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Artes e Espetáculos
VEJA, outubro de 1962
Sexo, escândalos, corrupção
e fama: a diva
Elizabeth
Taylor e os bastidores de 'Cleópatra',
o filme de
35 milhões de dólares que pode quebrar
a Fox
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| Atração incontrolável: as faíscas entre Liz e Burton surgiram logo de cara. Ela abandonou o marido, ele escapou da mulher |
Não foi desta vez que a saga colossal e bizarra de Cleópatra,
o filme mais caro da história, chegou ao tão aguardado
"the end". As filmagens já se arrastam há três
anos – e não se tem notícia de uma produção
mais caótica, perdulária e escandalosa em Hollywood.
Neste mês, o diretor Joseph L. Mankiewicz viajou até
Paris para exibir um esboço de montagem da fita ao novo chefão
dos estúdios Twentieth Century-Fox, Darryl Zanuck. O executivo
ficou de cabelo em pé. Nessa primeira versão, Cleópatra
é um filme confuso, irregular, monótono e excessivamente
longo (sem os cortes, são insuportáveis seis horas).
Zanuck é craque em consertar, na mesa de edição,
as trapalhadas de alguns cineastas, transformando fitas esdrúxulas
em filmes no mínimo toleráveis. Mas ele já
confessou a pessoas próximas que não sabe o que fazer
para dar um jeito em Cleópatra. Para Zanuck, há
apenas uma certeza: cedo ou tarde, por pior que seja, o épico
estrelado por Elizabeth Taylor e Richard Burton chegará às
telas, pois a Fox já não pode voltar atrás
num projeto com orçamento estimado em acachapantes 35 milhões
de dólares. Os estúdios rivais, contudo, não
estão tão certos disso – apostam que a concorrente
irá à falência antes de concluir a malfadada
aventura.
As últimas cenas de Cleópatra foram rodadas
em julho, em locações históricas no Egito.
Um mês antes, Liz Taylor enfim concluiu seu papel, nos estúdios
Cinecittà, em Roma. Mankiewicz chegou tão exausto
às últimas semanas da empreitada que tinha de ser
carregado numa maca até o set. Desde então, é
atormentado por outro desafio monumental: encontrar, entre centenas
de rolos e dezenas de horas de filme, os trechos necessários
para montar uma trama minimamente coerente. O problema (ou um deles)
é que as filmagens jamais foram guiadas por um roteiro definitivo.
O texto teve incontáveis e conflitantes versões. Em
certo momento, o próprio diretor passou a escrever as cenas
de madrugada para rodá-las na manhã seguinte. Não
adiantou: boa parte do material é inútil. A Fox já
calcula que será necessário retomar as filmagens mais
uma vez para cobrir as enormes lacunas da história. Na reunião
em Paris, Mankiewicz ainda tentou convencer Zanuck a dividir o épico
em dois filmes de três horas cada. O executivo detestou a
idéia. Para ele, o primeiro episódio não levaria
ninguém aos cinemas – afinal, Liz e Burton contracenam pouco
nessa parte. Ele também confessou outro temor: entre um capítulo
e outro, o casal poderia desistir de seu tórrido romance
clandestino fora das telas, talvez o único atrativo que ainda
salve o filme nas bilheterias. Até o fechamento desta edição,
a notícia em Hollywood era de que Liz e Burton ainda estavam
juntos, apesar dos numerosos atritos, discussões e bebedeiras
(de ambos).
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| Os cenários faraônicos: dinheiro no lixo |
Contratos nababescos - O comentado namoro entre os protagonistas
da película pode até atiçar a curiosidade do
público e amenizar o desastre financeiro de Cleópatra quando o filme enfim chegar aos cinemas. Mas a verdade é
que o caso amoroso entre a inglesa Taylor, de 30 anos, em seu terceiro
casamento e mãe de três filhos, e o galês Burton,
de 36, também casado e pai de duas filhas, foi uma das razões
para o fiasco das filmagens. Desde o dia 22 de janeiro, quando se
encontraram pela primeira vez no estúdio italiano – Burton
de ressaca, Liz louca para cuidar dele –, a atração
entre os dois foi evidente para todos (inclusive para o marido da
atriz, o crooner Eddie Fisher, sempre junto dela no set).
