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  CRISE DOS MÍSSEIS
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VEJA, outubro de 1962
Surpresas, aflições, sustos e reviravoltas: a impressionante
seqüência de acontecimentos que marcou as negociações para
o fim da queda-de-braço entre Washington e Moscou
O embate no Conselho de Segurança da ONU: os americanos colocam os soviéticos na parede com provas irrefutáveis


Terça-feira, 16 de outubro, 8h45, Washington

O assessor de Segurança Nacional dos EUA, McGeorge Bundy, entrega ao presidente John Kennedy as conclusões de uma missão de reconhecimento aéreo no oeste de Cuba. A inteligência americana não tem dúvidas: os soviéticos levaram mísseis nucleares à ilha. Um avião U-2 flagrara o transporte das cargas militares dois dias antes. Às 9 horas, Kennedy convoca o Comitê Executivo do Conselho de Segurança Nacional, ou "Ex-Comm", formado por 14 integrantes do primeiro escalão do governo e coordenado por seu irmão, Robert. Em poucos instantes, três linhas de ação são colocadas à mesa: bloqueio naval da ilha, ataques aéreos às bases de mísseis ou invasão em larga escala de Cuba.

 

Detalhes perturbadores: um U-2 americano deu um rasante e flagrou base soviética

Quarta, 17 de outubro
Kennedy cumpre sua agenda de compromissos públicos. Para evitar uma onda de pânico, mantém a descoberta em segredo. Fora da Casa Branca, demonstra bom humor e até faz piadas. A portas fechadas, porém, só pensa na grave crise que surge no horizonte. O Estado Maior das Forças Armadas defende com veemência a opção pela invasão. Mas o secretário de Defesa, Robert McNamara, insiste no bloqueio naval, estratégia que impediria a chegada de novos mísseis. À noite, outro vôo de U-2 flagra novos mísseis soviéticos em Cuba – desta vez, são SS-5 de longo alcance. As armas são capazes de atingir praticamente qualquer ponto no território americano.

 

Quinta, 18 de outubro
O ministro das Relações Exteriores da URSS, Andrey Gromyko, visita a Casa Branca – a reunião fora marcada antes da descoberta dos mísseis. A grande dúvida: Moscou sabia que os americanos tinham fotografado as bases? O diálogo é inusitado. Gromyko, que sabia dos mísseis, garante que as cargas entregues à ilha só servem para "ajudar na capacidade de defesa de Cuba e no desenvolvimento de sua pacífica democracia". Kennedy, que também sabia dos mísseis, vence a tentação de confrontar o visitante, finge não saber de nada e apenas repete que não aceitará a instalação de bases de ataque no país vizinho. À noite, um jantar de gala é oferecido a Gromyko no Departamento de Estado. No andar de baixo, o Ex-Comm discutia os próximos passos da crise.

 

A localização dos mísseis: americanos mapearam a ameaça instalada na ilha

Sexta, 19 de outubro
Kennedy faz campanha eleitoral no Meio-Oeste dos EUA e deixa o irmão a cargo das reuniões do Ex-Comm. Robert é instruído a preparar planos completos tanto para um bloqueio naval como para um ataque aéreo. Kennedy também encomenda dois discursos ao assessor Theodore Sorensen: um para anunciar o bloqueio e outro para o caso de bombardeio. O presidente ainda não estava decidido, mas já se inclinava pelo bloqueio.

 

Sábado, 20 de outubro
O presidente é chamado pelo irmão a retornar a Washington. Ele resiste à idéia, mas Robert o convence de que é preciso tomar uma decisão final. O porta-voz de Kennedy, Pierre Salinger, diz que ele precisa voltar à Casa Branca "porque está com um resfriado". Às 13h30, o Ex-Comm volta a se reunir. Foram cinco horas de discussões. A hipótese de bloqueio naval ganhava ainda mais força, mas não havia consenso.

 

Domingo, 21 de outubro
Na nova reunião do comitê, Kennedy decide fechar a questão. Pergunta ao general Walter Sweeney, do Comando Aéreo Estratégico, quantas baixas seriam provocadas por um ataque e como ele poderia garantir a destruição de todos os mísseis. O militar responde que entre 10.000 e 20.000 pessoas morrerriam – e ainda assim não seria possível assegurar 100% de sucesso na eliminação do arsenal soviético. O único caminho razoável era mesmo o bloqueio. Pelas leis internacionais, a medida é um ato de guerra. Por sugestão do subsecretário de Estado, George Ball, Kennedy decide usar o termo "quarentena", eufemismo para tentar evitar críticas na comunidade internacional. Depois da reunião, a imprensa procura Kennedy querendo saber qual é exatamente a situação em Cuba – a essa altura, os repórteres já sabiam que havia armas ofensivas na ilha. O presidente pede a eles que não revelem nenhuma informação confidencial. Kennedy telefona pessoalmente aos jornais Washington Post e The New York Times para cobrar um tom menos alarmista dos diários na cobertura do assunto.

