Veja na História Vídeo Áudio
  CRISE DOS MÍSSEIS
NESTA EDIÇÃO
SEÇÕES
Entrevista: Robert Kennedy
  Auto-retrato: Nelson Mandela
  Ponto de Vista: Leó Szilárd
  Veja Recomenda
  Gente
  Datas
ESPECIAL
A crise dos mísseis de Cuba
  A cronologia do episódio
  Fidel Castro, o falastrão
  Brasil participa dos diálogos
  Infográfico: ameaça na ilha
BRASIL
João Goulart e as eleições
Jânio Quadros é derrotado
Um plano para a educação
INTERNACIONAL
De Gaulle e o Referendo na França
Chineses e indianos em guerra
GERAL
Começa o Concílio Vaticano II
Pelé conquista outro Mundial
ARTES E ESPETÁCULOS
Elizabeth Taylor em 'Cleópatra'
Dissidente soviético lança livro
Vinícius de Moraes agora canta
VÍDEOS
Índice
Internacional
VEJA, outubro de 1962
Duas décadas depois de comandar a França livre na II Guerra,
Charles de Gaulle se livra da questão argelina, escapa de atentado, vence
referendo e ganha fôlego para a defesa da grandeza da Europa
Nos braços do povo: 'le général' garimpa apoio entre o eleitorado francês antes do referendo que consolidou seu poder


Cinco anos atrás, o general Charles de Gaulle era um dos pacatos aposentados da vila de Colombey-les-Deux-Églises, no departamento de Haute-Marne, nordeste do território francês. O herói da França Livre durante a II Guerra Mundial estava desiludido com a breve carreira na política dos tempos de paz, e parecia disposto a gastar seus últimos anos concluindo os três volumes de Memórias de Guerra, sua biografia militar. Quem acreditaria que, meia década depois, De Gaulle seria outra vez o grande comandante francês, o homem a quem o povo confia seu destino, o líder capaz de subjugar qualquer adversário que apareça em seu caminho? O velho estrategista de guerra acreditava – e, nas últimas semanas, De Gaulle venceu as últimas batalhas de sua mais dura campanha no front político. O presidente da França escapou de um atentado terrorista, sepultou uma angustiante guerra colonial, conquistou uma notável vitória nas urnas e preparou o terreno para sua mais ousada ofensiva: a promoção da grandeza da França e da Europa em desafio à polarização entre as duas superpotências mundiais. Nada mau para um senhor impaciente e meio azedo que já conta seus 71 anos.

O líder na campanha: triunfo ou renúncia

O triunfo mais recente e decisivo do comandante francês foi a vitória no referendo popular do último dia 28, que aprovou uma emenda constitucional que inaugura o voto direto nas eleições presidenciais. Até agora, os presidentes franceses eram escolhidos de forma indireta, num colégio eleitoral formado por cerca de 80.000 prefeitos e autoridades regionais. De Gaulle apostou seu cargo pelo sufrágio universal direto – ao convocar o referendo, ofereceu aos eleitores a escolha entre a emenda constitucional e sua renúncia. Ganhou com folga: de acordo com os números divulgados até o fechamento da presente edição, o "sim" à eleição direta somou cerca de 13 milhões de votos, ou 62% do total. Apesar do apoio de uma coalizão formada pela maioria dos partidos franceses, o "não" recebeu menos de 8 milhões de votos, cerca de 38% do total. A próxima contenda é a eleição geral convocada para o mês que vem. Acredita-se que os gaullistas conquistarão a maioria na segunda Assembléia Nacional da Quinta República – a primeira assembléia foi dissolvida por De Gaulle depois de uma moção de censura que desfez o governo do primeiro-ministro Georges Pompidou. Com a provável vitória na eleição de novembro, Pompidou deverá ressurgir como premiê.

 

Assembléia Nacional: gaullistas deverão conquistar a maioria em novembro

Do Atlântico aos Urais - O que levou De Gaulle a arriscar seu mandato, que só acaba em 1965, para aprovar a emenda da eleição direta? É consenso entre os analistas políticos franceses que o general não gosta de lidar com partidos e parlamentares, muitas vezes hostis a ele. O presidente acredita que um estado forte só é possível com um líder forte, capaz de tomar certas decisões sem consultar o que chama de "sistema partidário". A eleição direta para a presidência seria uma excelente maneira de fragilizar esse sistema. A filosofia administrativa do general é a mesma desde 1958, quando ele foi eleito presidente: atrair o apoio popular, assegurar o controle pessoal da política governamental e renovar esse poder através de eleições ou referendos (por causa disso, o presidente parece estar em permanente campanha, visitando todos os cantos do país e aparecendo na televisão sempre que possível). A receita foi a mesma agora. Com o apoio colhido nas urnas neste mês, De Gaulle consolida seu poder e ganha fôlego para, enfim, tentar concretizar seu projeto de país.

De Gaulle promete reformas ambiciosas na economia francesa. A meta é aproveitar o "boom" da população, que vive sua maior expansão desde o século XVIII, para estimular um crescimento econômico rápido e vigoroso. O programa para acelerar o crescimento se baseia numa inédita combinação de intervenção estatal e investimento privado, principalmente nos setores de infra-estrutura e indústria. De Gaulle pensa em construir estradas entre Paris e as províncias, reformar o porto de Marselha e desenvolver as indústrias de automóveis (através da estatal Renault) e de aviões (com os modelos Caravelle, da também estatal Sud-Aviation, sediada em Toulouse). A pujança econômica seria o trampolim para vôos mais altos. Na visão do presidente, a França deve ocupar uma posição destacada no globo – com a independência econômica viria a independência política, transformando o país num candidato a potência. De Gaulle não esconde: ao invés de aderir aos Estados Unidos ou à União Soviética, pretende elevar o status da França e encorajar a integração continental européia. O francês acredita que uma confederação de todas as nações da Europa seria capaz de reviver os grandes impérios da história do continente. Num discurso em Estrasburgo, há três anos, De Gaulle resumiu suas ambições da seguinte forma: "A Europa, do Atlântico aos Urais, decidirá o destino do mundo". Para ele, uma união européia formaria a terceira superpotência global, disputando ombro a ombro com americanos e soviéticos. Até arsenal nuclear De Gaulle já tem. Há dois anos, a França tornou-se o quarto país do clube das nações atômicas, ao detonar uma bomba no deserto argelino.

 

O Citroën baleado:francês, é claro

Ordem na casa - A tenacidade e o ímpeto do general já eram notórios desde os tempos de sua inesperada ascensão ao comando dos franceses livres contra a ocupação nazista. O suporte e a inspiração à resistência clandestina a Hitler fizeram de Charles de Gaulle um ícone instantâneo para os franceses. Encerrada a guerra, entretanto, sua liderança ruiu. Presidente do governo provisório, o general pouco conseguiu fazer. Renunciou no início de 1946, reclamando, pela primeira vez, das brigas entre os partidos políticos e do que julgava ser um poder excessivo da Assembléia Nacional, o Parlamento francês. Só a sangrenta e polêmica guerra na Argélia, iniciada em 1954, foi capaz de resgatá-lo do ostracismo. No ponto mais delicado do conflito, em maio de 1958, De Gaulle foi enfim chamado a Paris. Exigiu amplos poderes para assumir o leme de uma embarcação à deriva. Nos seis meses em que foi primeiro-ministro, colocou ordem na casa, encomendou uma nova constituição e aprovou a carta num referendo apoiado por oito entre cada dez franceses.

No fim desse período, De Gaulle foi eleito presidente, inaugurando a Quinta República. Precisou de mais três anos para resolver a questão argelina. Os franceses estavam divididos sobre a independência da colônia. Além disso, uma campanha terrorista conduzida por militares desertores no país africano já somava mais de 12.000 vítimas. Era preciso derrotar a oposição doméstica e os traidores franceses antes de pensar em esmagar os argelinos. Em julho último, um referendo popular selou a independência da antiga colônia. Em 22 de agosto, De Gaulle ainda precisou enfrentar uma tentativa de assassinato, quando Jean Bastien-Thiry, um engenheiro do Exército inconformado com a perda da Argélia, disparou uma metralhadora automática contra o Citroën DS ocupado pelo general e sua mulher, Yvonne, no subúrbio parisiense de Petit-Clamart. Catorze buracos de balas foram encontrados na lataria. O presidente creditou o sucesso da escapada à qualidade do automóvel – de fabricação francesa, é claro. De acordo com ele, dois pneus furaram, mas ainda assim foi possível guiar em alta velocidade. Como se vê, le général ainda tem resistência de sobra.

 

Cenas do referendo dos franceses
A população vai às urnas para decidir pelo voto direto na eleição para a presidência, como queria De Gaulle
Versão para impressão Texto anterior
Próximo texto
Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados