Artes
e espetáculos | Exposição VEJA, outubro
de 1929
Turbulência econômica ainda não afeta a inauguração do novo Museu de Arte
Moderna de Nova York, o MoMA, que abre suas portas em Manhattan na primeira
semana de novembro
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| As luzes do modernismo: a tela 'Noite Estrelada', do
holandês Van Gogh, artista que será destaque da inauguração
do museu | Assim que as
carregadas brumas da tormenta financeira cobriram os telhados de Wall Street,
dez entre dez membros da alta-roda local procuraram madame Abby Aldrich Rockefeller
para saber se a crise na Bolsa afetaria o generoso investimento familiar no projeto
do futuro Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA, na sigla em inglês).
E, a cada contato, a esposa de John D. Rockefeller Jr. não se furtava a
um sorriso irônico. Afinal, desde que, no ano passado, em parceria com suas
amigas Lillie P. Bliss e Mary Queen Sullivan, Abby teve a idéia de montar
um museu dedicado à arte moderna na cosmopolita cidade americana, ela jamais
pôde contar com o apoio, moral ou financeiro, do marido, para quem a arte
moderna é simplesmente desprezível. Será preciso, portanto,
muito mais que o crash ou a mão cerrada do cônjuge endinheirado
para impedir as três damas de abrir, no próximo dia 7 de novembro,
conforme anunciado com pompa ao high society nova-iorquino, seu templo
dedicado ao modernismo.
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| Sede provisória: torre na Quinta Avenida |
A aguardada soirée deve inaugurar oficialmente o segundo
museu de arte de Nova York – atualmente, a cidade conta apenas com o Museu Metropolitano
de Arte. Este, no entanto, é visto por muitos locais e artistas como um
verdadeiro mausoléu. Mesmo contando com uma rica miríade de peças
que vão de múmias de faraós egípcios a telas belíssimas
de Botticelli e Rembrandt, a instituição congelou no tempo, e hoje
é mais visitada por babás em busca de refúgio da chuva e
turistas desavisados do que habitantes da rica fauna cultural da cidade. Agitadores
culturais já desistiram de tentar montar exposições de arte
moderna no "Met". Com isso, Nova York vinha ficando para trás
na corrida contra cidades americanas e européias bem menos cosmopolitas,
como Cleveland, Worcester e Roterdã, que já têm seus museus
de arte moderna e contemporânea. A iniciativa das beneméritas fundadoras,
assim, foi bem recebida na cidade, rapidamente amealhando adeptos amantes das
belas-artes. Inicialmente, o Museu de Arte Moderna funcionará em
algumas salas alugadas no décimo segundo andar do Heckscher Building, na
esquina da Quinta Avenida com a Rua 57. Há planos para, dentro de dois
anos, a instituição mudar-se para um prédio próprio.
O acervo fixo do estabelecimento conta, por enquanto, com apenas oito quadros
e um desenho, todos doados por amigos da causa ao museu. Para a inauguração,
o conselho – presidido por Anson Conger Goodyear, antigo presidente da galeria
de arte Albright, em Buffalo – preparou uma exposição de luminares
da arte moderna: Cézanne, Gauguin, Van Gogh e Renoir, com obras emprestadas
de coleções particulares e outros museus. Uma excelente oportunidade
para ver os mestres europeus reunidos na América. |