|
Seções
VEJA, outubro de 1962
 |
| Meredith: xingado por outros estudantes, o primeiro negro na Universidade do Mississippi é escoltado pelos agentes |
MATRICULADO: o estudante James Meredith,
primeiro aluno negro da história da Universidade do Mississippi.
Rejeitado várias vezes pela instituição, que
só aceita alunos brancos, Meredith, de 29 anos, foi à
Justiça para garantir seu direito de participar das aulas.
A vitória no tribunal não foi suficiente: o governador
Ross Barnett, defensor da segregação racial na universidade,
ordenou que sua entrada no campus fosse impedida. O presidente John
Kennedy decidiu intervir, enviando tropas federais ao Mississippi
para escoltar Meredith. Os protestos violentos e conflitos motivados
pelo caso provocaram duas mortes na cidade onde se localiza o campus.
Setenta e cinco pessoas ficaram feridas. Em discurso à nação,
Kennedy defendeu uma resolução pacífica da
crise. Meredith, que fez carreira militar por nove anos e freqüentou
uma faculdade só para negros por mais dois, foi alvo das
ofensas dos outros alunos a caminho de sua primeira aula – uma palestra
sobre a história colonial dos EUA. Dia 1º, em Oxford.
 |
| A tempestade americana: prejuízos |
MORRERAM: pelo menos 46 pessoas em decorrência
da passagem do ciclone extratropical Freda pela costa oeste americana.
A violenta tempestade, uma das maiores já registradas no
país, feriu centenas de pessoas, derrubou milhares de árvores
e deixou prejuízos estimados em até 280 milhões
de dólares nos estados da Califórnia, Oregon e Washington.
Os ventos chegaram a 270 quilômetros por hora. Os americanos
chamaram a passagem do ciclone de "Grande Golpe". Até o momento,
foi o maior desastre natural do ano.
Dia 12, nos Estados Unidos.
 |
| Mattei: petróleo e numerosos inimigos |
• o político italiano Enrico Mattei, ex-deputado
e chefão do setor de combustíveis do país,
num misterioso acidente aéreo na Lombardia. Encarregado,
depois da II Guerra, de desmontar a estatal de petróleo Agip,
criada pelo regime fascista de Mussolini, Mattei transformou a companhia
numa gigante dos combustíveis, sob o nome Ente Nazionale
Idrocarburi (ENI). No comando da empresa, negociou acordos inéditos
de exploração de petróleo com países
como Tunísia, Marrocos, Irã e Egito, rompendo o domínio
das maiores empresas do setor, como Esso e Shell. Também
fechou um importante acordo com a União Soviética,
declarando em seguida que o monopólio dos petroleiros americanos
estava acabado. O avião de Mattei, um Morane-Saulnier MS-760,
caiu durante uma tempestade, no trajeto entre a Sicília e
Milão. Há rumores sobre uma possível ação
criminosa – o avião já havia sido sabotado no passado.
Como Mattei, figura polêmica dentro e fora do país,
acumulava numerosos inimigos, a lista de suspeitos é extensa:
inclui desde a CIA até o próprio serviço secreto
italiano, o Sifar. Além do político, morreram o piloto,
Irnerio Bertuzzi, e um jornalista americano, William McHale. O ministro
da Defesa, Giulio Andreotti, assumiu a investigação
do caso. Dia 27, aos 56 anos, em Bascapè, na província
de Pavia.
 |
| Schirra: primeira misssão sem falhas |
COMPLETOU: seis voltas ao redor da Terra o astronauta americano
Walter Schirra Jr., de 29 anos, numa missão que durou
9 horas, 13 minutos e 11 segundos. A bordo da cápsula Sigma
7, lançada por um foguete Mercury 8, "Wally" Schirra tornou-se
o quinto americano a viajar ao espaço. Foi a primeira missão
sem falhas do projeto Mercury da Nasa, a agência espacial
dos Estados Unidos. Schirra percorreu um total de 231.718 quilômetros
e atingiu a velocidade máxima de 28.257 quilômetros
por hora. Pela primeira vez na história, o astronauta transmitiu
uma mensagem ao vivo do espaço através do rádio
e da televisão. Dia 3, no Cabo Canaveral, na Flórida.
 |
| A luta pela independência argelina: centenas de milhares de mortos |
ACEITA: na Organização das Nações
Unidas (ONU) a Argélia, antiga colônia da França,
independente desde o referendo de julho, que confirmou o apoio da
população ao fim do regime colonial. Localizado no
norte da África, banhado pelo Mar Mediterrâneo e espalhado
sobre o deserto do Saara, o novo país surgiu depois de uma
sangrenta guerra pela independência, que durou oito anos.
