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  CRISE DOS MÍSSEIS
NESTA EDIÇÃO
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Entrevista: Robert Kennedy
  Auto-retrato: Nelson Mandela
  Ponto de Vista: Leó Szilárd
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A crise dos mísseis de Cuba
  A cronologia do episódio
  Fidel Castro, o falastrão
  Brasil participa dos diálogos
  Infográfico: ameaça na ilha
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Jânio Quadros é derrotado
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De Gaulle e o Referendo na França
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Começa o Concílio Vaticano II
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Dissidente soviético lança livro
Vinícius de Moraes agora canta
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Especial
VEJA, outubro de 1962
A ponte entre Washington, Brasília e Havana ajudou
a desarmar a crise atômica. Desta vez, Goulart não se enrolou
nem defendeu Fidel – só Brizola se agarrou à bomba
A visita de abril: Jango é recebido na Casa Branca. A conversa foi dura, mas houve empatia entre os dois


Sentado na cama da suíte presidencial, ainda de pijama, John Fitzgerald Kennedy lia o Washington Post e o New York Times quando seu assessor especial para Assuntos de Segurança Nacional, McGeorge Bundy, entrou no quarto. Pela primeira vez, Kennedy ouvia que a União Soviética instalava mísseis nucleares em Cuba. Exatamente ao mesmo tempo, no Brasil, diplomatas dos Estados Unidos acertavam os últimos detalhes do roteiro da visita de Kennedy a João Belchior Marques Goulart, marcada para novembro. O aguardado desembarque do americano no país trazia a esperança de um importantíssimo ajuste de sintonia entre os presidentes, afastados nos últimos meses por uma série de perigosos descompassos. Era a manhã de terça-feira 16. Dez dias depois, Kennedy escrevia a Jango para avisar que a visita teria de ser adiada – ainda por causa dos reflexos da crise dos mísseis, seria impossível se ausentar de Washington nas datas previstas (dia 12 em Brasília, dia 13 em São Paulo e dia 14 em Natal). Ainda assim, os presidentes pareciam mais próximos do que nunca. Afinal, o envolvimento brasileiro nas negociações que cercaram o delicadíssimo episódio ajudou a dissipar algumas incertezas e desconfortos entre Washington e Brasília. Tirando os desvarios de alguns tresloucados que insistem em tentar manipular o presidente, o Brasil aproveitou a crise para se posicionar claramente entre as nações civilizadas e democráticas, sem as ambigüidades costumeiras do governo Jango.

O elemento decisivo para convencer o presidente brasileiro foi uma carta assinada por Kennedy e entregue no dia 23 pelo embaixador dos EUA no país, Lincoln Gordon. A mensagem não deixava dúvidas da gravidade da situação. Depois de quase duas horas reunido com Gordon, Jango deixou o gabinete visivelmente abalado. De acordo com auxiliares próximos, estava com o rosto pálido. Reunido com seus principais ministros, o presidente confessou ter ficado impressionado com as informações trazidas pelo embaixador americano sobre as armas soviéticas. Depois de várias horas de discussões, decidiu-se que a posição oficial do governo seria de cautela, moderação e expectativa. Não haveria desta vez gestos amistosos na direção dos cubanos e soviéticos – o Brasil não tomaria providência alguma para tentar defender a ilha.

A declaração de Jango não deixava margem para manipulações: "O Brasil ficará do lado dos Estados Unidos caso o problema cubano seja levado às últimas conseqüências". No dia seguinte, Goulart aproveitou a reunião dos ministros militares por ocasião da Semana da Asa, no Ministério da Aeronáutica, para conferenciar com eles. O ministro da Guerra, general Amaury Kruel, disse que as Forças Armadas estavam "unidas e coesas" em torno da posição adotada pelo governo. "Estamos prontos para cumprir as decisões da última conferência ministerial de Punta del Este, especialmente no caso previsto de uma nação estrangeira oferecer armas ofensivas a outra nação do continente." Os titulares das pastas militares garantiram a Jango que "as Forças Armadas têm um comandante-em-chefe a quem obedecem e cujas diretrizes seguem". O ministro da Marinha, almirante Pedro Paulo de Araújo Suzano, reiterou: "Cumpriremos as ordens do presidente da República. É ele quem decide a política externa do Brasil."

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'Comandante-em-chefe': militares prometem obedecer a política externa de Jango

Choque político - Mais tarde, o embaixador Lincoln Gordon procurou Goulart para intermediar uma conversa telefônica com Kennedy, que transmitiu detalhes da situação. O recado do americano ao brasileiro era lúgubre: "Já não posso fazer mais nada. As próximas 48 horas serão decisivas e da mais extrema importância". Jango chamou o primeiro-ministro Hermes Lima para discutir outro assunto da conversa com Kennedy: o papel do Brasil como interlocutor com Fidel Castro. Ao embaixador brasileiro em Havana, Luís Bastián Pinto, seria confiada a missão de garantir que o revolucionário cubano ouvisse a mensagem de Washington – a instalação dos mísseis tinha de parar. Em tempos de acirrado embate ideológico, a interlocução logo esquentou o choque político no país. Alguns relatos – negados pelos Estados Unidos – davam conta de que Goulart enviara mensagem a Kennedy pedindo garantias de que os americanos não invadiriam Cuba. A oposição aproveitou para atacar. Herbert Levy, presidente nacional da UDN, classificou a nota do Brasil sobre a crise de "totalmente inepta, senão ridícula".

Para ele, descartar a hipótese de invasão armada significava negar a chance de defesa à segurança do continente todo. "Isso acontece com o Brasil porque nosso governo pretende fazer política interna às custas da política internacional. Nosso governo continua a interpretar com cinismo os princípios de autodeterminação e não-intervenção. Autodeterminação, obviamente, é a escolha do governo pelo próprio povo. Por acaso existe essa condição em Cuba? Sobre a não-intervenção, o conceito não pode ser invocado quando há uma evidente invasão de potências não-americanas no hemisfério." O governador eleito de São Paulo, Adhemar de Barros, também entrou no assunto. "Tenho condenado os métodos de Fidel Castro e já tive a oportunidade de, pessoalmente, dizer-lhe que estava diante de um criminoso. Seria capaz de repetir a mesma atitude hoje", afirmou. Os udenistas Adauto Lúcio Cardoso e José Monteiro de Castro articularam a convocação do primeiro-ministro à Câmara para explicar a posição do governo na crise. Hermes Lima prometeu comparecer à Casa no próximo dia 5 para prestar esclarecimentos.

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Cunhado-problema: Goulart e Brizola

A reação alarmada da oposição tinha justificativas de sobra. Afinal, está se tratando aqui de um governo que insistiu na tolice da política externa "independente" mesmo durante a mais radical polarização política de que se tem notícia no globo. Há pouco menos de um ano, o mesmo Goulart que hoje diz apoiar os americanos na crise dos mísseis reatava as relações diplomáticas do Brasil com a União Soviética, rompidas desde o governo do marechal Eurico Gaspar Dutra, em 1948 – o presidente foi convencido da ilusão de que seria possível transitar confortavelmente entre as esferas de influência capitalista e comunista. Jango também se recusou a apoiar a invasão de Cuba, ensaiada por Kennedy para conter Fidel Castro, e manifestou publicamente sua oposição às sanções dos americanos contra a ilha, apesar dos selvagens ataques aos interesses comerciais de Washington em Havana (leia reportagem nesta edição). Mas nada é motivo de maior preocupação que as sandices proferidas pela gente cerca João Goulart. O ministro do Trabalho e Previdência Social, Almino Affonso, é um dos defensores de Fidel no governo brasileiro. "Não há necessidade de eleições livres num país como Cuba, onde cada cidadão tem um fuzil na mão para defender o povo", disse ele recentemente. "A revolução cubana é a grande sementeira que há de se espalhar por toda a América em um futuro não muito distante." O ministro das Relações Exteriores, San Tiago Dantas, é outro alvo da ira da oposição – o chanceler defendeu com unhas e dentes a não-expulsão de Cuba da Organização dos Estados Americanos (OEA) e conduziu todos os detalhes do reatamento com a URSS. Por fim, há Leonel Brizola, o cunhado-problema do presidente, sempre disposto a balançar o barco mesmo durante as tempestades mais temíveis. Na crise dos mísseis, o governador do Rio Grande do Sul e deputado eleito pelo estado da Guanabara comprou a versão soviética da história, aceitando a justificativa infame de que as fotos das bases militares em Cuba eram forjadas. Também acusou o embaixador brasileiro na OEA, Ilmar Pena Marinho, de traição. Segundo Brizola, o diplomata descumpriu as orientações oficiais do governo brasileiro ao apoiar o bloqueio naval na votação entre os países do continente (o que, obviamente, era uma mentira deslavada).

Tendência comunista - Brizola, aliás, colocou Goulart em apuros com Kennedy desde o primeiro contato entre os presidentes. O brasileiro, que não esconde a profunda admiração pelo americano, foi recebido pela primeira vez na Casa Branca no último mês de abril. O presidente queria deixar uma boa impressão – tinha, de fato, vontade de ser amigo dos Estados Unidos. Logo de cara, Kennedy quis saber o que Goulart faria para garantir uma indenização rápida e justa à International Telephone & Telegraph (ITT), empresa americana de telefonia que teve sua subsidiária gaúcha estatizada pelo cunhado do presidente, em fevereiro. Jango teve se explicar e prometer que a eventual nacionalização de empresas no país seria pacífica e negociada. A conversa teve outros momentos complicados. Kennedy manifestou preocupação com a "tendência esquerdista-comunista do movimento trabalhista brasileiro". Ao notar que Goulart não tinha gostado do comentário, o americano explicou que não pretendia interferir nas questões internas do país. Jango, por sua vez, cobrou Kennedy sobre a suspeita de apoio americano aos golpes militares desencadeados na América Latina. O americano rejeitou a insinuação e assegurou que seu país não colabora com essas práticas. Apesar da dureza da conversa, houve boa dose de empatia entre os dois, o que ajuda a explicar a decisão de Kennedy de convocar o Brasil a ajudar na condução da crise – ainda que, poucas semanas depois da visita, Goulart tenha assustado outra vez os americanos, agora com o polêmico discurso em defesa das reformas de base no Primeiro de Maio. Logo em seguida, Brizola lançou um colérico ataque aos americanos, levando Lincoln Gordon a pedir uma reprimenda de Goulart ao cunhado. O presidente disse que não compartilhava das idéias do governador, mas não aceitou passar um pito nele.

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No Salão Oval: momentos complicados

Com o acordo para desarmar a bomba-relógio cubana já costurado, Kennedy escreveu a Jango mais uma vez, lamentando o adiamento da visita ao Brasil (agora prevista para junho de 1963) e dizendo estar "ansioso para reatar e aprofundar as relações pessoais" com o colega. "Aproveito essa ocasião para congratular-me com o povo brasileiro pelas suas recentes eleições, que tenho acompanhado com grande interesse", escreveu o americano. "O processo pacífico e disciplinado foi, para mim, uma demonstração de força e vitalidade do governo democrático em seu país." Goulart chamou Gordon para um brinde à vitória das democracias na crise. Que Jango não espere, porém, ser adulado por Washington. No início da contenda, Kennedy ficou irritado com o Brasil pela oposição irredutível à possibilidade de uso de força para segurar os soviéticos em Cuba. Também falta resolver a questão das hostilidades contra algumas empresas americanas com negócios no Brasil. Ainda assim, a parceria deve continuar, pelo menos nas próximas semanas. Mesmo com a ameaça de conflito afastada – pelo menos por enquanto –, a participação brasileira na mediação deve continuar.

À meia-noite do último dia 29, um Caravelle partiu do Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, com destino a Havana (antes, foi preciso alertar as tropas americanas e garantir a segurança do vôo, já que o bloqueio à ilha ainda vigorava). A bordo estavam o general Albino Silva, chefe do Gabinete Militar da Presidência, e outras cinco pessoas, incluindo o embaixador cubano no país, Joaquín Hernández Armas. A delegação brasileira acompanharia de perto a desmontagem do arsenal atômico. No decorrer da crise inteira, Fidel concordou com Kennedy num único ponto: ele também queria o envolvimento dos brasileiros nas negociações, evitando que suas relações internacionais ficassem subordinadas apenas aos interesses soviéticos. Horas depois do desembarque, Albino Silva conversou com Castro na residência do embaixador Bastián Pinto, no elegante bairro de Miramar. O general avisou a Goulart que os resultados das conversas foram "satisfatórios". Eleito no último dia 18 para uma vaga no Conselho de Segurança da ONU (biênio 1963-1964), o Brasil tenta emplacar agora um plano de desnuclearização da América Latina e da África, proibindo testes e uso de armas desse tipo nas duas regiões. "O projeto vem recebendo apoio cada vez maior e poderá ser prestigiado até pelos americanos", gaba-se Hermes Lima, convicto de que o comportamento dúbio do governo nos flertes com Washington não será capaz de azedar a relação outra vez.

Ao reatar as relações diplomáticas com os soviéticos, no fim do ano passado, o Brasil aceitou enfrentar algumas situações inusitadas – e, em alguns casos, ridículas – no trato com os timoneiros da esquadra comunista. Uma delas ocorreu neste mês, no Rio de Janeiro. Em plena crise dos mísseis, o embaixador soviético no país, Ilya Tchernyschov, morreu afogado enquanto gozava de seu costumeiro banho de mar matinal no litoral da Guanabara. A tragédia foi seguida de um pequeno escândalo. Responsável pela remoção do corpo no Instituto Médico-Legal, o encarregado de negócios da URSS no Brasil, Andrey Fomin, deu vexame. Ao notar que o veículo funerário era decorado por uma cruz – o rabecão fora cedido gratuitamente pela Santa Casa de Misericórdia –, o diplomata russo impediu o transporte do féretro. Inconformado com a presença do símbolo cristão no carro em que repousava seu finado camarada, foi flagrado pela reportagem do jornal O Globo enquanto constrangia os prestativos funcionários do IML carioca. "Tirem essa cruz!", gritava, rubro de raiva. Apesar da cooperação gentil das instituições locais, Fomin só permitiu o traslado do caixão ao aeroporto quando convenceu o servidor responsável a remover a cruz grudada à porta do automóvel.

 

Secretário da ONU no avião do Brasil
U Thant desembarca em Nova York depois da visita a Cuba e comenta a retirada dos mísseis russos da ilha
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