Especial:
PERFIL VEJA, outubro de 1929 Antes
atacado e ridicularizado por Wall Street, o teórico Roger Babson,
que anunciou com dois meses de antecedência a ocorrência do
crash, é o novo guru financeiro americano
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| Agora eles acreditam na quebra: investidor falido coloca
seu Cadillac Fleetwood à venda por 100 dólares em Wall Street |
Via de regra, depois de tragédias ou catástrofes,
surgem finórios que garantem ter anunciado a calamidade com semanas ou
até meses de antecedência – são os chamados profetas do acontecido.
Estes, porém, não têm encontrando muito espaço para
apregoar seus supostos feitos no caso do crash da Bolsa de Nova York. Tudo
porque, há pouco menos de dois meses, diante de uma platéia de peso,
rodeado por lentes e microfones, um homem já havia monopolizado as atenções
ao antecipar, com todas as letras, o colapso que se avizinhava de Wall Street.
O teórico econômico Roger Babson, na ocasião ridicularizado
pela maioria de seus pares, é agora, consumado o sinistro, visto e ouvido
como autoridade inconteste pela população americana, que lamenta
apenas não ter dado mais atenção quando ele, em 5 de setembro,
disparou sua previsão: "Mais cedo ou mais tarde, o crash virá,
e poderá ser tremendo".
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| Sábio de Wellesley: 'notória inexatidão' |
Era a Conferência Anual das Empresas Nacionais, em pleno mês
em que as médias do jornal The New York Times disparavam aos céus.
O discurso sombrio de Babson teve, a bem da verdade, uma pequena reação
no mercado – os índices do Times caíram 10 pontos e o volume
de vendas foi alto (5.565.280 ações negociadas). O solavanco daquela
quinta-feira foi apelidado de "Baixa de Babson". O mercado, contudo,
recuperou-se na sexta e no sábado, e a patrulha de Wall Street, triunfante,
tratou de rebater e até ironizar as palavras do teórico. A corretora
Hornblower and Weeks emitiu a seguinte declaração: "Não
vamos começar a vender ações descontroladamente por causa
da previsão injustificada de um estatístico". O Barron’s,
semanário econômico publicado pela Dow Jones, garantiu que o "sábio
de Wellesley" não deveria ser levado a sério, até por
conta da "notória inexatidão" de suas previsões
anteriores. De fato, Babson, 54 anos, formado pelo Instituto de Tecnologia de
Massachusetts (MIT, na sigla em inglês) e sócio-fundador da Organização
Estatística Babson – empresa que fornece boletins sobre ações
a bancos e investidores –, vinha tropeçando ao lustrar sua bola de cristal
ultimamente. Polêmico, é autor de um trabalho que gira em torno
de uma premissa muito discutível: o Babsonchart, índice econômico
que criou em conjunto com o professor de engenharia George F. Swain. Fã
de Isaac Newton, Babson acredita que as leis de ação e reação
apresentadas pelo cientista podem explicar também o ciclo econômico,
e criou um indicador, de acordo com seu conceito, supostamente capaz de prever
o futuro na economia. Até agora momento, não havia tido grande sucesso.
Mas seu instrumento o permitiu não apenas anunciar, em setembro, o iminente
crash como também, no dia 22 de outubro – logo, dois dias antes
da quinta-feira negra –, aconselhar os investidores a venderem suas ações.
"Comprem ouro!", exortou. Depois desses arrebatadores acertos, o controverso
teórico começa a ser tratado como um guru econômico, e os
cursos do Instituto Babson – escola de administração e negócios
fundada por ele em 1919 – recebem inúmeros pedidos de matrícula.
Entretanto, para o bem de toda a sociedade, seus novos discípulos precisam
torcer para que outra das previsões de Babson, sentenciada também
na Conferência Anual das Empresas Nacionais, seja um equívoco estrondoso.
Vaticinou o professor: "As fábricas fecharão, os empregados
serão demitidos, o círculo vicioso entrará em plena ação
e o resultado será uma séria depressão econômica". |