|
Auto-retrato
VEJA, outubro de 1962
 |
| Na luta: com a fillha e a mulher, Winnie |
Carismático e incansável, o advogado Nelson Rolihlahla
Mandela, de 44 anos, é um dos líderes da resistência
dos negros ao brutal regime de segregação racial da
África do Sul, o apartheid. Nascido numa aldeia na região
de Transkei, foi para Johanesburgo pensando em concluir os estudos
e abrir um escritório de advocacia. Na cidade mais populosa
do país, o estudante promissor mergulhou na política
e tornou-se integrante do Congresso Nacional Africano. Naquele tempo,
o grupo era minúsculo e pouco influente. Mandela ajudou a
transformá-lo num movimento de massa, capaz de assustar o
governo com sua campanha de desobediência civil e forte poder
de mobilização popular. A estratégia era pacífica
até março de 1960, quando a polícia abriu fogo
durante um protesto e matou 67 negros, episódio conhecido
como o massacre de Sharpeville. Banido pelo governo, o Congresso
Nacional Africano entrou na clandestinidade e decidiu organizar
um braço armado, a Lança da Nação. De
acordo com as autoridades sul-africanas, Mandela é um dos
mentores do grupo guerrilheiro. Capturado em agosto, depois de um
longo período de fugas e disfarces mirabolantes, Nelson Mandela
começou a ser julgado neste mês na Corte da Velha Sinagoga,
em Pretória. Como não tem provas do envolvimento de
Mandela com a luta armada, o regime do apartheid o acusa de dois
crimes: incitar uma greve ilegal e sair da África do Sul
sem passaporte. Ele fugiu do país em janeiro para estabelecer
contatos políticos – e, conforme se comenta no país,
para aprender estratégias de guerrilha nas nações
vizinhas. Antes de ouvir o veredicto, previsto para o início
de novembro, Mandela falou a VEJA.
* * *
Por que o senhor contesta a legitimidade do tribunal que deverá
julgá-lo?
Em primeiro lugar, porque temo que o julgamento não será
justo. Em segundo, porque não me considero legalmente ou
moralmente obrigado a cumprir as leis escritas por um parlamento
em que não sou representado. Num julgamento político
como este, que envolve um confronto entre as aspirações
do povo africano e as aspirações dos brancos, os tribunais
nunca são justos. Os brancos são parte interessada
no caso. Um Judiciário totalmente controlado pelos brancos
e que defende as leis escritas por um parlamento branco não
pode ser considerado um tribunal imparcial – não quando um
africano está no banco dos réus. A Declaração
dos Direitos Humanos diz que todos os homens são iguais perante
a lei. Muitos brancos renomados, incluindo governantes e magistrados,
já disseram que essa declaração é válida
em nosso país. Mas a verdade é outra: aqui não
existe igualdade.
É correto afirmar que o senhor considera os brancos seus
inimigos?
De forma alguma. Gostaria de deixar claro que não sou
racista e que detesto o racismo. É uma coisa bárbara,
tanto entre negros como entre brancos. Odeio a prática da
discriminação racial em todas as suas formas. Odeio
a doutrinação sistemática das crianças
com o preconceito de cor. E odeio a arrogância que proclama
que todas as coisas boas da vida devem ser direito exclusivo de
uma minoria, reduzindo a maioria a uma posição de
subserviência e inferioridade. A maioria esmagadora da humanidade
pensa como eu. Nada que essa corte faça mudará esse
ódio. Lutei a vida toda contra o racismo. Vou continuar lutando
até o fim dos meus dias.
Alguns magistrados brancos reconhecem o direito dos negros de
reivindicar o fim da segregação. Como o senhor recebe
esse apoio?
A existência de valores democráticos genuínos
entre alguns brancos do Judiciário é muito bem-vinda.
Mas não me iludo com esse fato, por mais saudável
que ele possa parecer. São exceções dentro
do grotesco sistema judicial construído neste país.
De qualquer forma, esses casos são uma prova de que até
entre os brancos há homens honestos e com senso de justiça,
que se revoltam contra a crueldade de seus próprios irmãos
brancos contra o nosso povo. Infelizmente, esses brancos honestos
e corretos são poucos – e eles fracassaram na tentativa de
convencer seu povo de que a supremacia branca só leva ao
desastre.
Quando o senhor começou a refletir sobre as diferenças
entre brancos e negros em seu país?
Muitos anos atrás, quando ainda era menino, ouvia muitas
histórias dos anciãos da tribo, que falavam sobre
os velhos tempos da minha aldeia, antes da chegada do homem branco.
Vivíamos em paz e o país era nosso. Os anciãos
falavam das guerras travadas pelos nossos ancestrais para defender
sua terra, para orgulho e glória de toda a nação
africana. Foi quando prometi que, entre os muitos tesouros que encontraria
na vida, tentaria conquistar a oportunidade de servir meu povo e
prestar minha humilde contribuição às lutas
de liberdade. Quando cheguei à idade adulta, tornei-me integrante
do Congresso Nacional Africano, que acredita que todos os sul-africanos
têm direito a uma vida livre, baseada na plena igualdade de
direitos e oportunidades em todos os campos. Isso foi em 1944. Desde
então, sigo e apóio essa política. Acredito
nessa causa há dezoito anos.
O senhor já confessou ter ficado dividido entre a formação
de advogado e o papel de ativista. Por quê?
Como advogado, meu código de conduta fala em respeitar
e cumprir as leis. Recentemente, contudo, participei de uma campanha
em que o objetivo final era organizar uma greve contra o governo
. Esse tipo de conflito não é raro na África
do Sul. A vida de qualquer africano racional provoca um choque entre
sua consciência e a lei. Esse conflito nasce em todos os homens
que pensam e sentem profundamente. É impossível não
contrariar a lei e sofrer as conseqüências disso. Para
nós, a lei é imoral, injusta e intolerável.
Nossa consciência diz que devemos protestar contra ela e que
devemos tentar mudá-la. Tentamos evitar quebrar a lei sempre
que isso é possível – tudo para evitar um choque entre
as autoridades e o nosso povo. Ainda assim, temos de defender o
que é certo. Temos de trabalhar para satisfazer nossa consciência.
Quais fatos despertaram essa consciência? Quando o senhor
resolveu cruzar o limite da legalidade?
Bem, foram vários acontecimentos... Em dezembro de 1952,
por exemplo, fiquei proibido de trabalhar fora de Johanesburgo.
Depois, o Ministério da Justiça ordenou que eu renunciasse
ao Congresso Nacional Africano. Em fevereiro de 1956, as proibições
foram renovadas. Logo me vi isolado dos meus companheiros, das pessoas
que pensam como eu. Era perseguido por policiais em todos os lugares
que visitava. Em resumo, era tratado como criminoso – um criminoso
sem condenação. E nada disso foi por causa do que
tinha feito, mas sim por causa do que eu pensava. É surpresa
para alguém que viver nessas condições transforma
um homem num fora-da-lei? Não foi fácil ficar separado
da minha mulher e dos meus filhos e levar a vida de um homem caçado
pela polícia, sempre sob a ameaça de prisão.
Essa vida é muito mais difícil do que cumprir uma
pena na cadeia. Às vezes chega um momento em que um homem
só pode viver como fora-da-lei, pois o governo já
decretou que ele é um fora-da-lei. Fui levado a essa situação
e não me arrependo das decisões que tomei. Outras
pessoas serão levadas ao mesmo caminho pelas mesmas forças.
Há informações de que o senhor é
ligado ao braço armado do Congresso Nacional Africano, responsável
por ações de guerrilha e sabotagem contra o governo.
O senhor acha que essa violência é justificável?
Digo a você o seguinte: nos 50 anos de existência
do Congresso Nacional Africano, fizemos de tudo para chamar a atenção
dos governos para nossas reivindicações. Sempre buscamos
soluções pacíficas para todos os problemas
do país. Mas o comportamento correto dos líderes da
maioria sul-africana não encontrou resposta apropriada no
governo sul-africano. O padrão de comportamento do governo
em relação ao meu povo não foi o que se espera
em qualquer relação séria entre povos civilizados.
