Veja na História Vídeo Áudio
  CRISE DOS MÍSSEIS
NESTA EDIÇÃO
SEÇÕES
Entrevista: Robert Kennedy
  Auto-retrato: Nelson Mandela
  Ponto de Vista: Leó Szilárd
  Veja Recomenda
  Gente
  Datas
ESPECIAL
A crise dos mísseis de Cuba
  A cronologia do episódio
  Fidel Castro, o falastrão
  Brasil participa dos diálogos
  Infográfico: ameaça na ilha
BRASIL
João Goulart e as eleições
Jânio Quadros é derrotado
Um plano para a educação
INTERNACIONAL
De Gaulle e o Referendo na França
Chineses e indianos em guerra
GERAL
Começa o Concílio Vaticano II
Pelé conquista outro Mundial
ARTES E ESPETÁCULOS
Elizabeth Taylor em 'Cleópatra'
Dissidente soviético lança livro
Vinícius de Moraes agora canta
VÍDEOS
Índice
Seções
VEJA, outubro de 1962
 
Meredith: xingado por outros estudantes, o primeiro negro na Universidade do Mississippi é escoltado pelos agentes


MATRICULADO:
o estudante James Meredith, primeiro aluno negro da história da Universidade do Mississippi. Rejeitado várias vezes pela instituição, que só aceita alunos brancos, Meredith, de 29 anos, foi à Justiça para garantir seu direito de participar das aulas. A vitória no tribunal não foi suficiente: o governador Ross Barnett, defensor da segregação racial na universidade, ordenou que sua entrada no campus fosse impedida. O presidente John Kennedy decidiu intervir, enviando tropas federais ao Mississippi para escoltar Meredith. Os protestos violentos e conflitos motivados pelo caso provocaram duas mortes na cidade onde se localiza o campus. Setenta e cinco pessoas ficaram feridas. Em discurso à nação, Kennedy defendeu uma resolução pacífica da crise. Meredith, que fez carreira militar por nove anos e freqüentou uma faculdade só para negros por mais dois, foi alvo das ofensas dos outros alunos a caminho de sua primeira aula – uma palestra sobre a história colonial dos EUA. Dia 1º, em Oxford.

 

A tempestade americana: prejuízos

MORRERAM: pelo menos 46 pessoas em decorrência da passagem do ciclone extratropical Freda pela costa oeste americana. A violenta tempestade, uma das maiores já registradas no país, feriu centenas de pessoas, derrubou milhares de árvores e deixou prejuízos estimados em até 280 milhões de dólares nos estados da Califórnia, Oregon e Washington. Os ventos chegaram a 270 quilômetros por hora. Os americanos chamaram a passagem do ciclone de "Grande Golpe". Até o momento, foi o maior desastre natural do ano.
Dia 12, nos Estados Unidos.

 

Mattei: petróleo e numerosos inimigos

• o político italiano Enrico Mattei, ex-deputado e chefão do setor de combustíveis do país, num misterioso acidente aéreo na Lombardia. Encarregado, depois da II Guerra, de desmontar a estatal de petróleo Agip, criada pelo regime fascista de Mussolini, Mattei transformou a companhia numa gigante dos combustíveis, sob o nome Ente Nazionale Idrocarburi (ENI). No comando da empresa, negociou acordos inéditos de exploração de petróleo com países como Tunísia, Marrocos, Irã e Egito, rompendo o domínio das maiores empresas do setor, como Esso e Shell. Também fechou um importante acordo com a União Soviética, declarando em seguida que o monopólio dos petroleiros americanos estava acabado. O avião de Mattei, um Morane-Saulnier MS-760, caiu durante uma tempestade, no trajeto entre a Sicília e Milão. Há rumores sobre uma possível ação criminosa – o avião já havia sido sabotado no passado. Como Mattei, figura polêmica dentro e fora do país, acumulava numerosos inimigos, a lista de suspeitos é extensa: inclui desde a CIA até o próprio serviço secreto italiano, o Sifar. Além do político, morreram o piloto, Irnerio Bertuzzi, e um jornalista americano, William McHale. O ministro da Defesa, Giulio Andreotti, assumiu a investigação do caso. Dia 27, aos 56 anos, em Bascapè, na província de Pavia.