Calcula-se que o conflito tenha matado cerca de 27.000 militares
e 5.000 civis do lado francês. Entre os argelinos, a estimativa
varia entre 500.000 mortos (conforme fontes francesas) e 1,5 milhão
de mortos (de acordo com os argelinos). A Argélia
tem população majoritariamente muçulmana. O árabe é o idioma mais falado. Dia 8, em Nova York.
FUNDADA: a Anistia Internacional, organização
independente destinada a promover a defesa dos direitos humanos
pelo mundo. Lançado pelo advogado britânico Peter Benenson
no ano passado, como uma campanha especial para defender pessoas
detidas por motivos políticos ou religiosos, a Anistia conquistou
adeptos em vários países. Reunidos numa conferência
realizada em Sijsele, nos arredores de Bruges, os ativistas decidiram
formar uma organização permanente, que pretende conscientizar
o público sobre o drama dos prisioneiros políticos
e denunciar violações dos direitos humanos em todas
as partes do planeta. Nos ultimos meses, novos grupos da Anistia
Internacional foram criados em países como Estados Unidos,
Austrália e Suécia. A organização, sediada
em Londres, já está presente em sete nações.
Dia 1º, na Bélgica.
 |
| 'Der Spiegel': uma capa polêmica |
INVADIDA: a redação da revista semanal
Der Spiegel, a mais lida da Alemanha Ocidental, por
36 agentes da polícia. Integrantes do governo acusam a publicação
de "traição". Na edição que chegou às
bancas no dia 8, a revista dedicou sua reportagem de capa a um assunto
controverso: a falta de preparo das Forças Armadas para proteger
a população da ameaça comunista. Não
foi o primeiro atrito entre a Spiegel e os militares. A revista
já tinha denunciado um escândalo de corrupção
envolvendo as Forças Armadas no ano passado. O ministro da
Defesa, Franz Josef Straub, foi inocentado por falta de provas,
mas tomou como inimigo o editor-chefe do semanário, Rudolf
Augstein. Além de invadir a redação, a polícia
revistou as casas dos jornalistas. Milhares de documentos
foram apreendidos. Augstein e os editores Claus Jacobi e Johannes
Engel foram presos. O ministro Straub nega ter ordenado a operação
policial. O caso já é considerado o primeiro grande
desafio às jovens instituições democráticas
da país, ainda imaturas depois do pesadelo autoritário
dos nazistas. Dia 26, em Hamburgo.
 |
| Os 'besouros' de Liverpool: George (19 anos), Ringo (22), John (22) e Paul (20) |
LANÇADO: o compacto Love Me Do, dos Beatles,
grupo recentemente contratado pelo selo Parlophone, da gravadora
britânica EMI. A banda, formada na cidade de Liverpool, conquistou
relativa fama numa temporada em Hamburgo, Alemanha Ocidental.
Através do empresário Brian Epstein, o conjunto foi então apresentado ao famoso produtor George Martin, que decidiu
contratar os jovens músicos (John Lennon, de 22 anos, Paul
McCartney, de 20, George Harrison, de 19, e Ringo Starr, de 22).
O compacto, gravado no mês passado, nos estúdios Abbey
Road, em Londres, tem a canção P.S. I Love You
no lado B. A direção da EMI promete investir tempo
e dinheiro para fazer deslanchar a carreira do grupo. O produtor
Martin enxerga nos rapazes um futuro promissor, apesar das habilidades
limitadas como instrumentistas e do tolo nome do conjunto – um trocadilho
que mistura as palavras "beetle" (besouro) e "beat" (batida). Dia
5, em Londres.
 |
| Cena da peça: sessões desgastantes |
ESTREOU: o espetáculo teatral Quem Tem Medo
de Virginia Woolf?, do dramaturgo americano Edward Albee,
na sala Billy Rose, na Broadway. A polêmica peça causou
impacto entre crítica e público – e a repercussão
da estréia transformou a montagem em um sucesso imediato. A
trama, cheia de diálogos duros e corrosivos, é centrada
num brutal conflito conjugal. Os atores saem de cena exauridos pelo
tenso embate entre o casal de protagonistas. Os espectadores costumam
deixar as sessões igualmente exaustos. A montagem, dirigida
por Alan Schneider, é estrelada pela alemã Uta Hagen
e pelos americanos Arthur Hill, Melinda Dillon e George Grizzard.