 

Kennedy discursa na Casa Branca: dezessete minutos de apreensão

Segunda, 22 de outubro
A crise dos mísseis torna-se pública. Em discurso transmitido em rede nacional de rádio e televisão, Kennedy anuncia a presença das armas nucleares em Cuba e lança a idéia do bloqueio naval. Durante dezessete minutos, a população fica congelada diante de seus aparelhos. Nas horas que precederam o pronunciamento, os americanos colocaram suas forças militares em prontidão. Enquanto Kennedy discursava, 300 embarcações da Marinha tomavam o Atlântico e 20 aviões da Aeronáutica decolavam com bombas nucleares, prontos para uma possível guerra. Em Moscou, Nikita Kruschev recebia uma cópia antecipada do discurso. Ficou furioso com seus próprios militares (que não conseguiram esconder os mísseis) e com os americanos – fosse bloqueio ou fosse "quarentena", para ele era ato de guerra. O russo ordenou que as embarcações na rota de Cuba não parassem.

 

Terça, 23 de outubro
A pedido de Washington, a Organização dos Estados Americanos aprova uma resolução que apóia a "quarentena" e pede a remoção dos mísseis. Uma nova missão de reconhecimento traz a Washington imagens impressionantes dos mísseis – numa delas, os soviéticos parecem testar as armas para um possível lançamento. Os navios americanos se posicionam na linha da quarentena. Têm ordens para parar à força qualquer embarcação que tente cruzá-la.

 

Quarta, 24 de outubro
O bloqueio entra em vigor. A tensão aumenta quando as embarcações soviéticas não muda a rota para Cuba. Os americanos já esperam pelo pior quando, de repente, a esquadra vermelha dá meia-volta. "Eles piscaram primeiro", diz o secretário de Estado Dean Rusk a McGeorge Bundy. Mas a construção das bases de mísseis em Cuba continua. Ao mesmo tempo, os militares americanos – sem conhecimento de Kennedy – elevam seu grau de preparação para guerra, agora em Defcon 2. É o mais alto grau de alerta já registrado nos EUA.

 

Quinta, 25 de outubro
O embaixador americano na ONU, Adlai Stevenson, apresenta ao Conselho de Segurança as provas da existência dos mísseis em Cuba. Pressionado pela contundente exposição de Stevenson, o embaixador soviético, Valerian Zorin, fica sem palavras. Fidel Castro autoriza sua defesa antiaérea a abrir fogo contra qualquer piloto americano avistado sobre a ilha.

 

Só papel no 'Marcula': o navio soviético foi o único parado pelo bloqueio

Sexta, 26 de outubro
Pela primeira vez desde o início da quarentena, um navio soviético é parado e inspecionado pelos americanos. Dentro do Marcula, porém, havia apenas um carregamento de papel. A CIA diz a Kennedy que ainda não há sinais de interrupção na montagem dos mísseis. Quando o presidente americano começa a acreditar que a quarentena não será suficiente para intimidar os inimigos, chega uma inesperada carta de Kruschev. O líder russo oferecia um acordo simples: se Kennedy prometesse não atacar Cuba, as armas seriam removidas.

 

Sábado, 27 de outubro
Quando os americanos já davam o acordo como certo, chega outra mensagem de Kruschev, mais severa e com uma exigência adicional: a remoção dos mísseis dos EUA na Turquia. A crise chega ao seu momento mais perigoso. Kennedy ordena que os militares se preparem para atacar Cuba na segunda-feira pela manhã. Um avião espião americano é abatido sobre Cuba e seu piloto é morto. É quando Kennedy decide dar uma cartada inesperada – fingir que a segunda carta de Kruschev jamais chegara e aceitar a oferta do dia anterior. Washington considera remota a chance de sucesso do truque.

 

Domingo, 28 de outubro
O espectro da guerra enfim se dissipa. Kruschev aceita a proposta de Kennedy e anuncia a decisão na Rádio Moscou. Os líderes trocam cartas confirmando os termos do acordo. O soviético também se corresponde com Fidel Castro – Kruschev explica sua decisão de retirar os mísseis; o cubano justifica a autorização para abater o avião americano, na véspera. O Kremlin autoriza o começo da remoção dos mísseis instalados em Cuba. As forças militares americanas mantêm o cerco à ilha para assegurar que a promessa seja cumprida.

 

O desfecho da queda-de-braço
Potências discutem os próximos passos do desarmamento nuclear de Cuba no Conselho de Segurança da ONU
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