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Ponto de Vista: Leó
Szilárd
VEJA, outubro de 1962
O físico húngaro
radicado nos EUA teme que o conflito
final
seja inevitável.
Para um dos pais da bomba atômica, o
segredo
da paz
pode estar
na compreensão da história
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| A causa de Szilárd: 'precisamos mudar o comportamento de EUA e URSS' |
Nos últimos anos, todos nós tivemos diversas chances
de observar como os Estados Unidos respondem às ações
da União Soviética – e também como os russos
reagem a essas respostas dos americanos. Quem acompanhou de perto
os eventos dos últimos meses deve ter sido levado a concluir
que estamos fadados a uma guerra sem limites. Eu mesmo acredito
nisso, e acho que nossa chance de atravessar os próximos
dez anos sem uma guerra é mínima. Pessoalmente, me
encontro revoltoso com o destino que a história parece reservar
para nós, e suspeito que muitos de vocês estejam igualmente
revoltosos. A questão é: o que podemos fazer? A guerra,
de fato, parece inevitável – a não ser que seja possível
alterar de alguma maneira o padrão de comportamento exibido
por EUA e URSS no presente momento. Nós, americanos, não
estamos em posição de influenciar o governo russo.
Mas poderíamos motivar uma mudança de atitude do governo
americano, que, por sua vez, poderia acarretar numa mudança
de atitude similar no governo russo. É concebível
que, se uma minoria dedicada decidisse tomar providências
políticas efetivas, ela poderia incentivar a mudança
de atitude necessária. Mas tal minoria só pode tomar
tais providências se for possível formular objetivos
políticos ao redor dos quais ela possa se unir de verdade.
Desde o fim da II Guerra, ficou muito claro que a bomba atômica
representaria um problema sem precedentes para o mundo, um problema
que não pode ser solucionado com nada menos que a abolição
das guerras. Abolir as guerras seria, evidentemente, uma meta inatingível,
e portanto falo disso com relutância. Mas a partir do encerramento
da guerra, as políticas das grandes potências só
levaram a uma corrida armamentista sem fim. Surgiram repetidas tentativas
de cessar a corrida pelas armas por meio da negociação
de um acordo que ofereceria algum tipo de controle. Até agora,
todas essas tentativas fracassaram. E mais: cada um desses fracassos
foi seguido de uma continuação da corrida armamentista
com vigor ainda mais renovado. No fim do governo Eisenhower, esperava-se
que o próximo presidente adotasse uma nova abordagem para
o problema, que ele fizesse sua própria tentativa de manter
sob controle a corrida pelas armas. Quando Kruschev veio a Nova
York, tentei encontrá-lo, na esperança de descobrir
como ele responderia a essa tentativa. Avisaram-me que teria quinze
minutos com ele, mas a conversa acabou se prolongando por duas horas.
Não se sabia naquele tempo se Kennedy ou Nixon seria eleito,
mas comecei a conversa dizendo que qualquer um deles tentaria alcançar
um entendimento com os russos na questão da corrida armamentista.
Kruschev respondeu, com toda a seriedade possível, que ele
também acreditava nisso. Mas aí veio a invasão
à Baía dos Porcos – e isso me pegou de surpresa. Minha
reação foi de grande alarme, pois acreditava que havia
o sério risco de guerra com os russos. Não achava
que a URSS tentaria intervir na região do Caribe, nem que
ela lançaria mísseis contra nossas cidades. Ao invés
disso, pensava que os russos fariam alguma manobra militar em outro
lugar, talvez no Oriente Médio. Não saberia dizer
o quanto chegamos perto de uma guerra total pela ocasião
daquela invasão a Cuba. Estou razoavelmente convencido, entretanto,
que se nossa intervenção tivesse sido bem-sucedida,
esse mundo teria perdido por muitos anos qualquer possibilidade
de acordo para o controle de armas com os russos.
A perspectiva histórica - Se tivermos sorte, um desarmamento
geral será capaz de eliminar o espectro da guerra, mas não
a rivalidade entre americanos e russos. Muitas pessoas, provavelmente
a maioria, acreditam que os russos são como os nazistas,
com planos concretos para conseguir, de uma forma ou de outra, subjugar
o mundo todo às suas vontades. Muitas pessoas enxergam o
mundo em preto-e-branco. Elas acreditam que os países estão
divididos em duas classes: as nações que amam a paz
e as nações que a odeiam. EUA, França, Grã-Bretanha
e nossos aliados em geral, incluindo a Alemanha Ocidental e o Japão,
hoje são nações que amam a paz, enquanto URSS
e China não o são. Vinte anos atrás, a situação
era bem diferente – naquele tempo, a Rússia era uma nação
que amava a paz, mas Alemanha e Japão não. Muitas
pessoas acreditam que, desde que a bomba atômica forçou
a rendição incondicional do Japão, nosso país
tenta incessantemente livrar o mundo dessa arma, mas vê seus
esforços frustrados pela intransigência russa. Quando
ouço as pessoas que têm essas opiniões, fico
com a sensação de que já vivi tudo isso antes
– e, de alguma forma, já vivi mesmo.
Eu tinha 16 anos quando
a I Guerra eclodiu. Ainda vivia na Hungria. Ao ler os jornais húngaros,
tinha a impressão de que tudo o que Áustria e Alemanha
faziam estava certo, e que tudo o que Grã-Bretanha, França,
Rússia ou EUA faziam estava errado. Não demorei muito
a desenvolver opiniões diametralmente opostas às da
maioria dos meus colegas. Alguns me perguntavam, logo no começo
da guerra, quem perderia a disputa. Eu acertei meu palpite. Não
estou dizendo isso para tentar impressionar ninguém ou mostrar
como sou brilhante. Quem passa dos sessenta não pode achar
ser tão esperto quanto era aos dezesseis (ainda que, na maioria
dos casos, não é a mente que fica deteriorada, mas
sim o caráter). O ponto que estou tentando mostrar é
o seguinte: até nos tempos de guerra é possível
enxergar os acontecimentos da hora em sua perspectiva histórica,
desde sua paixão pela verdade prevaleça sobre sua
inclinação em favor de seu próprio país.
Junto com o presidente Kennedy, novos homens entraram no governo
americano. Muitos deles entendem totalmente as implicações
do que está acontecendo e estão profundamente preocupados.
Mas eles andam tão ocupados tentando impedir que o pior aconteça
todos os dias que não têm o tempo necessário
para desenvolver um consenso sobre qual abordagem seria correta
a longo prazo. Também há muitos homens no Congresso,
particularmente no Senado, que têm uma clara compreensão
do que está ocorrendo e que também estão profundamente
preocupados, mas eles não têm a coragem necessária
para seguir suas próprias convicções. Eles
são capazes de fazer uma análise lúcida do
problema em conversas privadas mas, a certa altura, dirão:
"É claro que não posso falar isso em público".
Na Washington de hoje, a sabedoria não tem chance de prevalecer.
Vou repetir: a ameaça que a bomba representa ao mundo não
pode ser resolvida com nada menos que a abolição da
guerra. Nada menos que isso será o bastante.
Antes de tudo,
porém, devemos nos afastar da guerra de que chegamos tão
perigosamente perto. Se pretendemos despejar nossas bombas na URSS
em caso de guerra e esperamos que a URSS despeje suas bombas em
nós, de forma que ambos os países fiquem inteiramente
devastados, então isso é equivalente à ameaça
de assassinato e suicídio. Se uma grande crise internacional
ocorrer enquanto tivermos a capacidade de atacar primeiro, o governo
ficará sob intensa pressão para lançar uma
guerra preventiva. A decisão de iniciar uma guerra preventiva
é difícil para qualquer presidente, e a política
do "atacar primeiro se necessário" significa uma corrida
armamentista em que o céu é o limite. Não acredito
que os EUA ficarão seguros apenas tentando manter a dianteira
numa corrida desse tipo. E sou favorável à resistência
contra a adoção de tal política – se necessário,
através de vigorosa ação política. Nada
se ganha quando os americanos vencem algumas das batalhas insignificantes
da Guerra Fria. Uma mudança nessa atitude é urgentemente
necessária.
Leó Szilárd, de 64 anos, é
Ph.D. em Física pela Universidade Humboldt de Berlim e fundador
do Council for a Livable World, entidade independente que defende
a pacificação do planeta. Nascido em Budapeste, no
antigo Império Austro-Húngaro, foi aluno de Albert
Einstein e Max Planck antes de fugir da perseguição
nazista em Berlim. Ajudou Enrico Fermi a construir o primeiro reator
nuclear da história e, no laboratório da Universidade
Columbia, em Nova York, realizou o primeiro experimento capaz de
provar a viabilidade da fabricação de uma bomba atômica.
"Soube naquela noite que o mundo teria um futuro sombrio", recordaria
depois. Responsável direto pela criação do
Projeto Manhattan, redigiu a famosa carta enviada por Einstein à
Franklin Roosevelt – a mensagem ao então presidente encorajava
o desenvolvimento da bomba antes que os nazistas o conseguissem.
Desiludido com o uso de suas pesquisas e angustiado pelo fracasso
na tentativa de impedir os primeiros ataques atômicos na II
Guerra, Szilárd trocou de especialidade e passou a pesquisar
a Biologia Molecular. Também deu início à carreira
de ativista – sobrevivente de uma Hungria arrasada pela I Guerra,
o cientista desenvolveu grande fascínio pela missão
de preservar vidas e garantir a liberdade humana. No ano passado,
lançou um livro de crônicas, A Voz dos Golfinhos e
Outras Histórias, em que trata dos dilemas morais provocados
pela Guerra Fria e lamenta seu papel no desenvolvimento das primeiras
bombas nucleares.
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