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  CRISE DOS MÍSSEIS
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Entrevista: Robert Francis Kennedy
VEJA, outubro de 1962
O secretário de Justiça dos EUA defende a estratégia da
Casa Branca, conta as lições que aprendeu com o irmão presidente
e revela os bastidores da crise dos mísseis de Cuba
'Pressão enorme': no auge da crise, os irmãos Kennedy trocam confidências no lado de fora do Salão Oval


Há pouco mais de uma década, os irmãos John e Robert pouco se falavam – separados por oito anos de diferença na idade e por constantes desencontros nas mudanças da família, os filhos do embaixador Joseph Kennedy passaram a infância e a juventude afastados. Enquanto Robert estudava nas melhores escolas particulares da costa leste americana, John servia na II Guerra Mundial. Quando o caçula finalmente se alistou, em outubro de 1943, o irmão mais velho, já tenente, se recuperava das lesões sofridas num heróico resgate da tripulação de seu barco nas Ilhas Salomão, em agosto. Em 1946, John, eleito deputado, se mudava para Washington, enquanto Robert, com o serviço militar concluído, se matriculava na Universidade de Harvard, perto de Boston. Os caminhos dos irmãos só se uniram há exatos onze anos, em outubro de 1951, quando John, Robert e a irmã Patricia passaram sete semanas juntos num giro por Israel, Índia, Vietnã e Japão. A viagem marcou a primeira ocasião em que os irmãos puderam se conhecer de verdade – e dela resultou uma relação de enorme empatia e proximidade. Já adultos, "Jack" e "Bobby" descobriam que, além de irmãos, eram melhores amigos. A confiança fraternal surgida na jornada asiática explica o papel decisivo de Robert na condução da crise dos mísseis soviéticos em Cuba, nas últimas semanas. Coordenador da campanha eleitoral de 1960 e secretário de Justiça no governo de John Kennedy, Robert foi o principal interlocutor do presidente nos duríssimos momentos da crise. A atuação de Bobby no caso foi muito além dos limites do cargo que ocupa: o secretário foi estrategista, diplomata, articulador político e confidente do presidente. Um dos idealizadores do bloqueio naval de Cuba e o principal emissário de Kennedy junto aos soviéticos, Robert Kennedy sai da crise como astro de primeira grandeza na constelação política americana. Casado com Ethel Skakel há doze anos, pai de três meninos e quatro meninas, o espantosamente jovem Bobby – apenas 36 anos – concedeu a seguinte entrevista a VEJA.

* * *

VEJA - Quando o senhor soube da instalação dos mísseis soviéticos em Cuba?
Kennedy - Na manhã de 16 de outubro, pouco depois das 9 horas, o presidente Kennedy me chamou na Casa Branca. Ele disse que estávamos com um grande problema. Em seguida, já em sua sala, me contou sobre os mísseis e armas atômicas em Cuba. Às 11h45 daquela mesma manhã, vimos as fotografias da construção das bases. O sentimento geral na reunião era de enorme surpresa. Ninguém esperava que os russos colocariam mísseis na ilha. No mês passado, recebi uma mensagem pessoal de Kruschev dizendo que o presidente Kennedy deveria ficar tranqüilo, que nenhum míssil balístico seria enviado a Cuba. Enquanto os agentes da CIA mostravam as fotos aéreas naquela manhã, percebi que era tudo uma grande mentira – os russos estavam construindo as bases ao mesmo tempo em que mandavam aquelas mensagens a nós.

VEJA - Qual foi a reação do presidente?
Kennedy - Depois da reunião, caminhei com ele até a ala residencial da Casa Branca. O presidente sabia que a situação era difícil. Muita coisa estava em jogo, mas ele sabia que teria de agir. Os Estados Unidos não podiam aceitar o que os russos tinham feito. Ele estava convencido desde o início de que teria de fazer alguma coisa. E encomendou a nós recomendações sobre possíveis alternativas. Foi na tarde daquele primeiro dia que começamos a discutir a idéia de uma quarentena ou bloqueio naval. O secretário McNamara logo se transformou no principal defensor da idéia. Ele argumentava que seria uma pressão limitada, que poderia ser intensificada de acordo com as circunstâncias. Além disso, era uma pressão forte, que seria bem entendida e que nos deixaria no controle da situação.

