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  CRISE DOS MÍSSEIS
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VEJA, outubro de 1962
 
Nos 'Mexericos da Candinha': Garrincha entorta mais um no Maracanã e Elza Soares cola o ouvido no radinho de pilha


Depois de fazer gato e sapato dos zagueiros na Copa do Mundo do Chile, o supercraque GARRINCHA anda sofrendo com a marcação inclemente que encontrou no seu retorno ao Rio de Janeiro. Há apenas quatro meses, o ponta do Botafogo era o grande herói nacional – na ausência de Pelé, ganhou quase sozinho o bicampeonato para o Brasil. Desde então, nada parece dar certo para o brejeiro jogador. Sem Didi, negociado com o Sporting Cristal, do Peru, o time da estrela solitária vem tropeçando no campeonato estadual da Guanabara. Para espanto geral, Garrincha está sempre entre os piores da equipe. Também pudera: o gênio das pernas tortas quase nunca aparece para treinar, vive com dores no joelho e ainda trava uma briga com a diretoria. Garrincha exige um polpudo aumento salarial (afinal, Nílton Santos, Zagalo e Amarildo, também bicampeões com a seleção, já mereceram seus reajustes). A preocupação com o ordenado chegou aos ouvidos da torcida botafoguense, que ensaia as primeiras vaias ao seu ídolo máximo – coisa impensável até pouco tempo atrás. Para alguns, a ciumeira pelos vencimentos dos colegas não é a única distração de Garrincha. A coluna "Mexericos da Candinha", da Revista do Rádio, publicou que o craque, sempre doido por um rabo-de-saia, tem rodado a cidade ao lado da cantora ELZA SOARES, com quem já tinha sido visto algumas vezes durante a Copa do Chile. Garrincha, que é casado, desmente a fofoca e diz que a artista não passa de sua "compadre". A formosa Elza – que no mês que vem estréia uma temporada na boate Au Bon Gourmet, ao lado de Baden Powell e do grupo Os Cariocas – não confirma nem desmente o romance. Pelo que se sabe do histórico amoroso do jogador, a última coisa em que Garrincha anda pensando é na zaga do Flamengo, o atual líder do campeonato.

 


Par quentíssimo: Connery corteja a voluptuosa Ursula numa praia da Jamaica

O filme pode não ser dos melhores, mas O Satânico Doutor No, produção anglo-americana lançada no início do mês em Londres, anda atraindo muita gente aos cinemas britânicos. Os motivos: o magnetismo do personagem central, um agente secreto chamado James Bond, e os protagonistas da fita, SEAN CONNERY e URSULA ANDRESS. O escocês Connery, quase desconhecido do público, arranca suspiros das moças, que se conformam em suportar a confusa trama de espionagem só para ver o novo galã enfeitando a tela. Os rapazes comparecem às sessões usando como desculpa as cenas de aventura e intriga internacional, mas gostam mesmo é de ver a suíça Ursula (assim como Connery, também quase anônima) desfilando em trajes sumários. Duas cenas dão o que falar. Numa, a beldade européia, que faz papel de mergulhadora, sai do mar do Caribe coberta apenas por um modesto biquíni branco. Na outra, Connery, que interpreta o hábil agente a serviço da rainha, lança um bordão que já está na boca do povo: "Meu nome é Bond... James Bond". Orçado em um milhão de dólares, o filme é inspirado num romance do britânico Ian Fleming, autor de uma série de livros com as peripécias do espião conquistador. Antes de Doutor No, Connery trabalhou como leiteiro, chofer, marceneiro de funerária e salva-vidas, além de servir na Real Marinha Britânica e concorrer ao título de Mister Universo. Como ator, tinha feito apenas alguns trabalhos para a televisão antes do convite para encarnar Bond. O papel fora recusado por Cary Grant, que se achava velho demais para rodar tantas cenas de ação. Filha de um diplomata alemão desaparecido na II Guerra, a formidável Ursula, fluente em quatro idiomas, começou como modelo em Roma, fez alguns filmes obscuros nos estúdios italianos e, para sua própria surpresa, acabou sendo escolhida para viver a garota de Bond. As cálidas cenas de Doutor No já rendem bons dividendos à dupla – cineastas americanos e europeus agora estão de olho em Connery e Ursula para futuros papéis em seus filmes.