O flerte tornou-se o grande assunto das colunas de fofocas nas revistas
e jornais americanos. Quando a coisa esquentou para valer, a produção
praticamente parou. Burton, que já era um sujeito movido
a elevados teores etílicos, passou a beber ainda mais para
afogar a culpa pelo adultério. Abatido, prometia voltar para
a mulher, Sybil, mas sempre acabava desistindo, hipnotizado pelos
olhos azul-violeta da inglesinha. Liz, por sua vez, repetia uma
mesma rotina: ignorava o marido para ficar com Burton e depois,
arrependida, implorava por uma reconciliação. Fontes
ligadas à produção dizem que ela chegou a tentar
o suicídio depois de uma briga. Recentemente, porém,
o casal parece ter superado seus remorsos. Ao notar que o namoro
fascinava e até divertia o público, o par problemático
assumiu de vez o relacionamento, abandonando os respectivos
cônjuges.
O desfecho não aliviou a situação do diretor
Mankiewicz. Os pombinhos famosos faziam intermináveis pausas
no almoço, aproveitavam longas noitadas e sumiam por vários
dias seguidos na tentativa de escapar dos paparazzi de Roma.
Mankiewicz mandou um bilhete à Fox em Hollywood: "Liz e Burton
não estão apenas interpretando Cleópatra
e Marco Antônio". Os executivos ficaram furiosos. A dupla
era, de fato, culpada por uma fatia generosa do rombo orçamentário
do filme. Mas a responsabilidade era também do próprio
estúdio, que aceitou oferecer contratos nababescos aos protagonistas
e perdeu o controle da produção. Elizabeth Taylor
pediu, meio de brincadeira, um pagamento inédito: um milhão
de dólares. Com o sucesso fabuloso de Gata em Teto de
Zinco Quente, ela estava no auge, e já recebia convites
demais. Para sua agradável surpresa, a Fox não disse
"não" – e se propôs a negociar. Liz acabou lucrando
ainda mais. Ficou assim: 750.000 dólares de cachê,
4.500 por semana para cobrir despesas pessoais e 50.000 a cada semana
de atraso nas filmagens (que deveriam durar apenas quatro meses).
A estrela exigiu ainda 10% da bilheteria, acomodações
suntuosas, a contratação do próprio marido
como assistente (por 150.000 dólares) e produção
no exterior ("para pagar menos imposto", disse).
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| O olhar fatal: Burton ficou de joelhos |
Foi o início de uma cascata de atrasos e desperdícios.
Primeiro, a Fox teve de esperar Liz concluir outro filme. Depois,
por causa dos Jogos Olímpicos de 1960, precisou desistir
de rodar em Roma, sede das competições. A saída
escolhida foi mudar a produção para o estúdio
Pinewood, na Inglaterra. Naquela época, o diretor de Cleópatra
ainda era Rouben Mamolian (o favorito da Fox, Alfred Hitchcock,
rejeitou o convite). Mamolian seria demitido meses depois, deixando
míseros dez minutos de cenas concluídas. Explica-se:
em Londres, Liz dividiu seu tempo entre uma luxuosa suíte
do Hotel Dorchester e o hospital – sofreu uma infecção
viral, contraiu meningite e, em março último, quase
morreu em função de uma pneumonia (uma traqueostomia
de emergência a salvou). Um mês depois, contando com
a compaixão da Academia por seu drama pessoal, levou o Oscar
de melhor atriz por Disque Butterfield 8. Com o prestígio
em alta, Liz avisou à Fox que gostaria de ver Cleópatra
entregue ao amigo Mankiewicz. O novo diretor imediatamente tirou
o projeto da Inglaterra (onde chove demais e não há,
evidentemente, paisagens egípcias ou romanas), descartou
os gigantescos cenários já construídos, jogou
fora os dez minutos rodados por Mamolian e rasgou o roteiro anterior.
