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  CRISE DOS MÍSSEIS
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Entrevista: Robert Kennedy
  Auto-retrato: Nelson Mandela
  Ponto de Vista: Leó Szilárd
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  Brasil participa dos diálogos
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Jânio Quadros é derrotado
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Ponto de Vista: Leó Szilárd
VEJA, outubro de 1962
O físico húngaro radicado nos EUA teme que o conflito
final seja inevitável. Para um dos pais da bomba atômica, o
segredo da paz pode estar na compreensão da história
 
A causa de Szilárd: 'precisamos mudar o comportamento de EUA e URSS'

Nos últimos anos, todos nós tivemos diversas chances de observar como os Estados Unidos respondem às ações da União Soviética – e também como os russos reagem a essas respostas dos americanos. Quem acompanhou de perto os eventos dos últimos meses deve ter sido levado a concluir que estamos fadados a uma guerra sem limites. Eu mesmo acredito nisso, e acho que nossa chance de atravessar os próximos dez anos sem uma guerra é mínima. Pessoalmente, me encontro revoltoso com o destino que a história parece reservar para nós, e suspeito que muitos de vocês estejam igualmente revoltosos. A questão é: o que podemos fazer? A guerra, de fato, parece inevitável – a não ser que seja possível alterar de alguma maneira o padrão de comportamento exibido por EUA e URSS no presente momento. Nós, americanos, não estamos em posição de influenciar o governo russo. Mas poderíamos motivar uma mudança de atitude do governo americano, que, por sua vez, poderia acarretar numa mudança de atitude similar no governo russo. É concebível que, se uma minoria dedicada decidisse tomar providências políticas efetivas, ela poderia incentivar a mudança de atitude necessária. Mas tal minoria só pode tomar tais providências se for possível formular objetivos políticos ao redor dos quais ela possa se unir de verdade.

Desde o fim da II Guerra, ficou muito claro que a bomba atômica representaria um problema sem precedentes para o mundo, um problema que não pode ser solucionado com nada menos que a abolição das guerras. Abolir as guerras seria, evidentemente, uma meta inatingível, e portanto falo disso com relutância. Mas a partir do encerramento da guerra, as políticas das grandes potências só levaram a uma corrida armamentista sem fim. Surgiram repetidas tentativas de cessar a corrida pelas armas por meio da negociação de um acordo que ofereceria algum tipo de controle. Até agora, todas essas tentativas fracassaram. E mais: cada um desses fracassos foi seguido de uma continuação da corrida armamentista com vigor ainda mais renovado. No fim do governo Eisenhower, esperava-se que o próximo presidente adotasse uma nova abordagem para o problema, que ele fizesse sua própria tentativa de manter sob controle a corrida pelas armas. Quando Kruschev veio a Nova York, tentei encontrá-lo, na esperança de descobrir como ele responderia a essa tentativa. Avisaram-me que teria quinze minutos com ele, mas a conversa acabou se prolongando por duas horas.

Não se sabia naquele tempo se Kennedy ou Nixon seria eleito, mas comecei a conversa dizendo que qualquer um deles tentaria alcançar um entendimento com os russos na questão da corrida armamentista. Kruschev respondeu, com toda a seriedade possível, que ele também acreditava nisso. Mas aí veio a invasão à Baía dos Porcos – e isso me pegou de surpresa. Minha reação foi de grande alarme, pois acreditava que havia o sério risco de guerra com os russos. Não achava que a URSS tentaria intervir na região do Caribe, nem que ela lançaria mísseis contra nossas cidades. Ao invés disso, pensava que os russos fariam alguma manobra militar em outro lugar, talvez no Oriente Médio. Não saberia dizer o quanto chegamos perto de uma guerra total pela ocasião daquela invasão a Cuba. Estou razoavelmente convencido, entretanto, que se nossa intervenção tivesse sido bem-sucedida, esse mundo teria perdido por muitos anos qualquer possibilidade de acordo para o controle de armas com os russos.

A perspectiva histórica - Se tivermos sorte, um desarmamento geral será capaz de eliminar o espectro da guerra, mas não a rivalidade entre americanos e russos. Muitas pessoas, provavelmente a maioria, acreditam que os russos são como os nazistas, com planos concretos para conseguir, de uma forma ou de outra, subjugar o mundo todo às suas vontades. Muitas pessoas enxergam o mundo em preto-e-branco. Elas acreditam que os países estão divididos em duas classes: as nações que amam a paz e as nações que a odeiam. EUA, França, Grã-Bretanha e nossos aliados em geral, incluindo a Alemanha Ocidental e o Japão, hoje são nações que amam a paz, enquanto URSS e China não o são. Vinte anos atrás, a situação era bem diferente – naquele tempo, a Rússia era uma nação que amava a paz, mas Alemanha e Japão não. Muitas pessoas acreditam que, desde que a bomba atômica forçou a rendição incondicional do Japão, nosso país tenta incessantemente livrar o mundo dessa arma, mas vê seus esforços frustrados pela intransigência russa. Quando ouço as pessoas que têm essas opiniões, fico com a sensação de que já vivi tudo isso antes – e, de alguma forma, já vivi mesmo.