 

Schirra: primeira misssão sem falhas

COMPLETOU: seis voltas ao redor da Terra o astronauta americano Walter Schirra Jr., de 29 anos, numa missão que durou 9 horas, 13 minutos e 11 segundos. A bordo da cápsula Sigma 7, lançada por um foguete Mercury 8, "Wally" Schirra tornou-se o quinto americano a viajar ao espaço. Foi a primeira missão sem falhas do projeto Mercury da Nasa, a agência espacial dos Estados Unidos. Schirra percorreu um total de 231.718 quilômetros e atingiu a velocidade máxima de 28.257 quilômetros por hora. Pela primeira vez na história, o astronauta transmitiu uma mensagem ao vivo do espaço através do rádio e da televisão. Dia 3, no Cabo Canaveral, na Flórida.

 

A luta pela independência argelina: centenas de milhares de mortos

ACEITA: na Organização das Nações Unidas (ONU) a Argélia, antiga colônia da França, independente desde o referendo de julho, que confirmou o apoio da população ao fim do regime colonial. Localizado no norte da África, banhado pelo Mar Mediterrâneo e espalhado sobre o deserto do Saara, o novo país surgiu depois de uma sangrenta guerra pela independência, que durou oito anos. Calcula-se que o conflito tenha matado cerca de 27.000 militares e 5.000 civis do lado francês. Entre os argelinos, a estimativa varia entre 500.000 mortos (conforme fontes francesas) e 1,5 milhão de mortos (de acordo com os argelinos). A Argélia tem população majoritariamente muçulmana. O árabe é o idioma mais falado. Dia 8, em Nova York.

 

FUNDADA: a Anistia Internacional, organização independente destinada a promover a defesa dos direitos humanos pelo mundo. Lançado pelo advogado britânico Peter Benenson no ano passado, como uma campanha especial para defender pessoas detidas por motivos políticos ou religiosos, a Anistia conquistou adeptos em vários países. Reunidos numa conferência realizada em Sijsele, nos arredores de Bruges, os ativistas decidiram formar uma organização permanente, que pretende conscientizar o público sobre o drama dos prisioneiros políticos e denunciar violações dos direitos humanos em todas as partes do planeta. Nos ultimos meses, novos grupos da Anistia Internacional foram criados em países como Estados Unidos, Austrália e Suécia. A organização, sediada em Londres, já está presente em sete nações. Dia 1º, na Bélgica.

 

'Der Spiegel': uma capa polêmica

INVADIDA: a redação da revista semanal Der Spiegel, a mais lida da Alemanha Ocidental, por 36 agentes da polícia. Integrantes do governo acusam a publicação de "traição". Na edição que chegou às bancas no dia 8, a revista dedicou sua reportagem de capa a um assunto controverso: a falta de preparo das Forças Armadas para proteger a população da ameaça comunista. Não foi o primeiro atrito entre a Spiegel e os militares. A revista já tinha denunciado um escândalo de corrupção envolvendo as Forças Armadas no ano passado. O ministro da Defesa, Franz Josef Straub, foi inocentado por falta de provas, mas tomou como inimigo o editor-chefe do semanário, Rudolf Augstein. Além de invadir a redação, a polícia revistou as casas dos jornalistas. Milhares de documentos foram apreendidos. Augstein e os editores Claus Jacobi e Johannes Engel foram presos. O ministro Straub nega ter ordenado a operação policial. O caso já é considerado o primeiro grande desafio às jovens instituições democráticas da país, ainda imaturas depois do pesadelo autoritário dos nazistas. Dia 26, em Hamburgo.

 

Os 'besouros' de Liverpool: George (19 anos), Ringo (22), John (22) e Paul (20)

LANÇADO: o compacto Love Me Do, dos Beatles, grupo recentemente contratado pelo selo Parlophone, da gravadora britânica EMI. A banda, formada na cidade de Liverpool, conquistou relativa fama numa temporada em Hamburgo, Alemanha Ocidental. Através do empresário Brian Epstein, o conjunto foi então apresentado ao famoso produtor George Martin, que decidiu contratar os jovens músicos (John Lennon, de 22 anos, Paul McCartney, de 20, George Harrison, de 19, e Ringo Starr, de 22). O compacto, gravado no mês passado, nos estúdios Abbey Road, em Londres, tem a canção P.S. I Love You no lado B. A direção da EMI promete investir tempo e dinheiro para fazer deslanchar a carreira do grupo. O produtor Martin enxerga nos rapazes um futuro promissor, apesar das habilidades limitadas como instrumentistas e do tolo nome do conjunto – um trocadilho que mistura as palavras "beetle" (besouro) e "beat" (batida). Dia 5, em Londres.

