| |
Especial
ENFIM, UM BRASIL DECIDIDO
A ponte entre Washington,
Brasília e Havana ajudou
a desarmar a crise atômica.
Desta vez, Goulart não se enrolou
nem
defendeu Fidel – só
Brizola se agarrou à bomba
Sentado na cama da suíte presidencial, ainda de pijama,
John Fitzgerald Kennedy lia o Washington Post e o New
York Times quando seu assessor especial para Assuntos de Segurança
Nacional, McGeorge Bundy, entrou no quarto. Pela primeira vez, Kennedy
ouvia que a União Soviética instalava mísseis
nucleares em Cuba. Exatamente ao mesmo tempo, no Brasil, diplomatas
dos Estados Unidos acertavam os últimos detalhes do roteiro
da visita de Kennedy a João Belchior Marques Goulart, marcada
para novembro. O aguardado desembarque do americano no país
trazia a esperança de um importantíssimo ajuste de
sintonia entre os presidentes, afastados nos últimos meses
por uma série de perigosos descompassos. Era a manhã
de terça-feira 16. Dez dias depois, Kennedy escrevia a Jango
para avisar que a visita teria de ser adiada – ainda por causa dos
reflexos da crise dos mísseis, seria impossível se
ausentar de Washington nas datas previstas (dia 12 em Brasília,
dia 13 em São Paulo e dia 14 em Natal). Ainda assim, os presidentes
pareciam mais próximos do que nunca. Afinal, o envolvimento
brasileiro nas negociações que cercaram o delicadíssimo
episódio ajudou a dissipar algumas incertezas e desconfortos
entre Washington e Brasília. Tirando os desvarios de alguns
tresloucados que insistem em tentar manipular o presidente, o Brasil
aproveitou a crise para se posicionar claramente entre as nações
civilizadas e democráticas, sem as ambigüidades costumeiras
do governo Jango.
O elemento decisivo para convencer o presidente brasileiro foi
uma carta assinada por Kennedy e entregue no dia 23 pelo embaixador
dos EUA no país, Lincoln Gordon. A mensagem não deixava
dúvidas da gravidade da situação. Depois de
quase duas horas reunido com Gordon, Jango deixou o gabinete visivelmente
abalado. De acordo com auxiliares próximos, estava com o
rosto pálido. Reunido com seus principais ministros, o presidente
confessou ter ficado impressionado com as informações
trazidas pelo embaixador americano sobre as armas soviéticas.
Depois de várias horas de discussões, decidiu-se que
a posição oficial do governo seria de cautela, moderação
e expectativa. Não haveria desta vez gestos amistosos na
direção dos cubanos e soviéticos – o Brasil
não tomaria providência alguma para tentar defender
a ilha.
A declaração de Jango não deixava margem
para manipulações: "O Brasil ficará do lado
dos Estados Unidos caso o problema cubano seja levado às
últimas conseqüências". No dia seguinte, Goulart
aproveitou a reunião dos ministros militares por ocasião
da Semana da Asa, no Ministério da Aeronáutica, para
conferenciar com eles. O ministro da Guerra, general Amaury Kruel,
disse que as Forças Armadas estavam "unidas e coesas" em
torno da posição adotada pelo governo. "Estamos prontos
para cumprir as decisões da última conferência
ministerial de Punta del Este, especialmente no caso previsto de
uma nação estrangeira oferecer armas ofensivas a outra
nação do continente." Os titulares das pastas militares
garantiram a Jango que "as Forças Armadas têm um comandante-em-chefe
a quem obedecem e cujas diretrizes seguem". O ministro da Marinha,
almirante Pedro Paulo de Araújo Suzano, reiterou: "Cumpriremos
as ordens do presidente da República. É ele quem decide
a política externa do Brasil."
Choque político - Mais tarde, o embaixador Lincoln
Gordon procurou Goulart para intermediar uma conversa telefônica
com Kennedy, que transmitiu detalhes da situação.
O recado do americano ao brasileiro era lúgubre: "Já
não posso fazer mais nada. As próximas 48 horas serão
decisivas e da mais extrema importância". Jango chamou o primeiro-ministro
Hermes Lima para discutir outro assunto da conversa com Kennedy:
o papel do Brasil como interlocutor com Fidel Castro. Ao embaixador
brasileiro em Havana, Luís Bastián Pinto, seria confiada
a missão de garantir que o revolucionário cubano ouvisse
a mensagem de Washington – a instalação dos mísseis
tinha de parar. Em tempos de acirrado embate ideológico,
a interlocução logo esquentou o choque político
no país. Alguns relatos – negados pelos Estados Unidos –
davam conta de que Goulart enviara mensagem a Kennedy pedindo garantias
de que os americanos não invadiriam Cuba. A oposição
aproveitou para atacar. Herbert Levy, presidente nacional da UDN,
classificou a nota do Brasil sobre a crise de "totalmente
inepta, senão ridícula".
