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Esporte
VEJA, outubro de 1929
Rivalidade entre europeus e sul-americanos provoca
indefinições nos preparativos para o primeiro campeonato mundial de
futebol. O presidente da Fifa, Jules Rimet, está preocupado
Os favoritos vão jogar em casa: a seleção uruguaia na vitória por 4 a 1 contra a Alemanha, na Olimpíada do ano passado

 

Sonho dos dirigentes da Federação Internacional de Futebol, a Fifa, desde sua fundação, em 1904, o primeiro torneio quadrienal profissional do esporte bretão, marcado para o verão do próximo ano, ainda está longe de ser uma unanimidade. Desde que, há seis meses, no 18º Congresso da Fifa, em Barcelona, os delegados decidiram que Montevidéu será o palco do torneio, a ser disputado entre julho e agosto de 1930, uma queda-de-braço entre europeus e sul-americanos tem tirado o sono do presidente da entidade, o advogado francês Jules Rimet. Ressentidos com a escolha do Uruguai como sede, em detrimento da candidatura italiana, endossada pelo ditador fascista Benito Mussolini, os representantes do Velho Continente ensaiam um boicote à competição. Até agora, nenhuma das 17 nações européias filiadas à Fifa confirmou sua presença no torneio, e fontes ligadas às federações garantem que elas não o farão – as inscrições terminam em abril do próximo ano.

O francês Jules Rimet: perdendo o sono

Os europeus reclamam do custo e da distância da viagem até a América do Sul – considerada por alguns como "impraticável" –, da dificuldade de convencimento dos clubes de liberar seus profissionais para a jornada e de uma suposta falta de estrutura do anfitrião da festa. Na verdade, na proposta apresentada à Fifa pelo delegado uruguaio Hector Rivadavia Gomes, o governo meridional garantia o pagamento de todas as despesas de viagem e de acomodação para o torneio – o Mundial será uma das principais atrações nas festividades do centenário da independência uruguaia. Além disso, os vizinhos do Sul asseguraram à Fifa a construção de um moderno estádio para 80.000 pessoas, a um custo de 1.500.000 dólares – o projeto do arquiteto Juan Scasso já foi aprovado, o terreno de 450.000 metros quadrados já está sendo preparado e as obras devem começar a qualquer momento. Ou seja, há muito mais em jogo do que a questão meramente logística, ainda que esse fator seja reconhecidamente delicado.

Disputas políticas à parte, fato é que, dentro da cancha, o Uruguai já larga com uma ampla vantagem contra os adversários – constatação inegável que pode estar também ajudando a espantar os europeus. Bicampeã dos Jogos Olímpicos em 1924 e 1928, a Celeste, liderada pelo temível atacante Héctor Scarone, do clube Nacional, chega credenciada como favorita absoluta ao título, aberto a amadores e profissionais. Diante de uma possível negativa dos europeus da Fifa, a Federação Uruguaia enviou um convite de participação à Associação de Futebol da Inglaterra, que não é filiada à Fifa e conta com a maioria de atletas profissionais em suas fileiras. Especula-se na terra do rei Jorge V, porém, que a liberação dos jogadores prejudicaria o andamento do campeonato nacional, e que por isso também os inventores do esporte ficarão de fora.

Friedenreich, do Paulistano: esperança

Sorte de Argentina, prata nas Olimpíadas de 1928, em Amsterdã, e do Brasil, que chegará também com uma esquadra poderosa a Montevidéu. Afinal, não são muitos os países que poderão chamar para seu escrete craques do quilate de Friedenreich (do Paulistano), Araken Patuska e Feitiço (Santos), Amílcar e Ministrinho (Palestra Itália), Grané (Corinthians), Nilo (Botafogo), Preguinho (Fluminense), Fausto (Vasco) e Joel (América). O selecionado do Brasil não participará do Campeonato Sul-Americano, a ser disputado na Argentina, de 1º a 17 de novembro próximo – ainda em protesto à lamentável batalha generalizada contra jogadores e torcida argentinos no campo de Barracas, em Buenos Aires, na infame partida que acabou em 2 a 2 no Sul-Americano de 1925. Já para o Campeonato Mundial, o Brasil confirmou sua presença, e disputará o cobiçado troféu encomendado por Jules Rimet a seu compatriota Abel LeFleur, do Museu de Belas Artes de Rodez, a ser apresentado em abril do ano que vem. Se depender da capacidade de organização de seus mandatários, os brasileiros dificilmente conquistarão a taça: a menos de um ano da pugna, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) ainda não começou a preparação para a competição.


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Preparativos para o Mundial
Campeões olímpicos, os uruguaios aprontam recepção dos selecionados estrangeiros para a primeira Copa do Mundo.
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