 

Cena da peça: sessões desgastantes

ESTREOU: o espetáculo teatral Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, do dramaturgo americano Edward Albee, na sala Billy Rose, na Broadway. A polêmica peça causou impacto entre crítica e público – e a repercussão da estréia transformou a montagem em um sucesso imediato. A trama, cheia de diálogos duros e corrosivos, é centrada num brutal conflito conjugal. Os atores saem de cena exauridos pelo tenso embate entre o casal de protagonistas. Os espectadores costumam deixar as sessões igualmente exaustos. A montagem, dirigida por Alan Schneider, é estrelada pela alemã Uta Hagen e pelos americanos Arthur Hill, Melinda Dillon e George Grizzard. Dia 13, em Nova York.

 

Pauling: campanha contra a bomba

CONCEDIDOS: o Prêmio Nobel da Paz ao cientista americano Linus Carl Pauling, de 61 anos, pela liderança na campanha internacional contra os testes nucleares de superfície. Pauling é o primeiro ganhador de Nobel a conquistar dois prêmios sozinho, em categorias diferentes – em 1954, recebeu o Nobel de Química. Um dos maiores pesquisadores deste século, Linus Pauling adotou a causa do desarmamento nuclear pouco depois das explosões atômicas em Hiroxima e Nagasaki, que encerraram de forma trágica e abrupta a II Guerra Mundial. Em 1946, a convite de Albert Einstein, Pauling e outros sete cientistas formaram um comitê de notáveis dedicado a alertar o mundo sobre o risco dos testes nucleares e da disseminação desses arsenais. Desde então, Pauling rodou o globo para divulgar sua mensagem em palestras e conferências, inclusive em Moscou (onde condenou publicamente as políticas nucleares tanto dos americanos como dos soviéticos). O anúncio do prêmio não poderia ter vindo em melhor hora – a honraria a Pauling, figura central nos esforços pelo desarmamento das potências atômicas, foi anunciada apenas três dias antes do início da crise dos mísseis de Cuba.

 

Wilkins, Watson e Crick: descoberta da estrutura do 'código da vida' deve revolucionar a ciência


• o Prêmio Nobel de Medicina ao britânico Francis Crick, de 46 anos, ao americano James Watson, de 34, e ao neozelandês Maurice Wilkins, de 45. Foram premiados pela descoberta da estrutura da molécula do ácido desoxirribonucléico (DNA), conhecida como o "código da vida", que determina as características de todas as espécies e seres. Pelo modelo desenhado por Crick e seu colega Watson, parceiros de pesquisa na Universidade de Cambridge, os pares complementares de moléculas que compõem o DNA se organizam numa forma helicoidal. A descoberta da "dupla hélice", como a estrutura ficou conhecida, só foi possível graças ao trabalho de Wilkins com raio X de moléculas, que forneceu evidências cruciais para que a estrutura do DNA pudesse ser desvendada. Por enquanto, ninguém é capaz de prever ao certo que tipo de aplicação será possível desenvolver a partir dessa descoberta. Os especialistas, porém, enxergam um potencial extraordinário nesse campo – acreditam que está aberto o caminho para curar doenças e entender os mecanismos da origem da vida.

 

Steinbeck: 'percepção social'

• o Prêmio Nobel de Literatura ao americano John Steinbeck, de 60 anos, autor de romances consagrados como As Vinhas da Ira e Ratos e Homens, além de ensaios e outros trabalhos relevantes de não-ficção. Foi premiado por sua escrita "realista e criativa, combinando um humor compassivo e uma aguda percepção social", de acordo com o anúncio da comissão do Nobel. O escritor jamais concluiu seus estudos universitários – numa juventude aventureira, trabalhou colhendo frutas e construindo rodovias. Começou a escrever motivado pela Grande Depressão, que inspirou seu livro mais famoso, As Vinhas da Ira, adaptado com estrondoso sucesso para o cinema pelas mãos de John Ford, em 1940.

 

• o Prêmio Nobel de Química aos britânicos Max Ferdinand Perutz, de 48 anos, e John Cowdery Kendrew, de 45 anos. Foram premiados pelo estudo das estruturas atômicas das proteínas através da técnica de cristalografia. A equipe liderada por Perutz e Kendrew no Laboratório Cavendish, em Cambridge, revelou a estrutura da mioglobina, proteína que armazena oxigênio nas células musculares.

 

• o Prêmio Nobel de Física ao soviético Lev Davidovich Landau, de 54 anos, da Academia de Ciências de Moscou. Foi premiado por suas teorias pioneiras a respeito da condensação da matéria, em especial do hélio na forma líquida, a 270 graus centígrados negativos. É um dos grandes responsáveis pelos avanços teóricos da Física neste século.

Versão para impressão Texto anterior
Próximo texto
Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados