode alegar que praticou o crime em defesa da honra e, assim, escapar da condenação no tribunal. O elenco de apoio é engraçadíssimo, mas Mastroianni, é claro, rouba a cena.
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| Cena de 'Assalto': policial de qualidade |
Assalto ao Trem Pagador, de Roberto Farias – Depois do triunfo internacional de O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte, Palma de Ouro no último Festival de Cannes, o cinema brasileiro apresenta mais uma boa novidade. O policial estrelado por Reginaldo Faria e Grande Otelo é baseado em um acontecimento real – o ousado assalto ao trem pagador da Central do Brasil, em 1960, no Rio de Janeiro. O diretor Roberto Farias rodou a história com ares de documentário, reconstituindo todos os passos do roubo comandado pelo temível bandido Tião Medonho. Com roteiro bem resolvido, direção segura e fotografia de qualidade, é uma das gratas surpresas da produção nacional nos últimos anos.

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| Ray Charles: inspiração country |
Modern Sounds in Country and Western Music, de Ray Charles – Cego desde os 6 anos de idade, o pianista e cantor nascido na Geórgia, no sul dos Estados Unidos, foi presença constante nas paradas do país nos últimos anos (Georgia On My Mind, Hit the Road Jack e Unchain My Heart são alguns de seus maiores sucessos). Em busca de novos desafios, agora ele se arrisca a gravar um LP com inspiração country. O álbum reúne composições originais e velhos standards da música rancheira americana. Mas Ray Charles dá seu próprio tempero a esses clássicos, que ressurgem com as linguagens do jazz e do rhythm & blues. Quando anunciou a idéia, o genial músico ouviu até dos amigos mais próximos que o LP seria um fiasco. O resultado, porém, é fabuloso. Com canções como You Win Again, de Hank Williams, e I Can't Stop Loving You, de Don Gibson, o álbum talvez seja o melhor de toda a sua carreira.
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| Elvis: cantor competente, ator canastrão |
Girls! Girls! Girls!, de Elvis Presley – A trilha sonora do novo filme do ídolo das adolescentes compensa a bobagem que é a fita (ela será lançada nos cinemas do Brasil com o título Garotas e Mais Garotas). Presley, cantor competente mas ator canastrão, faz o papel de um pescador pobretão que acaba enroscado com um séquito de moças no Havaí. Esqueça as cenas tolas de Presley requebrando na praia. O que importa aqui é a divertida coleção de canções que embala o roteiro. Return To Sender, de Otis Blackwell e Winfield Scott, e a faixa título, da famosa dupla Jerry Leiber e Mike Stoller, já valem o preço do LP.
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| Bob Dylan em NY: pérola ignorada |
Bob Dylan, de Bob Dylan – O primeiro álbum do cantor americano de 21 anos é uma pérola ignorada do mercado fonográfico deste ano. Descoberto nos bares e cafés de Greenwich Village, em Nova York, Dylan resgata as raízes de gêneros genuinamente americanos – folk, blues, gospel – e aplica um verniz fresco nas composições tradicionais (como House of the Risin' Sun e Freight Train Blues) através de interpretações honestas e vibrantes. Como destoa dos gêneros em voga nos dias atuais, o disco passou quase despercebido nas rádios e nas lojas – vendeu apenas 5.000 cópias até agora, levando a gravadora Columbia a pensar em demitir o novato. No LP de estréia, porém, Dylan revela ser um diamante bruto, com potencial de sobra para marcar seu nome na música americana.
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