Para ele, descartar a hipótese
de invasão armada significava negar a chance de defesa à
segurança do continente todo. "Isso acontece com o Brasil
porque nosso governo pretende fazer política interna às
custas da política internacional. Nosso governo continua
a interpretar com cinismo os princípios de autodeterminação
e não-intervenção. Autodeterminação,
obviamente, é a escolha do governo pelo próprio povo.
Por acaso existe essa condição em Cuba? Sobre a não-intervenção,
o conceito não pode ser invocado quando há uma evidente
invasão de potências não-americanas no hemisfério."
O governador eleito de São Paulo, Adhemar de Barros, também
entrou no assunto. "Tenho condenado os métodos de Fidel Castro
e já tive a oportunidade de, pessoalmente, dizer-lhe que
estava diante de um criminoso. Seria capaz de repetir a mesma atitude
hoje", afirmou. Os udenistas Adauto Lúcio Cardoso e José
Monteiro de Castro articularam a convocação do primeiro-ministro
à Câmara para explicar a posição do governo
na crise. Hermes Lima prometeu comparecer à Casa no próximo
dia 5 para prestar esclarecimentos.
A reação alarmada da oposição tinha
justificativas de sobra. Afinal, está se tratando aqui de
um governo que insistiu na tolice da política externa "independente"
mesmo durante a mais radical polarização política
de que se tem notícia no globo. Há pouco menos de
um ano, o mesmo Goulart que hoje diz apoiar os americanos na crise
dos mísseis reatava as relações diplomáticas
do Brasil com a União Soviética, rompidas desde o
governo do marechal Eurico Gaspar Dutra, em 1948 – o presidente
foi convencido da ilusão de que seria possível transitar
confortavelmente entre as esferas de influência capitalista
e comunista. Jango também se recusou a apoiar a invasão
de Cuba, ensaiada por Kennedy para conter Fidel Castro, e manifestou
publicamente sua oposição às sanções
dos americanos contra a ilha, apesar dos selvagens ataques aos interesses
comerciais de Washington em Havana (leia reportagem nesta edição). Mas nada é motivo de maior preocupação que
as sandices proferidas pela gente cerca João Goulart. O ministro
do Trabalho e Previdência Social, Almino Affonso, é
um dos defensores de Fidel no governo brasileiro. "Não há
necessidade de eleições livres num país como
Cuba, onde cada cidadão tem um fuzil na mão para defender
o povo", disse ele recentemente. "A revolução cubana
é a grande sementeira que há de se espalhar por toda
a América em um futuro não muito distante." O ministro
das Relações Exteriores, San Tiago Dantas, é
outro alvo da ira da oposição – o chanceler defendeu
com unhas e dentes a não-expulsão de Cuba da Organização
dos Estados Americanos (OEA) e conduziu todos os detalhes do reatamento
com a URSS. Por fim, há Leonel Brizola, o cunhado-problema
do presidente, sempre disposto a balançar o barco mesmo durante
as tempestades mais temíveis. Na crise dos mísseis,
o governador do Rio Grande do Sul e deputado eleito pelo estado
da Guanabara comprou a versão soviética da história,
aceitando a justificativa infame de que as fotos das bases militares
em Cuba eram forjadas. Também acusou o embaixador brasileiro
na OEA, Ilmar Pena Marinho, de traição. Segundo Brizola,
o diplomata descumpriu as orientações oficiais do
governo brasileiro ao apoiar o bloqueio naval na votação
entre os países do continente (o que, obviamente, era uma
mentira deslavada).
Tendência comunista - Brizola, aliás, colocou
Goulart em apuros com Kennedy desde o primeiro contato entre os
presidentes. O brasileiro, que não esconde a profunda admiração
pelo americano, foi recebido pela primeira vez na Casa Branca no
último mês de abril. O presidente queria deixar uma
boa impressão – tinha, de fato, vontade de ser amigo dos
Estados Unidos. Logo de cara, Kennedy quis saber o que Goulart faria
para garantir uma indenização rápida e justa
à International Telephone & Telegraph (ITT), empresa
americana de telefonia que teve sua subsidiária gaúcha
estatizada pelo cunhado do presidente, em fevereiro. Jango teve
se explicar e prometer que a eventual nacionalização
de empresas no país seria pacífica e negociada. A
conversa teve outros momentos complicados. Kennedy manifestou preocupação
com a "tendência esquerdista-comunista do movimento trabalhista
brasileiro". Ao notar que Goulart não tinha gostado do comentário,
o americano explicou que não pretendia interferir nas questões
internas do país. Jango, por sua vez, cobrou Kennedy sobre
a suspeita de apoio americano aos golpes militares desencadeados
na América Latina. O americano rejeitou a insinuação
e assegurou que seu país não colabora com essas práticas.
