| |
Especial
O FALASTRÃO DE HAVANA
Depois de decretar o regime
da fome e do medo na
ilha,
Fidel Castro, o jovem ditador comunista
de Cuba, brinca
de roleta russa com a segurança do mundo
Onde vai parar a temerária aventura de Fidel Castro Ruz,
o comandante dos barbudos da revolução cubana, em
seu embuste como chefe de estado autêntico e honrado? Com
a crise dos mísseis, seus vizinhos mais próximos testemunharam
a prova definitiva dos severos riscos a que estão submetidos
em função da presença de Castro no poder. O
jovem ditador da ilha caribenha foi salvo por um fio no acordo enredado
entre John Kennedy e Nikita Kruschev. Mas quem é capaz de
garantir que o primeiro-ministro não colocará tudo
a perder na próxima oportunidade de fingir-se de líder
mundial? Que Fidel Castro gosta de extrapolar os limites, todo mundo
já sabe. A grande dúvida agora é adivinhar
até que ponto o falastrão cubano chegará na
condução de seus dois mais imprudentes empreendimentos
– o desafio cada vez mais agressivo à superpotência
capitalista e a sociedade explosiva com a superpotência comunista
(encarregada, a partir de agora, de assegurar a sobrevivência
dos barbudos). Mais do que nunca, graças a Castro, a Guerra
Fria torna-se um confronto ideológico verdadeiramente global,
em que os gigantes do Ocidente e do Oriente, não mais saciados
com o domínio regional, levam a batalha para além
de suas esferas de influência. O mais espantoso é que,
há apenas três anos e meio, o pivô dessa transformação
era acolhido como herói em solo americano, onde repetia sem
parar: "Sou contra todos os tipos de ditadores. Sou contra o comunismo".
Naquela visita, ocorrida em abril de 1959 – apenas quatro meses
depois do triunfo dos revolucionários de Sierra Maestra –,
Fidel Castro era tratado como o rebelde populista e meio pândego
que havia libertado Cuba da tirania de Fulgêncio Batista.
O ditador canalha deposto pelos guerrilheiros fez da corrupção
e da expansão da miséria suas grandes marcas. Ao fugir
da ilha, não tinha mais o apoio dos americanos. Já
diante de Fidel, a reação de Washington era de perplexidade.
A improvável vitória de suas tropas, que dois anos
antes se resumiam a um bando de esfarrapados marchando pelas montanhas
cubanas, não era esperada. Com a deposição
de Batista, os americanos também não contavam com
a ascensão do comandante militar à chefia do governo.
Quando desembarcou em Washington, a maior preocupação
do governo era impedir que Castro fosse assassinado por algum simpatizante
do antigo ditador. Mas era difícil segurar o cubano: para
desespero dos agentes do Serviço Secreto, o visitante se
esbaldava entre apertos de mão, abraços e elogios
de seus fãs americanos. Depois de muita adulação
nas recepções públicas e palestras, Fidel Castro
passou sua última noite nos EUA no campus da Universidade
Harvard, nos arredores de Boston, a convite do reitor McGeorge Bundy
– ironicamente, hoje assessor de confiança de Kennedy. Num
animado jantar, o cubano confidenciou ao anfitrião que fora
rejeitado por Harvard vinte anos antes. Horas depois, ao apresentar
Fidel aos 8.700 estudantes e professores reunidos para ouvir seu
discurso, o reitor afirmou que a universidade tinha errado ao barrar
sua inscrição. Ofereceu, então, uma matrícula
ao palestrante.
Paquera, namoro e noivado - Sabe-se agora que, naquela mesma
semana, o irmão mais novo de Fidel, Raúl Castro, também
participante da revolução, já ensaiava uma
parceria futura com Moscou. As circunstâncias da aproximação
ainda são cercadas de mistério, mas é seguro
dizer que Raúl e o argentino Ernesto "Che" Guevara eram os
responsáveis pela ideologia comunista na cúpula do
movimento revolucionário cubano. A dupla entrou várias
vezes em conflito com Fidel por causa da paquera com os soviéticos.
O primeiro-ministro também desautorizou Raúl e Che
publicamente em temas como a declaração pública
da natureza comunista do novo regime (uma bandeira do irmão
caçula) e da formação de uma milícia
para defender o poder recém-conquistado na ilha (projeto
mais sonhado pelo argentino). Desesperados com a vacilação
de Fidel, ambos ameaçaram abrir dissidências ou simplesmente
fazer as malas e partir. Perturbado com as promessas de oposição
de seus dois mais próximos aliados, Castro sentia-se preso
entre a dependência que tinha deles e o desejo inabalável
de manter o poder em Cuba. Mas Fidel não era marxista, e
sim o primeiro fidelista da história. Ele acredita
ser a personificação da nação cubana
e o herdeiro legítimo dos revolucionários Simón
Bolívar e José Martí, seus grandes heróis.