 


Rachel Carson: futuro sem pássaros
Uma tímida bióloga marinha agitou o mercado literário americano nas últimas semanas. O novo livro da pesquisadora RACHEL CARSON, Silent Spring ("Primavera Silenciosa"), já era a obra de não-ficção mais comentada do ano antes mesmo de chegar às estantes das lojas. A professora – que já era autora de três livros de tiragem pequena e repercussão quase nula sobre os mistérios da vida marinha – decidiu mudar de assunto e escrever um volume dedicado aos riscos do uso dos pesticidas sintéticos para a saúde das pessoas. Seu principal alvo é o DDT, fartamente usado pelos americanos desde que começou a ser testado em larga escala, na II Guerra. Conforme Rachel, a substância protege as lavouras, mas também provoca doenças nas pessoas e mata peixes e pássaros – daí o título, referência ao risco de extinção das aves em função dos pesticidas e de um mundo sem o canto dos pássaros no futuro. Para tentar colocar a tese em descrédito, as grandes companhias químicas, como DuPont, Monsanto e American Cyanamid, passaram a atacar a bióloga na imprensa. Outra gigante do setor, a Velsicol, ameaçou processar a editora que publica a obra e retirar todos os seus anúncios nas revistas que falassem bem do livro. Como o trabalho de Carson é extremamente consistente, a estratégia serviu como um tiro no pé – as críticas chamaram ainda mais atenção para o lançamento. O livro já é sucesso de vendas. "Hoje em dia, todo ser humano está exposto a produtos químicos perigosos, da concepção até a morte", avisa a cientista na obra. Silent Spring já inspira algumas mobilizações inéditas – alertadas pela tese controversa de Rachel Carson, alguns ativistas começam a defender uma preocupação maior com os efeitos das substâncias que lançamos na atmosfera da Terra.

 


Dos Passos: ironia aos marxistas

O escritor americano JOHN DOS PASSOS, autor da trilogia U.S.A., exibiu um português afiado – tanto na forma como no conteúdo – em sua recente visita ao Brasil. Descendente de imigrantes da Ilha da Madeira, Dos Passos, de 66 anos, integra o quarteto dos grandes prosadores americanos dos anos 20 (ao lado de Hemingway, Fitzgerald e Faulkner). Pretende lançar em breve um livro sobre o Brasil dos dias atuais. Hospedado no Hotel Jaraguá, em São Paulo, ele decidiu conceder uma entrevista coletiva no idioma local. Com a autoridade de quem já morou na União Soviética para conhecer de perto o cotidiano num regime socialista, o escritor, anticomunista notório, disparou contra a ideologia vermelha. "Os marxistas conseguiram de maneira genial reduzir o crânio das classes estudantis a minúsculas cabeças, com a mesma perícia dos índios do Alto Amazonas. Conseguiram notável êxito, conservando as cabeças pregadas ao tronco e com sintomas de vida. Elas até falam..."

 


O esperto Carson: programa animado
A rede de televisão NBC, o maior canal dos Estados Unidos, estreou um novo tipo de programa neste mês. A emissora colocou um humorista, JOHNNY CARSON, no comando de uma de suas principais atrações, o programa noturno de entrevistas The Tonight Show, no ar desde 1954. Contrastando com o estilo sóbrio do apresentador anterior, Jack Paar, que tratava principalmente de assuntos políticos, Carson faz piadas, monta esquetes cômicos, faz imitações e conduz entrevistas bem-humoradas com seus convidados – ao invés dos políticos de sempre, eles são artistas, esportistas e outros personagens interessantes. O programa também apresenta atrações musicais e conta com uma banda própria para animar o palco. Carson, um sujeito cativante e esperto que já trabalhava na televisão desde a década passada, caiu de vez no gosto do público. Com esse novo formato, cada vez mais americanos sintonizam seus aparelhos todas as noites para acompanhar o show de entrevistas – para muitos, o costume já faz parte da rotina diária (os EUA são o país com maior número de proprietários de televisores).

 


Stravinsky: muita vodca, mas nem tanto

Com mais de meio século de saudade acumulada, IGOR STRAVINSKY não resistiu: o compositor russo naturalizado americano se esbaldou ao retornar a São Petersburgo (agora Leningrado), no início do mês. Maior nome da música erudita neste século, Stravinsky trocou a União Soviética pelo Ocidente em 1910. Nos 52 anos que se passaram, morou na Suíça, na França e nos Estados Unidos. Fez a vida em Hollywood, onde reside até hoje. Jamais tinha voltado a pisar em sua terra natal. Convidado pelo governo russo para conduzir uma série de concertos em Leningrado, o maestro – de 80 anos muito bem-vividos – caiu na farra. "A única coisa que não me agradou na viagem foi que acabei bebendo vodca demais", confessou. Stravinsky foi recebido por Nikita Kruschev, com quem conversou por mais de duas horas. O dirigente soviético insistiu em tentar convencer o compositor a voltar. Stravinsky ficou alegre com a visita, mas não estava bêbado a ponto de aceitar o convite – fez as malas e voltou para sua confortável mansão na ensolarada Beverly Hills.

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