Apesar da dureza da conversa, houve boa dose de empatia entre os
dois, o que ajuda a explicar a decisão de Kennedy de convocar
o Brasil a ajudar na condução da crise – ainda que,
poucas semanas depois da visita, Goulart tenha assustado outra vez
os americanos, agora com o polêmico discurso em defesa das
reformas de base no Primeiro de Maio. Logo em seguida, Brizola lançou
um colérico ataque aos americanos, levando Lincoln Gordon
a pedir uma reprimenda de Goulart ao cunhado. O presidente disse
que não compartilhava das idéias do governador, mas
não aceitou passar um pito nele.
Com o acordo para desarmar a bomba-relógio cubana já
costurado, Kennedy escreveu a Jango mais uma vez, lamentando o adiamento
da visita ao Brasil (agora prevista para junho de 1963) e dizendo
estar "ansioso para reatar e aprofundar as relações
pessoais" com o colega. "Aproveito essa ocasião para congratular-me
com o povo brasileiro pelas suas recentes eleições,
que tenho acompanhado com grande interesse", escreveu o americano.
"O processo pacífico e disciplinado foi, para mim, uma demonstração
de força e vitalidade do governo democrático em seu
país." Goulart chamou Gordon para um brinde à vitória
das democracias na crise. Que Jango não espere, porém, ser adulado por Washington. No início da contenda, Kennedy ficou irritado com o Brasil pela oposição irredutível à possibilidade de uso de força para segurar os soviéticos em Cuba. Também falta resolver a questão das hostilidades contra algumas empresas americanas com negócios no Brasil. Ainda assim, a parceria deve continuar, pelo menos nas próximas semanas. Mesmo com a ameaça de conflito
afastada – pelo menos por enquanto –, a participação
brasileira na mediação deve continuar.
À meia-noite
do último dia 29, um Caravelle partiu do Aeroporto do Galeão,
no Rio de Janeiro, com destino a Havana (antes, foi preciso alertar
as tropas americanas e garantir a segurança do vôo,
já que o bloqueio à ilha ainda vigorava). A bordo
estavam o general Albino Silva, chefe do Gabinete Militar da Presidência,
e outras cinco pessoas, incluindo o embaixador cubano no país,
Joaquín Hernández Armas. A delegação
brasileira acompanharia de perto a desmontagem do arsenal atômico.
No decorrer da crise inteira, Fidel concordou com Kennedy num único
ponto: ele também queria o envolvimento dos brasileiros nas
negociações, evitando que suas relações
internacionais ficassem subordinadas apenas aos interesses soviéticos.
Horas depois do desembarque, Albino Silva conversou com Castro na
residência do embaixador Bastián Pinto, no elegante
bairro de Miramar. O general avisou a Goulart que os resultados
das conversas foram "satisfatórios". Eleito no último
dia 18 para uma vaga no Conselho de Segurança da ONU (biênio
1963-1964), o Brasil tenta emplacar agora um plano de desnuclearização
da América Latina e da África, proibindo testes e
uso de armas desse tipo nas duas regiões. "O projeto vem
recebendo apoio cada vez maior e poderá ser prestigiado até
pelos americanos", gaba-se Hermes Lima, convicto de que o comportamento
dúbio do governo nos flertes com Washington não será
capaz de azedar a relação outra vez.
Ao reatar as relações diplomáticas com
os soviéticos, no fim do ano passado, o Brasil aceitou
enfrentar algumas situações inusitadas – e,
em alguns casos, ridículas – no trato com os timoneiros
da esquadra comunista. Uma delas ocorreu neste mês,
no Rio de Janeiro. Em plena crise dos mísseis, o embaixador
soviético no país, Ilya Tchernyschov, morreu
afogado enquanto gozava de seu costumeiro banho de mar matinal
no litoral da Guanabara. A tragédia foi seguida de
um pequeno escândalo. Responsável pela remoção
do corpo no Instituto Médico-Legal, o encarregado de
negócios da URSS no Brasil, Andrey Fomin, deu vexame.
Ao notar que o veículo funerário era decorado
por uma cruz – o rabecão fora cedido gratuitamente
pela Santa Casa de Misericórdia –, o diplomata russo
impediu o transporte do féretro. Inconformado com a
presença do símbolo cristão no carro
em que repousava seu finado camarada, foi flagrado pela reportagem
do jornal O Globo enquanto constrangia os prestativos
funcionários do IML carioca. "Tirem essa cruz!", gritava,
rubro de raiva. Apesar da cooperação gentil
das instituições locais, Fomin só permitiu
o traslado do caixão ao aeroporto quando convenceu
o servidor responsável a remover a cruz grudada à
porta do automóvel.
|