Eu tinha 16 anos quando a I Guerra eclodiu. Ainda vivia na Hungria. Ao ler os jornais húngaros, tinha a impressão de que tudo o que Áustria e Alemanha faziam estava certo, e que tudo o que Grã-Bretanha, França, Rússia ou EUA faziam estava errado. Não demorei muito a desenvolver opiniões diametralmente opostas às da maioria dos meus colegas. Alguns me perguntavam, logo no começo da guerra, quem perderia a disputa. Eu acertei meu palpite. Não estou dizendo isso para tentar impressionar ninguém ou mostrar como sou brilhante. Quem passa dos sessenta não pode achar ser tão esperto quanto era aos dezesseis (ainda que, na maioria dos casos, não é a mente que fica deteriorada, mas sim o caráter). O ponto que estou tentando mostrar é o seguinte: até nos tempos de guerra é possível enxergar os acontecimentos da hora em sua perspectiva histórica, desde sua paixão pela verdade prevaleça sobre sua inclinação em favor de seu próprio país.

Junto com o presidente Kennedy, novos homens entraram no governo americano. Muitos deles entendem totalmente as implicações do que está acontecendo e estão profundamente preocupados. Mas eles andam tão ocupados tentando impedir que o pior aconteça todos os dias que não têm o tempo necessário para desenvolver um consenso sobre qual abordagem seria correta a longo prazo. Também há muitos homens no Congresso, particularmente no Senado, que têm uma clara compreensão do que está ocorrendo e que também estão profundamente preocupados, mas eles não têm a coragem necessária para seguir suas próprias convicções. Eles são capazes de fazer uma análise lúcida do problema em conversas privadas mas, a certa altura, dirão: "É claro que não posso falar isso em público". Na Washington de hoje, a sabedoria não tem chance de prevalecer. Vou repetir: a ameaça que a bomba representa ao mundo não pode ser resolvida com nada menos que a abolição da guerra. Nada menos que isso será o bastante.

Antes de tudo, porém, devemos nos afastar da guerra de que chegamos tão perigosamente perto. Se pretendemos despejar nossas bombas na URSS em caso de guerra e esperamos que a URSS despeje suas bombas em nós, de forma que ambos os países fiquem inteiramente devastados, então isso é equivalente à ameaça de assassinato e suicídio. Se uma grande crise internacional ocorrer enquanto tivermos a capacidade de atacar primeiro, o governo ficará sob intensa pressão para lançar uma guerra preventiva. A decisão de iniciar uma guerra preventiva é difícil para qualquer presidente, e a política do "atacar primeiro se necessário" significa uma corrida armamentista em que o céu é o limite. Não acredito que os EUA ficarão seguros apenas tentando manter a dianteira numa corrida desse tipo. E sou favorável à resistência contra a adoção de tal política – se necessário, através de vigorosa ação política. Nada se ganha quando os americanos vencem algumas das batalhas insignificantes da Guerra Fria. Uma mudança nessa atitude é urgentemente necessária.

 Leó Szilárd, de 64 anos, é Ph.D. em Física pela Universidade Humboldt de Berlim e fundador do Council for a Livable World, entidade independente que defende a pacificação do planeta. Nascido em Budapeste, no antigo Império Austro-Húngaro, foi aluno de Albert Einstein e Max Planck antes de fugir da perseguição nazista em Berlim. Ajudou Enrico Fermi a construir o primeiro reator nuclear da história e, no laboratório da Universidade Columbia, em Nova York, realizou o primeiro experimento capaz de provar a viabilidade da fabricação de uma bomba atômica. "Soube naquela noite que o mundo teria um futuro sombrio", recordaria depois. Responsável direto pela criação do Projeto Manhattan, redigiu a famosa carta enviada por Einstein à Franklin Roosevelt – a mensagem ao então presidente encorajava o desenvolvimento da bomba antes que os nazistas o conseguissem. Desiludido com o uso de suas pesquisas e angustiado pelo fracasso na tentativa de impedir os primeiros ataques atômicos na II Guerra, Szilárd trocou de especialidade e passou a pesquisar a Biologia Molecular. Também deu início à carreira de ativista – sobrevivente de uma Hungria arrasada pela I Guerra, o cientista desenvolveu grande fascínio pela missão de preservar vidas e garantir a liberdade humana. No ano passado, lançou um livro de crônicas, A Voz dos Golfinhos e Outras Histórias, em que trata dos dilemas morais provocados pela Guerra Fria e lamenta seu papel no desenvolvimento das primeiras bombas nucleares.

 

O temor de um holocausto nuclear
Filme educativo americano mostra como proceder em caso de ataque com bombas atômicas contra seu território
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