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 CRASH DA BOLSA
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Entrevista: HERBERT HOOVER
VEJA, outubro de 1929
Em meio à frenética agitação dos mercados, o presidente
americano garante que a economia do país segue em ritmo acelerado e
recusa-se a falar em recessão: "Não tenho medo do futuro"
O cenário mudou: Hoover, que assumiu em meio à calmaria, agora tem de lidar com a tempestade nos mercados

 

Quando assumiu o posto de comandante-em-chefe dos Estados Unidos, no início deste ano, o engenheiro de mineração Herbert Hoover previa céu de brigadeiro nos próximos quatro anos. A idéia do triunfo final sobre a pobreza e a promessa de um carro em cada garagem eram parte do idílico imaginário criado pela campanha republicana, que ajudou o "Senhor Prosperidade" a chegar à Casa Branca com facilidade (Hoover deu uma surra no democrata Al Smith na eleição do ano passado). Mas a chuva torrencial que ensopou os convidados de seu discurso de posse, no dia 4 de março, mostrou-se apenas a primeira das tempestades que o presidente enfrentaria em seu mandato. Seus radares meteorológicos falharam em captar os índices descendentes da atividade industrial no país, que chegam a níveis alarmantes, bem como o aumento do desemprego. E agora, nos últimos dias de outubro, com a quebra da Bolsa de Nova York, a tormenta pode ter tomado proporções colossais, de acordo com as previsões de alguns especialistas. Mas para Hoover, 55 anos, natural de West Branch, Iowa, não há o que temer no campo econômico. Na tentativa de minimizar a importância da crise financeira, o presidente fez um curto e rápido pronunciamento sobre o crash do mercado de ações, assegurando aos americanos a solidez da economia do país – apesar dos indicadores que mostram o contrário. Nesta entrevista a VEJA, o presidente Hoover volta a defender o não-intervencionismo estatal nos mercados e diz que sua proposta de redução de impostos federais, anunciada três dias antes da quinta-feira negra, segue fazendo parte de seus planos.

***

Após o crash da Bolsa de Nova York, um desespero generalizado tomou conta da população americana. Alguns especialistas já falam em recessão. Qual a real situação da economia dos EUA neste momento?
O negócio fundamental do país, ou seja, a produção e distribuição de mercadorias, encontra-se em situação bastante sólida e próspera. A maior prova disso é o fato de que, apesar de produção e consumo estarem em nível muito alto, a média dos preços dessas mercadorias, como um todo, não apresentou aumento nos últimos 12 meses, e não houve aumento considerável nas ações de bens manufaturados. Por isso, não houve especulação em mercadorias. E temos visto uma tendência para o aumento de salários, bem como da produção por trabalhador, indicando uma situação muito saudável. As indústrias de material de construção vêm sendo um tanto afetadas pelas altas taxas de juros produzidas pela especulação em Nova York, e houve certo declínio sazonal em duas ou três outras indústrias, mas esses movimentos são de caráter secundário quando avaliados à luz da situação geral.

A baixa súbita e colossal no preço das ações levou à bancarrota milhares de americanos. Para muitos economistas, agora parece claro que a especulação desenfreada foi a grande responsável pelo colapso. Como o governo reagirá a isso? A administração federal pode intervir no mercado financeiro para evitar novas surpresas?
Não. O maior propósito de nosso pensamento econômico é instituir estabilidade e segurança para os negócios e empregos, e, assim, afastar ainda mais a pobreza de nossas fronteiras. Nosso povo desenvolveu nos últimos anos uma recém-descoberta capacidade de cooperação entre si para alcançar propósitos maiores no bem-estar público. É um avanço em direção à maior noção de autogoverno. O progresso nasce da cooperação na comunidade, e não de restrições governamentais. O governo deve dar assistência e encorajar esses movimentos de auto-ajuda coletiva, cooperando com eles. Pela cooperação, os negócios avançaram muito em serviços, em estabilidade, na regularidade do emprego e na correção dos próprios abusos. É isso que deve acontecer também agora.

'O progresso nasce
da cooperação
na comunidade, e
não de restrições governamentais'

Três dias antes da turbulência em Wall Street, o senhor acenou com a real possibilidade de um corte nos impostos, declarando que esperava um superávit no orçamento dos próximos dois anos. Andrew Mellon, seu Secretário do Tesouro, garantiu que a redução nos impostos estimularia os negócios e resultaria em mais ganhos no ano subseqüente. Esse plano será mantido?
Estamos estudando com atenção a possibilidade de redução de impostos. Todos esperamos que a situação se encaminhe para um superávit seguro, a fim de que o corte tarifário possa ser realizado, mas precisamos determinar algumas coisas antes que possa haver qualquer conclusão sobre esse assunto. Primeiro, precisamos saber qual será o efeito da legislação dos últimos doze meses, que aumentou os gastos no presente ano fiscal para muito além do orçamento original. O novo e ampliado programa para armamentos navais, o aumento nos gastos com a aviação do Exército e da Marinha, a reconstrução das guarnições do Exército e o aumento nos gastos com os serviços oferecidos aos veteranos, tudo isso interferiu desde que o orçamento passou no Congresso. Segundo, precisamos saber em quanto conseguimos reduzir os gastos do governo em outras direções, para compensar parcialmente esses aumentos que apareceram nos últimos 12 meses.

O senhor conseguirá fazer essa conta fechar?
Sabemos que os recém-aprovados gastos para o ano fiscal excedem o orçamento original em 200 milhões de dólares, e muitas das leis que ampliam os gastos não entraram ainda em vigor. A conclusão do orçamento para o ano começando em 1º de julho de 1930 ajudará a determinar a medida desse aumento de gastos. Também precisamos saber quanto esse aumento de receita se deve às atividades temporárias de venda de ações. No caso da situação se encaminhar da melhor forma possível, como espero que aconteça, trata-se de um plano para ser executado o quanto antes. O corte de impostos promove crescimento do consumo e de serviços, e movimentará a economia.

Seu discurso de calmaria e tranqüilidade não é compartilhado por alguns analistas, que indicam o começo de uma recessão nos EUA. O que leva o senhor a ver a situação com olhos tão otimistas?
Fazendo um levantamento da situação do nosso país tanto interna quanto externamente, descobrimos muitas satisfações e alguns motivos para preocupação. Emergimos das perdas da Grande Guerra e da reconstrução que se seguiu com maior vigor e força. Nossa terra é uma terra rica em recursos, estimulante em sua gloriosa beleza, cheia de milhões de lares felizes, abençoada com conforto e oportunidade. Em nenhuma nação as instituições do progresso estão tão avançadas. Em nenhuma nação os frutos da conquista estão tão seguros. Em nenhuma nação o governo merece mais respeito. Nenhum país é mais amado por seu povo. Tenho uma fé permanente na capacidade, integridade e determinação desse povo. Na visão geral, atingimos um nível mais alto de conforto e segurança do que jamais existiu na história do mundo. Não tenho medo quanto ao futuro do país. Ele está radiante de esperança.


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Hoover fala aos eleitores
Ainda durante a sua campanha, o republicano pede o comparecimento dos americanos às urnas em 1928.
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