Sua obsessão era encontrar uma maneira de garantir o controle
sobre os rumos da revolução e os destinos de seu povo.
Quando percebeu que a melhor saída seria construir uma ditadura
vermelha em pleno Mar do Caribe, comprou o plano de Raúl
e Che. Depois de um namoro cada vez mais às claras, veio
o noivado: num discurso radiofônico transmitido em dezembro
do ano passado, Castro declarava ser um "marxista-leninista" e anunciava
a adoção do comunismo à moda soviética
em Cuba.
O aprendiz de caudilho, que já levara Dwight Eisenhower
a romper relações com a ilha menos de um ano antes,
logo seria alvo das primeiras sanções econômicas
de Washington. Os castigos impostos pelos EUA alimentaram ainda
mais sua inflamada retórica antiamericana. Mas a população,
que no geral gostava de ver o comandante provocando os "ianques",
começava a desconfiar da utilidade da contenda – afinal,
faltava cada vez mais comida à mesa, e a atmosfera de intimidação
e pavor era cada vez mais evidente. John Kennedy ainda ajudou a
mobilizar as massas cubanas nas trincheiras abertas por Castro com
seu patrocínio à vexaminosa invasão da Baía
dos Porcos, em abril do ano passado. O cotidiano brutal da ilha,
agravado neste mês com o temor de uma ofensiva maciça
dos EUA, logo dissipou o clima de união nacional e dividiu
de vez a sociedade cubana. Os partidários de Fidel Castro
se oferecem para as linhas de frente, cheios do orgulho nacionalista
instigado pelo duelo com o Golias americano. O resto da população,
no entanto, vive uma situação calamitosa. Depois de
padecer para exorcizar a camarilha de corruptos que perpetuava a
pobreza nos antigos governos, o povo cubano continua na miséria
– agora acompanhada da perseguição política
e do caos institucional. A Havana de antes, vibrante, festeira e
de beleza inebriante, já não existe mais. No terreno
da capital moderna e alegre brotou o núcleo de uma tirania
física e espiritual. O ritmo buliçoso e quente da
cidade, ditado pelos sons de rumba, chachachá, salsa e merengue,
foi trocado pela batida enfadonha dos coturnos nas patrulhas militares
que vigiam os moradores e espalham o medo.
'Habana Libre' - Apesar da opressão que mantém
muitas pessoas longe das ruas, Havana amarga um permanente estado
de desordem. É a capital mundial das filas: é preciso
esperar longas horas por vistos e passaportes, por reservas de passagens
nas poucas companhias aéreas que ainda viajam à ilha,
pelos escassos mantimentos dos cartões de racionamento. O
trânsito é sempre infernal – não pelo vigor
do comércio de automóveis, mas sim pelo giro de caminhões
militares abarrotados de jovens recrutas e dos canhões e
tanques estacionados no Malecón, a movimentada avenida da
orla. Os grandes magazines estão com as prateleiras vazias,
e os hotéis de luxo deixaram de receber os turistas estrangeiros.
Estão lotados de soviéticos, checos, poloneses e chineses,
que pagam diárias de albergue estudantil para ocupar as melhores
suítes. Erguido no elegante bairro de Vedado, o Hilton Havana,
cinco estrelas imponente que custou 35 milhões de dólares
aos americanos, foi transformado no quartel-general de Castro depois
da revolução. Roubado do grupo hoteleiro Hilton, agora
se chama "Habana Libre".
Mas talvez o sintoma mais alarmante do
ocaso de Havana seja a presença dos milhares de indigentes
que ocupam suas praças e avenidas. Antes uma cidade cosmopolita,
a capital agora é a meca dos camponeses pobres atraídos
pelas promessas de fartura e conforto de Fidel. Alguns desembarcam
na ilusão de matar a fome. Outros se recusam a voltar para
suas terras antes que o governo concretize suas esperanças.
Nos dias que antecederam a crise dos mísseis, Cuba lidava
com outro problema. As agências de notícias internacionais
informavam que o ano letivo começou com um mês de atraso
nas escolas primárias. O motivo: assustados com a doutrinação
comunista nas salas de aula, os pais deixaram os filhos em casa,
e muitos professores abandonaram a profissão. Fidel, que
já ameaça prender os pais dos estudantes ausentes,
mandou trocar todos os livros didáticos – que tratavam de
temas agora proibidos, como democracia e liberdade –, antes do retorno
dos alunos das férias. Os novos volumes de História,
Letras e até Ciências abordam todos os assuntos do
ponto de vista marxista-leninista. Fidel Castro é incapaz
de colher comida suficiente para alimentar seu povo, mas já
planta as sementes de uma ditadura viçosa e longeva. |