Diante da completa omissão do governo em examinar nossas
propostas, o que poderíamos fazer? Deveríamos manter
nossas crenças e lutar pelo que achamos certo, quebrando
as leis? Esse é o dilema que enfrentamos. Nós, do
Conselho de Ação, e particularmente eu, como seu secretário,
seguimos nossa consciência. A violência do governo só
produz contra-violência. No fim, a disputa pode se resolvida
pela força, infelizmente. E já existem sinais de que
o povo, meu povo, está adotando atos deliberados de violência
contra o governo, de forma a convencer o governo no único
idioma que ele parece entender.
Neste julgamento, o senhor é acusado de incitar a violência
através de uma greve realizada no ano passado. Como responde
à acusação?
Nossa campanha era destinada a manter as pessoas em suas casas
como um último recurso, se o diálogo não ocorresse,
se o governo não tentasse cumprir nossas exigências.
Não havia intenção de que nossos protestos
fossem além disso. Queríamos uma manifestação
pacífica, em que as pessoas ficassem em suas casas, sem choques
ou conflitos, como num país civilizado. Apesar disso, foi
criada uma atmosfera de guerra civil e revolução.
E criada de forma deliberada pelo governo, que pretendia nos apresentar
como revolucionários perigosos e selvagens, em busca da desordem
e do caos. O governo agiu como nenhum governo civilizado agiria
diante de uma manifestação disciplinada e democrática:
ordenou a mobilização das Forças Armadas para
tentar aterrorizar nosso protesto pacífico, prendeu pessoas
ativas na política africana, aprovou leis especiais para
mantê-las detidas. Naquele tempo, os jornais disseram que
a greve foi um fracasso. Digo o contrário. Nossa campanha
foi um enorme sucesso. Se não ganhou a proporção
que esperávamos, foi por causa da truculência do governo.
A outra acusação em julgamento é inusitada:
o senhor pode ser encarcerado por sair do país sem um passaporte...
Exatamente. Jamais solicitei um passaporte, pois sabia muito
bem que não ganharia o documento. Afinal, o governo negou
a permissão para a saída de dezenas de intelectuais,
artistas, atletas e religiosos africanos nos últimos catorze
anos. Portanto, não queria perder meu tempo pedindo um passaporte.
Mas recebi um convite para participar de uma conferência no
exterior e decidi que era preciso comparecer. Achava que era meu
dever viajar pela África e entrar em contato com os líderes
do continente.
Como o senhor se sentiu ao sair do país?
A viagem teve impacto fortíssimo. Pela primeira vez na
vida, fui um homem livre – livre da opressão, da estupidez
do apartheid, da perseguição da polícia, das
humilhações... Onde quer que estivesse, era tratado
como um ser humano. Em todos os países fomos acolhidos de
forma extremamente hospitaleira, e recebemos sólido apoio
à nossa causa.
Depois de experimentar a liberdade, como é enfrentar
a ameaça do encarceramento?
Estou preparado para cumprir qualquer tipo de pena, apesar de
saber como é desesperadora a situação dos africanos
nas prisões deste país. Já estive nessas prisões
e sei como é repugnante a discriminação contra
os africanos atrás das grades. De qualquer forma, nada será
capaz de me afastar do caminho que escolhi. Para um homem, a liberdade
em sua própria terra é o auge de suas ambições.
O ódio às condições a que meu povo é
submetido fora das prisões é muito mais poderoso do
que o medo das terríveis situações que poderei
enfrentar. Se for condenado, tenha certeza: quando a sentença
for concluída, retomarei, da maneira que for possível,
a luta pelo fim das injustiças até que elas estejam
abolidas para sempre.
O que o senhor espera para seu futuro? E como vê o futuro
de seu país?
Se o governo continuar se esforçando para manter o povo
africano numa posição de subordinação
perpétua, a África do Sul fracassará. O país
está fora de compasso com o resto do mundo civilizado. Nos
outros países africanos, vi brancos e negros se misturando
de forma pacífica e alegre em hotéis e cinemas, usando
o mesmo transporte público e morando nos mesmos bairros.
Voltei para casa para relatar essas experiências aos meus
colegas. Cumpri meu dever com o povo e com a África do Sul.
Tenho certeza que o futuro mostrará que sou inocente e que
os criminosos que deveriam estar neste tribunal são os homens
do governo.
|