A Fox já havia torrado 7 milhões de dólares
e Cleópatra ainda não tinha uma cena sequer.
Culto ao célebre - As coisas melhoraram pouco no
Cinecittà, onde o affair entre Taylor e Burton não
era o único escândalo do set. A desorganização
dos americanos era tão grande que os funcionários
italianos passavam meses recebendo salários sem ter o que
fazer no estúdio. Os figurantes mais malandros apareciam
no set, batiam cartão, saíam para fazer bicos na cidade
e voltavam à noite, na hora de receber o pagamento do dia.
Quando em Roma, faça como os romanos: os americanos também
aplicavam seus golpes, cobrando faturas duplicadas, superfaturando
pedidos e desviando rios de dinheiro dos cofres da Fox. A obra transformou-se
num pesadelo para o estúdio. Em 1958, ao idealizar o projeto,
a companhia pretendia usar Cleópatra justamente para
recuperar suas finanças cambaleantes. O plano inicial era
aproveitar um roteiro antigo, rodar tudo no próprio estúdio
de Hollywood, concluir o trabalho em menos de um mês e gastar
no máximo um milhão de dólares. A Fox queria
usar uma atriz da casa, como Susan Hayward ou Joanne Woodward, ou
uma opção relativamente barata, como Kim Novak ou
as italianas Sophia Loren e Gina Lollobrigida. O produtor Walter
Wanger, entretanto, bateu o pé para tirar Liz Taylor
da Metro-Goldwyn-Mayer, apesar da reputação negativa
da estrela nos bastidores de Hollywood.
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| Demitida: Marilyn em seu último filme |
Liz, diva impaciente e tempestuosa, tumultua quase todos os filmes
de que participa – às vezes por causa do temperamento, outras
em função da saúde frágil, resultado
de um perigoso cotidiano regado a álcool e remédios.
Também é famosa pelos ataques violentos de gulodice,
em que come até não mais poder, seguidos por regimes
de quase inanição, pelos quais acaba invariavelmente
no hospital. O magnetismo da atriz na tela é inegável,
mas até que ponto Hollywood é capaz de chegar para
alimentar a febre hedonista de Liz e do resto de sua constelação?
A indústria cinematográfica americana sempre cobriu
seus grandes expoentes de fortuna e adulação, mas
os disparates de Cleópatra mostram que, cada vez mais,
o culto ao célebre derruba todos os limites. Curiosamente,
o símbolo máximo dessa era de excessos em Hollywood
foi vítima indireta dos caprichos de Liz. Em junho, Marilyn
Monroe foi demitida de seu último filme, Alguém
Tem de Ceder, justamente por causa do buraco provocado por Cleópatra
nas contas da Fox. Marilyn, que também atrasou seu filme
em função de problemas de saúde e sumiços
jamais explicados, acabou sendo recontratada por exigência
de Dean Martin, seu par na comédia romântica. Deveria
retomar as filmagens neste mês. Foi encontrada morta no início
de agosto – conforme a autópsia, foi um "provável
suicídio" provocado por ingestão excessiva de barbitúricos.
O filme, que ficou incompleto, jamais será visto (numa das
cenas, Marilyn tornou-se a primeira grande estrela de Hollywood
a tomar um banho de piscina completamente nua diante das câmeras).
Seu cachê seria de 100.000 dólares. Numa entrevista
publicada pela revista Life cinco dias antes de sua morte,
Marilyn, ícone máximo do cinema na década passada,
dizia, ao comentar a súbita demissão, que a "fama
é tênue": "Ela sempre acaba indo embora, então
adeus a ela".
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