| Especial:
PERFIL
Oráculo do apocalipse
Antes atacado e ridicularizado por Wall Street, o teórico Roger Babson,
que anunciou com dois meses de antecedência a ocorrência do crash,
é o novo guru financeiro americano Via de regra, depois de
tragédias ou catástrofes, surgem finórios que garantem ter
anunciado a calamidade com semanas ou até meses de antecedência –
são os chamados profetas do acontecido. Estes, porém, não
têm encontrando muito espaço para apregoar seus supostos feitos no
caso do crash da Bolsa de Nova York. Tudo porque, há pouco menos
de dois meses, diante de uma platéia de peso, rodeado por lentes e microfones,
um homem já havia monopolizado as atenções ao antecipar,
com todas as letras, o colapso que se avizinhava de Wall Street. O teórico
econômico Roger Babson, na ocasião ridicularizado pela maioria de
seus pares, é agora, consumado o sinistro, visto e ouvido como autoridade
inconteste pela população americana, que lamenta apenas não
ter dado mais atenção quando ele, em 5 de setembro, disparou sua
previsão: "Mais cedo ou mais tarde, o crash virá, e
poderá ser tremendo". Era a Conferência Anual das Empresas
Nacionais, em pleno mês em que as médias do jornal The New York
Times disparavam aos céus. O discurso sombrio de Babson teve, a bem
da verdade, uma pequena reação no mercado – os índices do
Times caíram 10 pontos e o volume de vendas foi alto (5.565.280
ações negociadas). O solavanco daquela quinta-feira foi apelidado
de "Baixa de Babson". O mercado, contudo, recuperou-se na sexta e no
sábado, e a patrulha de Wall Street, triunfante, tratou de rebater e até
ironizar as palavras do teórico. A corretora Hornblower and Weeks emitiu
a seguinte declaração: "Não vamos começar a vender
ações descontroladamente por causa da previsão injustificada
de um estatístico". O Barron’s, semanário econômico
publicado pela Dow Jones, garantiu que o "sábio de Wellesley"
não deveria ser levado a sério, até por conta da "notória
inexatidão" de suas previsões anteriores. De fato, Babson,
54 anos, formado pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla
em inglês) e sócio-fundador da Organização Estatística
Babson – empresa que fornece boletins sobre ações a bancos e investidores
–, vinha tropeçando ao lustrar sua bola de cristal ultimamente. Polêmico,
é autor de um trabalho que gira em torno de uma premissa muito discutível:
o Babsonchart, índice econômico que criou em conjunto com
o professor de engenharia George F. Swain. Fã de Isaac Newton, Babson acredita
que as leis de ação e reação apresentadas pelo cientista
podem explicar também o ciclo econômico, e criou um indicador, de
acordo com seu conceito, supostamente capaz de prever o futuro na economia. Até
agora momento, não havia tido grande sucesso. Mas seu instrumento o permitiu
não apenas anunciar, em setembro, o iminente crash como também,
no dia 22 de outubro – logo, dois dias antes da quinta-feira negra –, aconselhar
os investidores a venderem suas ações. "Comprem ouro!",
exortou. Depois desses arrebatadores acertos, o controverso teórico
começa a ser tratado como um guru econômico, e os cursos do Instituto
Babson – escola de administração e negócios fundada por ele
em 1919 – recebem inúmeros pedidos de matrícula. Entretanto, para
o bem de toda a sociedade, seus novos discípulos precisam torcer para que
outra das previsões de Babson, sentenciada também na Conferência
Anual das Empresas Nacionais, seja um equívoco estrondoso. Vaticinou o
professor: "As fábricas fecharão, os empregados serão
demitidos, o círculo vicioso entrará em plena ação
e o resultado será uma séria depressão econômica". |