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Internacional
VEJA, outubro de 1962
Duas décadas depois
de comandar a França livre na II Guerra,
Charles de Gaulle
se livra da questão argelina, escapa de atentado, vence
referendo
e ganha fôlego para a defesa da grandeza da Europa
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| Nos braços do povo: 'le général' garimpa apoio entre o eleitorado francês antes do referendo que consolidou seu poder |
Cinco anos atrás, o general Charles de Gaulle era um dos
pacatos aposentados da vila de Colombey-les-Deux-Églises,
no departamento de Haute-Marne, nordeste do território francês.
O herói da França Livre durante a II Guerra Mundial
estava desiludido com a breve carreira na política dos tempos
de paz, e parecia disposto a gastar seus últimos anos concluindo
os três volumes de Memórias de Guerra, sua biografia
militar. Quem acreditaria que, meia década depois, De Gaulle
seria outra vez o grande comandante francês, o homem a quem
o povo confia seu destino, o líder capaz de subjugar qualquer
adversário que apareça em seu caminho? O velho estrategista
de guerra acreditava – e, nas últimas semanas, De Gaulle
venceu as últimas batalhas de sua mais dura campanha no front
político. O presidente da França escapou de um atentado
terrorista, sepultou uma angustiante guerra colonial, conquistou
uma notável vitória nas urnas e preparou o terreno
para sua mais ousada ofensiva: a promoção da grandeza
da França e da Europa em desafio à polarização
entre as duas superpotências mundiais. Nada mau para um senhor
impaciente e meio azedo que já conta seus 71 anos.
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| O líder na campanha: triunfo ou renúncia |
O triunfo mais recente e decisivo do comandante francês foi
a vitória no referendo popular do último dia 28, que
aprovou uma emenda constitucional que inaugura o voto direto nas
eleições presidenciais. Até agora, os presidentes
franceses eram escolhidos de forma indireta, num colégio
eleitoral formado por cerca de 80.000 prefeitos e autoridades regionais.
De Gaulle apostou seu cargo pelo sufrágio universal direto
– ao convocar o referendo, ofereceu aos eleitores a escolha entre
a emenda constitucional e sua renúncia. Ganhou com folga:
de acordo com os números divulgados até o fechamento
da presente edição, o "sim" à eleição
direta somou cerca de 13 milhões de votos, ou 62% do total.
Apesar do apoio de uma coalizão formada pela maioria dos
partidos franceses, o "não" recebeu menos de 8 milhões
de votos, cerca de 38% do total. A próxima contenda é
a eleição geral convocada para o mês que vem.
Acredita-se que os gaullistas conquistarão a maioria na segunda
Assembléia Nacional da Quinta República – a primeira
assembléia foi dissolvida por De Gaulle depois de uma moção
de censura que desfez o governo do primeiro-ministro Georges Pompidou.
Com a provável vitória na eleição de
novembro, Pompidou deverá ressurgir como premiê.
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| Assembléia Nacional: gaullistas deverão conquistar a maioria em novembro |
Do Atlântico aos Urais - O que levou De Gaulle a arriscar
seu mandato, que só acaba em 1965, para aprovar a emenda
da eleição direta? É consenso entre os analistas
políticos franceses que o general não gosta de lidar
com partidos e parlamentares, muitas vezes hostis a ele. O presidente
acredita que um estado forte só é possível
com um líder forte, capaz de tomar certas decisões
sem consultar o que chama de "sistema partidário". A eleição
direta para a presidência seria uma excelente maneira de fragilizar
esse sistema. A filosofia administrativa do general é a mesma
desde 1958, quando ele foi eleito presidente: atrair o apoio popular,
assegurar o controle pessoal da política governamental e
renovar esse poder através de eleições ou referendos
(por causa disso, o presidente parece estar em permanente campanha,
visitando todos os cantos do país e aparecendo na televisão
sempre que possível). A receita foi a mesma agora. Com o
apoio colhido nas urnas neste mês, De Gaulle consolida seu
poder e ganha fôlego para, enfim, tentar concretizar seu projeto
de país.