VEJA - Não se falava numa possível ação militar nesse primeiro momento?
Kennedy - É claro que sim. Alguns defendiam um ataque surpresa, pois diziam que a quarentena não suspenderia a instalação dos mísseis, que já estavam em Cuba. O bloqueio seria como "fechar a porteira depois que o cavalo fugiu do celeiro", diziam eles. Mas o argumento mais forte era o de que uma quarentena contra Cuba levaria os russos a fazer o mesmo conosco em Berlim. Se o presidente Kennedy exigisse a retirada dos mísseis de Cuba para acabar com o bloqueio, eles pediriam a retirada dos mísseis que cercam a União Soviética. McNamara lembrou que um ataque aéreo cirúrgico contra as bases era considerado impossível pelo Estado Maior das Forças Armadas. A ação militar teria de incluir todas as instalações militares de Cuba, o que levaria a uma invasão. Talvez a crise chegaria a esse ponto, dizia McNamara. "Mas não vamos começar por aí", pedia ele.

VEJA - A oposição não gostou dessa postura do governo, considerada fraca pelos republicanos.
Kennedy - Bem, estamos em campanha eleitoral (para o Congresso e os governos estaduais)... Por causa disso, os republicanos saíram por aí dizendo que o governo não estava tomando as providências necessárias para garantir nossa segurança. Alguns, como o senador Homer Capehart, já pediam ação militar imediata contra Cuba. Dias depois, quando o presidente Kennedy fez seu discurso sobre a crise em rede nacional de televisão, ele se reuniu com os líderes parlamentares. Foi sua reunião mais difícil no mês inteiro. Eu não estava lá, mas notei como foi desgastante quando o encontrei, pouco depois. Os líderes do Congresso achavam que o presidente tinha de agir de forma mais enérgica, com um ataque, uma invasão. Depois de ouvir todas as críticas, o presidente explicou que estava cumprindo todos os passos necessários, e que era possível resolver a questão sem uma guerra devastadora. Ele lembrou que nosso ataque poderia ser respondido por uma chuva de mísseis que mataria milhões de americanos. Essa era uma aposta que ele não estava disposto a fazer até que todas as outras possibilidades estivessem esgotadas. O presidente estava irritado no fim do encontro. Mais tarde, se acalmou, e admitiu que a reação dos parlamentares foi parecida com a nossa quando ouvimos pela primeira vez sobre os mísseis.

VEJA - No discurso na TV, o presidente deixou claro que o bloqueio naval era apenas o passo "inicial". Até que ponto ele acreditava no sucesso da estratégia?
Kennedy - Ele estava calmo e confiante, sabia que era o caminho certo. Ainda assim, já havia ordenado ao Pentágono todos os preparativos necessários para qualquer ação militar. O país foi dormir naquele dia cheio de preocupação, mas também cheio de orgulho na força e na coragem do presidente. Ninguém era capaz de prever o que aconteceria nos próximos dias, mas todos sentíamos que o presidente, por causa de sua sabedoria e dignidade pessoal, teria o apoio de um país unido.

robert
"O mundo estava perto do holocausto nuclear? Era nossa culpa? Os minutos não passavam"

VEJA - Qual foi o momento mais tenso da crise?
Kennedy - Foi quando duas embarcações russas, o Gagárin e o Komiles, ficaram a poucos quilômetros da linha do bloqueio. Aí chegou a notícia de que um submarino russo vinha com eles. Mandamos um porta-aviões. Se o submarino russo não subisse à superfície, usaríamos cargas explosivas. Esses poucos minutos de espera foram o momento de maior preocupação para o presidente. O mundo estava perto de um holocausto nuclear? Era nossa culpa? Cometemos algum erro? Ele cobriu o rosto com a mão. Seus olhos estavam penosos. Por algum motivo, lembrei de quando ele estava doente e quase morreu (depois de combater na II Guerra); de quando ele perdeu seu filho; de quando ouvimos que nosso irmão mais velho havia morrido. Os minutos demoravam a passar. Não podíamos fazer mais nada. Parecia que estávamos perto de um precipício e não havia para onde escapar. Foi quando um mensageiro trouxe um recado: os navios haviam parado. Todos na sala pareciam pessoas diferentes. Por um momento, o mundo havia parado, e agora ele continuava a rodar.

