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Internacional
VEJA, outubro de 1962
Uma disputa de fronteiras desencadeia um conflito armado
entre os dois países
mais populosos do planeta. Quais são os
verdadeiros
perigos da nova
guerra entre China e Índia?
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| O calvário dos combatentes: as batalhas são travadas na Cordilheira do Himalaia, sob temperaturas congelantes |
A crise dos mísseis de Cuba não foi o único choque entre pesos-pesados da política internacional nas últimas semanas. Enquanto as atenções de quase todo o mundo se voltavam para Estados Unidos e União Soviética, outras duas nações importantes iniciavam um perigoso conflito armado na Ásia. Os gigantes envolvidos nessa disputa são nada menos que os dois países mais populosos do planeta: China e Índia. A luta ainda está no começo e o motivo da discórdia – uma disputa territorial – tem tudo para ser solucionado por vias diplomáticas. Quando se trata de uma guerra entre dois países de tamanha grandeza, porém, qualquer temor é justificável. Acredita-se que chineses e indianos chegarão a um acordo e acabarão com as hostilidades dentro de um prazo relativamente curto. Em caso de escalada do conflito, contudo, o mundo teria razão de sobra para entrar em pânico. Se resolvessem mobilizar suas gigantescas populações para o combate, China e Índia seriam capazes de protagonizar algumas das mais épicas batalhas da história. A briga ganha contornos ainda mais dramáticos quando se lembra do conturbado passado recente dos dois países – um se envolveu numa sangrenta guerra civil; o outro, numa duríssima campanha de independência – e quando se conhece o terreno do front. Os chineses e indianos combatem a alturas de quase 5.000 metros e sob temperaturas congelantes, fazendo da campanha um pesadelo de logística para os generais e um calvário insuportável para os combatentes.
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| Nehru com o Dalai Lama: olho no Tibete |
Em jogo na guerra estão dois territórios montanhosos localizados na Cordilheira do Himalaia, na fronteira entre os vizinhos. A primeira porção de terra disputada é Aksai Chin, território de tamanho equivalente ao da Suíça, que a Índia afirma ser parte da Caxemira e a China garante fazer parte da região de Xinjiang. A outra área pleiteada por ambos é a região de Arunachal Pradesh, quase do tamanho da Áustria, chamada pelos chineses de Tibete do Sul. Em ambos os casos, o fato de chineses e indianos travarem uma guerra por seu controle causa espanto – as duas regiões são altíssimas e inóspitas, com poucos recursos naturais e escassos terrenos habitáveis. O que, então, levou os gigantes à guerra? Uma definição de fronteiras que há décadas provoca polêmicas é certamente o ponto de partida. No decorrer dos anos, a divisão nebulosa dos territórios proporcionou dezenas de pequenos incidentes e provocações. A fagulha que faltava era a situação do Tibete. Ocupado pela China desde 1950, o território seria objeto da cobiça da Índia. A versão ganhou mais força em Pequim em 1959, quando os indianos ofereceram abrigo ao líder espiritual tibetano, o Dalai Lama, que fugiu de Lhasa depois de um frustrado levante popular contra os chineses. Como as duas regiões em disputa na presente guerra são importantes para o domínio do Tibete, a chave para compreender o conflito está mesmo nesse pequeno e sagrado território.
Os primeiros conflitos armados na fronteira foram registrados em junho, quando um tiroteio matou dezenas de soldados chineses. Desde então, os dois exércitos se preparam para a guerra e trocam gestos hostis. O estopim do confronto foi uma ofensiva brutal dos chineses contra as tropas indianas estacionadas na área, no último dia 20. Depois de quatro dias de intensos combates – com algumas centenas de baixas em ambos os lados –, as forças de Pequim conquistaram um pedaço significativo da região. Foi quando o governo chinês ordenou que as tropas fincassem sua bandeira e parassem ali mesmo, suspendendo todas as operações militares e abrindo caminho para a negociação com o primeiro-ministro indiano, Jawaharlal Nehru. Numa carta enviada aos indianos, o premiê chinês, Zhou Enlai, propunha uma saída pacífica para a disputa, com os dois lados recuando vinte quilômetros cada em suas posições atuais. Esse acordo, é óbvio, favoreceria Pequim, que já tinha avançado quase 60 quilômetros em relação à divisa original – portanto, a China ganharia uma porção adicional do território. Até o fechamento da presente edição de VEJA, o impasse continuava, já que Nehru respondeu à carta de Zhou aceitando uma trégua apenas em caso de recuo às posições iniciais. Vista no Ocidente como mais um ato de agressão do bloco comunista – mesma percepção provocada pela crise dos mísseis de Cuba –, a contenda continua. Curiosamente, nenhum dos lados ainda declarou guerra oficialmente ou rompeu relações diplomáticas com o vizinho.
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