Dia 13, em Nova York.

 |
| Pauling: campanha contra a bomba |
CONCEDIDOS: o Prêmio Nobel da Paz ao cientista
americano Linus Carl Pauling, de 61 anos, pela liderança
na campanha internacional contra os testes nucleares de superfície.
Pauling é o primeiro ganhador de Nobel a conquistar
dois prêmios sozinho, em categorias diferentes – em
1954, recebeu o Nobel de Química. Um dos maiores pesquisadores
deste século, Linus Pauling adotou a causa do desarmamento
nuclear pouco depois das explosões atômicas em
Hiroxima e Nagasaki, que encerraram de forma trágica
e abrupta a II Guerra Mundial. Em 1946, a convite de Albert
Einstein, Pauling e outros sete cientistas formaram um comitê
de notáveis dedicado a alertar o mundo sobre o risco
dos testes nucleares e da disseminação desses
arsenais. Desde então, Pauling rodou o globo para divulgar
sua mensagem em palestras e conferências, inclusive
em Moscou (onde condenou publicamente as políticas
nucleares tanto dos americanos como dos soviéticos).
O anúncio do prêmio não poderia ter vindo
em melhor hora – a honraria a Pauling, figura central nos
esforços pelo desarmamento das potências atômicas,
foi anunciada apenas três dias antes do início
da crise dos mísseis de Cuba.
 |
| Wilkins, Watson e Crick: descoberta da estrutura do 'código da vida' deve revolucionar a ciência |
• o Prêmio Nobel de Medicina ao britânico Francis
Crick, de 46 anos, ao americano James Watson, de
34, e ao neozelandês Maurice Wilkins, de 45.
Foram premiados pela descoberta da estrutura da molécula
do ácido desoxirribonucléico (DNA), conhecida
como o "código da vida", que determina as características
de todas as espécies e seres. Pelo modelo desenhado
por Crick e seu colega Watson, parceiros de pesquisa na Universidade
de Cambridge, os pares complementares de moléculas
que compõem o DNA se organizam numa forma helicoidal.
A descoberta da "dupla hélice", como a estrutura ficou
conhecida, só foi possível graças ao
trabalho de Wilkins com raio X de moléculas, que forneceu
evidências cruciais para que a estrutura do DNA pudesse
ser desvendada. Por enquanto, ninguém é capaz
de prever ao certo que tipo de aplicação será
possível desenvolver a partir dessa descoberta. Os
especialistas, porém, enxergam um potencial extraordinário
nesse campo – acreditam que está aberto o caminho para
curar doenças e entender os mecanismos da origem da
vida.
 |
| Steinbeck: 'percepção social' |
• o Prêmio Nobel de Literatura ao americano John
Steinbeck, de 60 anos, autor de romances consagrados como
As Vinhas da Ira e Ratos e Homens, além
de ensaios e outros trabalhos relevantes de não-ficção.
Foi premiado por sua escrita "realista e criativa, combinando
um humor compassivo e uma aguda percepção social",
de acordo com o anúncio da comissão do Nobel.
O escritor jamais concluiu seus estudos universitários
– numa juventude aventureira, trabalhou colhendo frutas e
construindo rodovias. Começou a escrever motivado pela
Grande Depressão, que inspirou seu livro mais famoso,
As Vinhas da Ira, adaptado com estrondoso sucesso para
o cinema pelas mãos de John Ford, em 1940.
• o Prêmio Nobel de Química aos britânicos
Max Ferdinand Perutz, de 48 anos, e John Cowdery Kendrew,
de 45 anos. Foram premiados pelo estudo das estruturas atômicas
das proteínas através da técnica de cristalografia.
A equipe liderada por Perutz e Kendrew no Laboratório
Cavendish, em Cambridge, revelou a estrutura da mioglobina,
proteína que armazena oxigênio nas células
musculares.
• o Prêmio Nobel de Física ao soviético
Lev Davidovich Landau, de 54 anos, da Academia de Ciências
de Moscou. Foi premiado por suas teorias pioneiras a respeito
da condensação da matéria, em especial
do hélio na forma líquida, a 270 graus centígrados
negativos. É um dos grandes responsáveis pelos
avanços teóricos da Física neste século.
|