Internacional VEJA, outubro
de 1929
Com poderes ilimitados e polpuda indenização em caixa, Pio XI molda a estrutura
do recém-criado estado do Vaticano. E já incomoda seu vizinho, o ditador
fascista Benito Mussolini
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| Autonomia e compensação financeira: a assinatura
do tratado, em fevereiro último, com representantes do papa e o Duce |
Em setembro de 1870, quando as
tropas de Vittorio Emanuelle II, proclamado rei da recém-unificada Itália,
subjugaram e anexaram a cidade de Roma, o papa Pio IX enclausurou-se nos muros
do Vaticano. A essa altura, o Risorgimento italiano já havia tomado
a maioria dos estados papais, e o pontífice, para não se submeter
à nova ordem política na Velha Bota, rompeu relações
com a monarquia e declarou-se um prisioneiro do poder laico. O mal-estar entre
o estado e a Igreja finalmente chegou ao fim em fevereiro deste ano, quando o
papa Pio XI e o ditador fascista Benito Mussolini, o "Duce", assinaram
o Tratado e o Concordato de Latrão, que determinaram a criação
do estado soberano do Vaticano, reconheceram o catolicismo como religião
oficial da Itália e ainda garantiram à Santa Sé uma polpuda
compensação financeira pelas anexações dos rincões
papais. Livre depois de quase seis décadas, é o Santo Padre que
agora se esbalda com seus poderes de chefe-de-estado, literalmente mandando prender
e mandando soltar dentro do Vaticano.
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| O Santo Padre: rádio e jornal próprios |
Com a garantia da indenização da administração
italiana, de 750 milhões de liras, à vista, e de um bilhão
de liras em títulos do governo, o chefe da Santa Sé começa
a estruturar uma respeitável aparelhagem estatal – boa parte dela, a seu
serviço imediato. Já existe um diário oficial, o L’Osservatore
Romano, e Pio XI, de acordo com seus assessores próximos, planeja estruturar
no futuro próximo uma rádio oficial para alardear o cristianismo
e, claro, a palavra papal. O maior candidato para tocar a empreitada é
Guglielmo Marconi. Está em circulação a moeda corrente do
Vaticano, a lira vaticana, com a efígie do sumo pontífice, também
aceita na Itália e que tem valor parelho ao da lira italiana. O serviço
postal do Vaticano foi inaugurado em fevereiro. Já o Corpo da Gendarmaria
Pontifícia e o Corpo da Guarda do Papa, com suas coloridas fardas desenhadas
por Michelangelo, ganham ainda mais liberdade dentro do Vaticano para assegurar
a proteção do agora chefe de estado Pio XI. Para completar,
em junho último, foi promulgada a Lei Fundamental do Estado do Vaticano,
que dá ao sucessor de São Pedro a plenitude dos poderes Legislativo,
Executivo e Judiciário no enclave de 0,44 quilômetro quadrado ao
norte de Roma e em mais doze edifícios espalhados pela cidade, incluindo
o Palácio de Castelgandolfo. Os bens da Santa Sé, sua administração,
a biblioteca, o arquivo, a livraria e a tipografia do Vaticano também estão
diretamente subordinados à vontade do pontífice. Tal lei criou a
figura do governador, que pode criar regras para a ordem pública na cidade-estado,
com a anuência do Conselho. Porém, a escolha do governador é
exclusiva do papa, e pode por ele ser revogada a qualquer momento, sumariamente.
Qualquer semelhança com os plenos poderes de Mussolini não é
mera coincidência – ao menos para os cartunistas locais, que não
se cansam de produzir caricaturas retratando Pio XI envergando a camisa negra
do fascismo e o Duce com a tiara papal em sua careca.
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| O rei Vittorio: encontro simbólico | Os
dois manda-chuvas, aliás, trocaram algumas farpas há alguns meses
– Mussolini dizendo à Câmara dos Deputados que "a Igreja é
soberana apenas no reino da Itália, e não no estado italiano",
com a resposta de Pio XI lamentando as declarações hereges do fascista.
As arestas ainda não foram completamente aparadas. Para acabar de vez com
a animosidade, no fim do ano, de acordo com informações extra-oficiais,
o Santo Padre deve receber pela primeira vez no Vaticano o rei Vittorio Emanuele
III, em um encontro simbólico para selar a paz entre a monarquia e a Igreja.
Mas também aí se descortina um problema diplomático. Pelas
rígidas regras cerimoniais do Vaticano, todo soberano católico deve
ajoelhar-se ao pé do papa e beijar seu dedão. Benito Mussolini,
porém, é radicalmente contra o ósculo, preferindo o tradicional
aperto de mão entre dois chefes de estado. Fontes ligadas ao príncipe
Umberto garantem que este prefere o cumprimento da formalidade. Este beijo ainda
dará muito o que falar. |