Ponto
de Vista: Mahatma Gandhi VEJA, outubro
de 1929
O líder espiritual e político indiano lança uma autobiografia e relata sua
árdua campanha em favor da independência do território do domínio dos britânicos.
A seguir, um trecho da obra
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| O líder popular dos indianos trabalha numa roda
de fios de algodão: 'conquistar as paixões mais sutis é a
parte mais difícil' | Até agora, minha
vida tem sido tão pública que não existe quase nada sobre
mim que as pessoas já não saibam. Mas tenho me dedicado a um esforço
incessante: descrever a verdade, da forma que a vejo, e da exata maneira pela
qual cheguei a ela. Com esse exercício, ganhei uma inefável paz
mental. Minha experiência como um todo convenceu-me de que não há
outro Deus que não a verdade. Por enquanto, porém, só consegui
ver alguns relances dessa verdade, e essas dão apenas uma idéia
de seu indescritível brilho, um milhão de vezes mais intenso do
que o do sol, que vemos todos os dias com nossos próprios olhos. Para
ver o espírito universal da verdade de perto, uma pessoa deve ser capaz
de amar até a mais perversa das criaturas como se fosse ela mesma. E um
homem que aspira a isso não pode se ausentar de qualquer setor da vida.
É por isso que minha devoção à verdade me levou ao
campo da política. Posso dizer, sem qualquer hesitação e
com toda a humildade possível, que aqueles que dizem que a religião
não tem nada a ver com política não sabem o que a religião
significa. Atração e repulsão - A
identificação com qualquer ser vivo é impossível sem
a autopurificação. Deus não pode ser percebido por alguém
que não é puro de coração. A autopurificação,
portanto, deve significar a pureza em todos os aspectos da vida. E como a purificação
é altamente contagiosa, quando alguém se purifica, purifica também
o que está ao seu redor. O caminho para isso, porém, é duro
e íngreme. Para conquistar a pureza perfeita, uma pessoa não pode
ter paixão no pensamento, no discurso e nas ações; deve ficar
acima das correntes de amor e ódio, atração e repulsão. Sei
que ainda não tenho essa tripla pureza, apesar de lutar de forma constante
e incessante nesse sentido. É por isso que todos os elogios do mundo não
me comovem; na verdade, eles me provocam. Para mim, conquistar as paixões
mais sutis é mais difícil do que a conquista física do mundo
pela força das armas. Desde meu retorno à Índia, convivi
com as paixões que se escondiam dentro de mim. Ter descoberto essas paixões
me fez sentir humilhado, mas não derrotado. As experiências que me
trouxeram até aqui me deram grande alegria. Mas sei que ainda tenho um
caminho difícil a atravessar. Preciso reduzir-me a zero. Se um homem não
se coloca por vontade própria como último entre todas as outras
criaturas, não há salvação para ele.
Mohandras Karamchand Gandhi, de 60 anos, é advogado
e ativista político. Entre 1893 e 1914, morou na África
do Sul, onde participou de campanhas ligadas ao movimento de direitos
civis naquele país. Na volta à Índia, tornou-se
figura destacada nas manifestações em benefício
dos pobres e das mulheres. Trabalha há mais de uma década
para reduzir as tensões religiosas e étnicas na Índia
e, principalmente, pela independência do território,
controlado pela Grã-Bretanha. Gandhi, apelidado de "Mahatma"
("grande alma" em hindu), usa métodos que chamaram
a atenção de todo o mundo. Ao invés de estimular
o conflito violento com os britânicos, usa como armas a desobediência
civil e a resistência pacífica para tentar alcançar
seus objetivos.
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