VEJA - Como estava o clima no momento em que a proposta de Kruschev finalmente chegou?
Kennedy - A pressão era enorme. O presidente Kennedy já encomendava os preparativos para montar um governo civil em Cuba depois da invasão e ocupação do país. O secretário McNamara informava que os militares previam baixas numerosas em caso de invasão. O presidente disse: "Devemos saber que esses mísseis serão apontados contra nós se decidirmos invadir. E devemos aceitar a possibilidade de que esses mísseis serão disparados quando as hostilidades começarem". À noite, a mensagem chegou. Muito se falou sobre essa carta. Disseram até que Kruschev estava tão instável e emotivo que a mensagem era incoerente. Não havia dúvida de que a carta fora escrita por ele pessoalmente. Era muito longa e emocionada, mas não era incoerente. E a emoção era motivada pela morte, destruição e anarquia que a guerra nuclear traria a seu povo e a toda a humanidade. Isso, dizia ele várias vezes, tinha de ser evitado. Fiquei um pouco mais otimista. Quando me despedi do presidente naquela noite, ele também parecia ter esperança no sucesso.

VEJA - O senhor poderia revelar o que mais chamou sua atenção no comportamento do seu irmão durante todas essas conversas e reuniões?
Kennedy - Ele lembrava a todo momento que deveríamos compreender as implicações de cada um de nossos passos. Que tipo de resposta poderíamos prever? O que aconteceria depois? Ele sempre ressaltava a responsabilidade de pensar nos efeitos que nossas ações teriam sobre os outros. As decisões tomadas pelo presidente dos Estados Unidos poderiam abrir ou fechar as portas para os povos e governos de muitas outras nações. Era preciso estar sempre ciente dessa responsabilidade, dizia ele. O presidente estava decidindo em nome dos EUA, da União Soviética e de toda a humanidade. Nenhum de nós jamais esquecerá aquelas horas na Casa Branca. Vimos o significado e a responsabilidade do poder dos EUA, a responsabilidade que tínhamos com pessoas ao redor do globo que nunca ouviram falar de nós, os homens sentados numa sala decidindo o destino delas, decidindo se elas viveriam ou morreriam.

VEJA - Esse foi o maior aprendizado dos americanos nesse episódio?
Kennedy - Acho que a lição final da crise dos mísseis é a importância de se colocar no lugar do outro país. O presidente Kennedy gastou mais tempo tentando prever o efeito de suas ações em Kruschev e nos russos do que em qualquer outra coisa que estivesse fazendo. O que guiava todas as decisões era o esforço para não colocar Kruschev em desgraça, para não humilhar a União Soviética. A guerra só ocorreria se colocássemos a União Soviética numa posição em que ela perdesse o respeito de seu próprio povo e dos outros países. Foi por isso que decidiu pelo bloqueio ao invés de uma ação militar. Foi por isso que ele relutou tanto em atacar as bases de mísseis. Os russos, pensava ele, teriam de reagir militarmente a essas ações. Ele sempre se perguntava: "Kruschev entende quais são os nossos interesses? A União Soviética teve tempo suficiente para reagir aos nossos movimentos? Quero dar espaço para as manobras do adversário. Não pretendo pressionar os russos um centímetro sequer além do necessário".

VEJA - O senhor teme que a ameaça de guerra com os soviéticos se concretize no futuro?
Kennedy - O presidente Kennedy sabe que a União Soviética não quer uma guerra, e eles sabem que também queremos evitar um conflito armado. Portanto, se as hostilidades fossem iniciadas, seria por causa do fracasso de um ou do outro na compreensão dos objetivos do adversário. Desentendimentos e erros de cálculo provocam uma reação contrária. É assim que as guerras começam – guerras que ninguém quer e que ninguém vence. O presidente acredita desde o início que Kruschev é um homem racional, inteligente, capaz de mudar de posição se tiver tempo suficiente para isso. Mas sempre há a chance de um erro, de um descompasso, de uma falha no entendimento. O presidente Kennedy quer fazer o máximo para evitar essas chances do nosso lado. Mas a possibilidade de destruição da humanidade está sempre em sua cabeça.

 

John Kennedy fala à nação
O discurso do presidente sobre a crise dos mísseis, em que anunciou o bloqueio naval ao redor de Cuba
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