Veja na História Vídeo Áudio
  CRISE DOS MÍSSEIS
NESTA EDIÇÃO
SEÇÕES
Entrevista: Robert Kennedy
  Auto-retrato: Nelson Mandela
  Ponto de Vista: Leó Szilárd
  Veja Recomenda
  Gente
  Datas
ESPECIAL
A crise dos mísseis de Cuba
  A cronologia do episódio
  Fidel Castro, o falastrão
  Brasil participa dos diálogos
  Infográfico: ameaça na ilha
BRASIL
João Goulart e as eleições
Jânio Quadros é derrotado
Um plano para a educação
INTERNACIONAL
De Gaulle e o Referendo na França
Chineses e indianos em guerra
GERAL
Começa o Concílio Vaticano II
Pelé conquista outro Mundial
ARTES E ESPETÁCULOS
Elizabeth Taylor em 'Cleópatra'
Dissidente soviético lança livro
Vinícius de Moraes agora canta
VÍDEOS
Índice
Geral
VEJA, outubro de 1962
Com o drama da Copa superado, Pelé chega aos 500 gols,
conquista o campeonato mundial de clubes e desperta a cobiça dos poderosos
clubes da Europa. A última oferta: um milhão de dólares
Atropelamento em Lisboa: Pelé marca o segundo gol na decisão do Mundial, contra o Benfica, no Estádio da Luz


Na Copa do Mundo do Chile, em junho último, Pelé enfrentou a maior decepção de sua curta e já extraordinária carreira. Levantou outra vez a taça Jules Rimet, é verdade – somou o título de mais jovem bicampeão do mundo (21 anos) à sua majestosa galeria de troféus e recordes. Mas o maior jogador de futebol do planeta pouco conseguiu fazer nos gramados chilenos. Caçado de forma selvagem pelos zagueiros adversários, ficou fora de combate já na segunda partida, contra a Checoslováquia, no Estádio Sausalito, em Viña del Mar. Teve de acompanhar os jogos que restavam no banco, com as pernas latejantes de dor. Neste mês, contudo, Pelé voltou a encantar o mundo da bola. Se não decidiu o Mundial com a seleção, Pelé ganhou um troféu equivalente entre clubes, pelo Santos. Foi o primeiro campeonato mundial conquistado por um time do país – nas duas edições anteriores, Real Madrid, da Espanha, e Peñarol, do Uruguai, foram os vencedores. A decisão, disputada no último dia 11, em Lisboa, foi um espetáculo único. Pelé humilhou o Benfica, bicampeão da Europa, em pleno Estádio da Luz, diante de 75.000 torcedores. Voltou ao país coberto de glórias – e cheio de convites milionários para trocar o Santos pelo futebol europeu.

goulart
Talento e mágica: ele não está à venda

Primeiro clube brasileiro a ganhar a Taça Libertadores da América, em agosto, contra o Peñarol, o Santos ganhou a chance de disputar com o Benfica (vencedor da Copa dos Campeões da Europa) o troféu de melhor equipe de futebol do globo. Na primeira partida entre os rivais, em 19 de setembro, os brasileiros ganharam no Maracanã: 3 a 2, com dois gols de Pelé e um de Coutinho. Na partida da volta, na Luz, na capital de Portugal, o clima era outro. Base da seleção portuguesa e casa do craque africano Eusébio, o "pantera negra", o Benfica apostava numa vitória contundente contra os visitantes – tanto que a esquadra lisboeta já preparava a venda de ingressos para uma eventual partida de desempate, que seria disputada no próprio Estádio da Luz. Mas os lusos foram atropelados pelos brasileiros. O Santos colocou cinco bolas nas redes do rival, com três tentos de Pelé, um de Coutinho e outro de Pepe. O camisa dez do Santos não desconcertou apenas os zagueiros: chamou até Eusébio para dançar (em certo momento da partida, enfiou a bola entre as pernas da fera de Moçambique). O Benfica ainda diminuiu, com dois gols de Santana, mas o recado estava dado – com o 5 a 2, os brasileiros levantavam a cobiçada taça sob aplausos exaltados da torcida rival, que não resistiu aos fascínios de Pelé e passou a festejar a apresentação brasileira. A campanha do Santos foi imaculada: em onze partidas pela Taça Libertadores e pelo Mundial, foram oito vitórias e três empates. A equipe formada em Vila Belmiro já é, sem sombra de dúvida, uma dos maiores da história do futebol.

O clube da baixada santista reúne grandes craques de bola, como Gilmar, Zito, Dorval, Mengálvio, Coutinho e Pepe. Mas a diferença, evidentemente, está nos pés de Pelé. Quatro anos depois de assombrar o mundo com seu futebol esplendoroso na Copa do Mundo da Suécia, quando tinha apenas 17 anos, o jovem gênio parece melhorar a cada dia, se é que isso é possível – fonte inesgotável de talento e mágica, Pelé não pára de quebrar marcas e acumular façanhas. No mês passado, por exemplo, marcou seu gol de número 500, numa partida entre Santos e São Paulo. Já faz as contas para a chegada de um possível gol número mil, uma proeza que nenhum craque conseguiu até hoje. Mantido seu ritmo frenético de gols, poderia atingir a marca por volta de 1968. Para desespero dos torcedores brasileiros, o recorde pode ser batido bem longe da Vila Belmiro, do Pacaembu ou do Maracanã. As ofertas para levar Pelé para a Europa são cada vez mais tentadoras. Uma das propostas recentes chegou a 1 milhão de dólares. O Santos, no entanto, rejeitou a fortuna e avisou que Pelé não está à venda. Até o presidente de Portugal, Américo Thomaz, tentou convencer o ídolo a permanecer em Lisboa – na recepção ao time campeão do mundo, derramou-se em elogios ao brasileiro. Pelé respondeu com simpática modéstia: "Eu ainda estou aprendendo..." O deslumbre dos europeus pelo astro pode ser resumido num texto publicado semanas atrás pelo diário francês L'Équipe, que dedicou a ele um artigo de página inteira intitulado "O Rei Pelé": "É o anjo e o demônio misturados, ao mesmo tempo o Orfeu da beleza triste e a morte da sinistra felinidade. Garoto tranqüilo e bom na vida, mas máquina infernal no campo do jogo. A arte de Pelé pertence ao domínio da bruxaria, da magia negra. Marca gols divertindo-se como um louco. Disputa um Mundial com o mesmo entusiasmo que numa partida de bairro entre amigos".

Versão para impressão Texto anterior
Próximo texto
Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados