Polícia VEJA, outubro
de 1929
Mafioso de Chicago conta com regalias inéditas em seu cárcere 'voluntário'
na Filadélfia. Mas o governo federal já procura uma alternativa para tirá-lo
de circulação definitivamente
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| O capa-preta pescando perto de Palm Island, na Flórida:
agora, descanso e regalias também atrás das grades, na Filadélfia |
Muitos comemoraram quando, em maio,
o temível Alphonse Capone, manda-chuva da máfia de Chicago, finalmente
foi preso. A captura ocorreu na Filadélfia, em frente a um cinema, por
posse ilegal de uma pistola calibre 38. De acordo com os rumores que se espalharam
pelo mundo do crime organizado e da polícia, o próprio Capone foi
um dos que festejaram a detenção. Cinco meses depois, está
mais do que claro o motivo pelo qual o chefão apressou-se em declarar-se
culpado da acusação e aceitou sem pestanejar a sentença de
um ano de reclusão na Penitenciária Eastern State, dispensando a
liberdade que poderia ser comprada pela fiança de 35.000 dólares.
De dentro de sua incrivelmente equipada e confortável cela na cadeia, "Scarface
Al" segue ditando ordens para seus subordinados no perigoso submundo de Chicago
– e, o que é melhor, agora contando com proteção máxima
e gratuita fornecida oficialmente pelo governo americano.
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| O horrendo Massacre do Dia de São Valentim: foras-da-lei
irlandeses querem o troco | A estadia no recanto prisional
realmente veio a calhar. Desde o Massacre do Dia de São Valentim, em fevereiro,
quando sete homens da gangue de George "Bugs" Moran foram metralhados
– carnificina atribuída ao italiano do Brooklyn –, a guerra entre gangues
em Chicago tomou proporções assombrosas e perigosas para Al Capone.
O capo, que muito convenientemente se fez ver e notar na Flórida no dia
dos assassinatos, conseguiu escapar da polícia, de mãos atadas por
não conseguir ligá-lo ao crime. (O sistema ainda tentaria capturá-lo
em março, na saída de seu depoimento perante o Grande Júri:
o homem da cicatriz recebeu voz de prisão por desacato, acusação
que resulta em um ano no cárcere ou 1.000 dólares de multa. Com
a generosidade de um bom cristão, "Al" deixou de uma vez 5.000
verdinhas para o Tio Sam e foi liberado.) Sedentos por vingança, porém,
os gatilhos dos rivais irlandeses continuavam a procurá-lo em Chicago.
Era chegada a hora então de um período sabático – que o capa-preta
resolveu passar na Filadélfia.
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| Prisioneiro de bom gosto: rádio e poltrona |
Desde então, as paredes da Eastern State são testemunhas
das gostosas regalias que nenhum outro condenado jamais recebeu na história
dos Estados Unidos. Sua cela foi transformada em uma espécie de quarto
de hotel, com macios tapetes, cortinas de chita, uma confortável poltrona,
um requintado abajur, uma escrivaninha e um portentoso rádio que povoa
com acordes de valsa o ar da câmara do mafioso. Quadros de extremo bom gosto
disfarçam as paredes cinza da célula. Ao menos por enquanto, não
há telefone no recinto – mas o fora-da-lei está autorizado a fazer
chamadas de longa distância da sala do diretor. Também estão
liberadas as visitas, e os escudeiros Frank Nitti e Jack Guzik, além do
mano Ralph Capone, já são figurinhas fáceis na Filadélfia.
A mordomia é tanta que "Scarface Al" já encontrou tempo
até para remover suas amídalas no hospital da penitenciária.
O período de resguardo pós-operatório foi deveras tranqüilo.
A pressão da opinião pública, no entanto, está levando
o governo dos Estados Unidos a buscar outra saída para manter Capone fora
de circulação de forma definitiva. Uma força-tarefa de cem
investigadores já está funcionando a pleno vapor a fim de buscar
uma possível condenação por sonegação de impostos
– especula-se que, de 1924 até agora, o capo tenha amealhado uma receita
de mais de 100 milhões de dólares, sem nunca ter declarado um centavo
sequer ao leão. Aos seus asseclas, o chefão do banditismo em Illinois
garante não derramar uma gota de preocupação com a investida.
"Afinal, o governo não pode legalmente recolher impostos de dinheiro
ilegal", desafia. |