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  CRISE DOS MÍSSEIS
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VEJA, outubro de 1962
No retorno ao país depois da inexplicável renúncia, Jânio
Quadros perde a primeira eleição de sua vida. O inimigo Adhemar de
Barros derrubou o mito da invencibilidade do ex-presidente
 
Imprevisível: para onde vai Jânio?

A ressaca durou catorze meses cheios de atribulações, mas o eleitor ainda não esqueceu a patética renúncia de Jânio da Silva Quadros, em agosto do ano passado. O ex-presidente regressou ao país recentemente, depois de um breve exílio em Londres. Logo de cara, lançou sua candidatura ao governo de São Paulo. Como se nada tivesse acontecido, Jânio reivindicava outra vez a confiança dos paulistas – apesar de jamais ter esclarecido quais foram as "forças terríveis" que motivaram sua renúncia. A precipitação do ex-presidente em retornar ao cenário político nacional custou muito caro: na eleição deste mês, Jânio Quadros amargou a primeira derrota eleitoral de sua meteórica e controversa trajetória política. Com o fim do mito de sua invencibilidade nas urnas, o homem da vassoura agora é um político ordinário, que carrega escândalos e fiascos nas costas, como qualquer outro homem público. Nada mais lastimável para um sujeito que, há apenas três anos, aniquilava os rivais apresentando-se como exemplo de conduta ilibada e virtude moral. Jânio, todos já sabem, tem repertório vasto de defeitos, o que é natural. A dúvida é se conseguirá recuperar a reputação de papa-votos e campeão de popularidade numa futura eleição.

Afastado do Partido Democrata Cristão (PDC), sua antiga legenda, Jânio concorreu ao governo paulista apoiado pela aliança entre o Partido Trabalhista Nacional (PTN) e pelo Movimento Trabalhista Renovador (MTR). Tinha pela frente seu principal adversário político, Adhemar de Barros, do Partido Social Progressista (PSP), a quem já derrotara numa outra eleição estadual, em 1954 (e na própria eleição presidencial de 1960, em que Adhemar foi o terceiro colocado, com 20% dos votos válidos). A campanha foi quente. O ex-presidente tentou mobilizar seu eleitorado fiel e reunir as forças políticas que costumavam dar suporte às candidaturas passadas. As bandeiras da moralidade, do combate à corrupção e da eficácia administrativa foram novamente desfraldadas. Já Adhemar despontou na campanha ao se credenciar como o candidato da certeza e da segurança, em oposição ao mercurial Jânio e ao atrapalhado governo do presidente João Goulart. Deu certo. Adhemar ganhou o pleito com 1.249.414 votos (37,8% do total); Jânio ficou com 1.125.941 votos (34,2%). Os sonhos do ex-presidente de usar São Paulo como trampolim para uma volta espetacular a Brasília foram adiados – talvez até mesmo extintos. Com a derrota inédita e o currículo eleitoral enfim maculado, Jânio agora terá de rever todos os seus planos e táticas.

Vingado pela saborosa vitória no recente pleito, o governador eleito elogiou o "amadurecimento democrático" do eleitorado e a "politização do nosso povo". E, claro, ironizou seu velho inimigo: "Não sei o que ele fará agora. Afinal, Jânio é um homem de resoluções imprevisíveis", provocou Adhemar. O político paulista também desmentiu ter costurado um acordo de bastidores com Juscelino Kubitschek para apoiar o ex-presidente na campanha eleitoral de 1965. "Não é verdade. Juscelino sabia que eu estava defendendo a democracia, a livre empresa, a liberdade. Espontaneamente, sem qualquer compensação, reforçou minha candidatura com o prestígio de seu apoio." O próprio Adhemar já é cotado para a corrida presidencial marcada para daqui a três anos. Ele desconversa: "O problema de 1965 ainda está muito longe, tão longe que não posso nem fazer idéia. Antes disso temos muitos problemas pela frente". Caso decida levar adiante uma nova candidatura, Adhemar de Barros deve estar pronto para a revanche na pendenga com Jânio Quadros. O revés no pleito deste mês foi duríssimo e extremamente significativo para o ex-presidente. Recomenda-se, porém, jamais descartar seu potencial eleitoral. Entre 1947 e 1960, Jânio – que nunca foi rico, simpático ou poderoso como os concorrentes – passou de vereador suplente na câmara paulistana a prefeito, deputado, governador e presidente mais votado da história do país, com 5,6 milhões de votos, dois milhões a mais que o segundo colocado. Se fez tudo isso em treze anos, como prever o que é capaz de fazer em mais três?

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