De Gaulle promete reformas ambiciosas na economia francesa. A meta
é aproveitar o "boom" da população, que vive
sua maior expansão desde o século XVIII, para estimular
um crescimento econômico rápido e vigoroso. O programa
para acelerar o crescimento se baseia numa inédita combinação
de intervenção estatal e investimento privado, principalmente
nos setores de infra-estrutura e indústria. De Gaulle pensa
em construir estradas entre Paris e as províncias, reformar
o porto de Marselha e desenvolver as indústrias de automóveis
(através da estatal Renault) e de aviões (com os modelos
Caravelle, da também estatal Sud-Aviation, sediada em Toulouse).
A pujança econômica seria o trampolim para vôos
mais altos. Na visão do presidente, a França deve
ocupar uma posição destacada no globo – com a independência
econômica viria a independência política, transformando
o país num candidato a potência. De Gaulle não
esconde: ao invés de aderir aos Estados Unidos ou à
União Soviética, pretende elevar o status da França
e encorajar a integração continental européia.
O francês acredita que uma confederação de todas
as nações da Europa seria capaz de reviver os grandes
impérios da história do continente. Num discurso em
Estrasburgo, há três anos, De Gaulle resumiu suas ambições
da seguinte forma: "A Europa, do Atlântico aos Urais, decidirá
o destino do mundo". Para ele, uma união européia
formaria a terceira superpotência global, disputando ombro
a ombro com americanos e soviéticos. Até arsenal nuclear
De Gaulle já tem. Há dois anos, a França tornou-se
o quarto país do clube das nações atômicas,
ao detonar uma bomba no deserto argelino.
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| O Citroën baleado:francês, é claro |
Ordem na casa - A tenacidade e o ímpeto do general
já eram notórios desde os tempos de sua inesperada
ascensão ao comando dos franceses livres contra a ocupação
nazista. O suporte e a inspiração à resistência
clandestina a Hitler fizeram de Charles de Gaulle um ícone
instantâneo para os franceses. Encerrada a guerra, entretanto,
sua liderança ruiu. Presidente do governo provisório,
o general pouco conseguiu fazer. Renunciou no início de 1946,
reclamando, pela primeira vez, das brigas entre os partidos políticos
e do que julgava ser um poder excessivo da Assembléia Nacional,
o Parlamento francês. Só a sangrenta e polêmica
guerra na Argélia, iniciada em 1954, foi capaz de resgatá-lo
do ostracismo. No ponto mais delicado do conflito, em maio de 1958,
De Gaulle foi enfim chamado a Paris. Exigiu amplos poderes para
assumir o leme de uma embarcação à deriva.
Nos seis meses em que foi primeiro-ministro, colocou ordem na casa,
encomendou uma nova constituição e aprovou a carta
num referendo apoiado por oito entre cada dez franceses.
No fim desse período, De Gaulle foi eleito presidente, inaugurando
a Quinta República. Precisou de mais três anos para
resolver a questão argelina. Os franceses estavam divididos
sobre a independência da colônia. Além disso,
uma campanha terrorista conduzida por militares desertores no país
africano já somava mais de 12.000 vítimas. Era preciso
derrotar a oposição doméstica e os traidores
franceses antes de pensar em esmagar os argelinos. Em julho último,
um referendo popular selou a independência da antiga colônia.
Em 22 de agosto, De Gaulle ainda precisou enfrentar uma tentativa
de assassinato, quando Jean Bastien-Thiry, um engenheiro do Exército
inconformado com a perda da Argélia, disparou uma metralhadora
automática contra o Citroën DS ocupado pelo general
e sua mulher, Yvonne, no subúrbio parisiense de Petit-Clamart.
Catorze buracos de balas foram encontrados na lataria. O presidente
creditou o sucesso da escapada à qualidade do automóvel
– de fabricação francesa, é claro. De acordo
com ele, dois pneus furaram, mas ainda assim foi possível
guiar em alta velocidade. Como se vê, le général
ainda tem resistência de sobra.
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