Artes
e espetáculos | Livros VEJA, outubro de
1929
A pena afiada do americano Hemingway, o maior expoente literário da atualidade,
brilha intensamente em ‘A Farewell to Arms’, romance inspirado na experiência
militar do autor
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| O escritor, de apenas 30 anos, aqui retratado pelo pintor
americano Henry Strater: estilo direto, objetivo e nada floreado | Por
fruto de uma curiosa coincidência, uma vaga de bons romances e novelas ambientados
na Grande Guerra tem aparecido neste ano de 1929, mais de uma década depois
do final do conflito – entre eles, Good-Bye to All That, de Robert Graves,
Death of a Hero, de Richard Aldington, e All Quiet on the Western Front,
de Erich Maria Remarque. Em uma fictícia batalha literária, entretanto,
todos os anteriores capitulariam perante A Farewell to Arms ("Adeus
às armas", em tradução livre, Scribner, US$ 2,50), de
Ernest Hemingway, de longe o mais poderoso da safra. Celebrado pelos críticos
dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha, o livro já vendeu 80.000 exemplares
em seus primeiros quatro meses na praça e consagra o autor como ícone
da chamada "Geração Perdida", composta pelos escritores
americanos que serviram na guerra.
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| Motorista de ambulância: ferido na perna |
Hoje com 30 anos, Hemingway já havia chamado a atenção
do público com suas coletâneas de contos – In Our Time (1926)
e Men Without Women (1927) – e seu primeiro romance, The Sun Also Rises
(1926). Sobre ele, a revista Time vaticinara, há três
anos: "Temos aqui um escritor, um jovem escritor americano que instintivamente
faz a distinção entre viver e existir. Tenham certeza, Ernest Hemingway
é alguém. Um novo, verdadeiro, não-literário escriba
da vida – um escritor". O estilo direto, objetivo e nada floreado da prosa
deste jornalista, que trabalhou em Paris como correspondente do jornal Toronto
Star no início da década, aproximou-o de uma legião de
leitores, apresentados aos fatos com uma crueza impressionante. É essa
mesma receita que explica o sucesso notável de A Farewell to Arms,
que se serve das experiências militares de Hemingway para traçar
um panorama áspero e aflitivo do cotidiano dos homens e mulheres envolvidos
no conflito. Na Europa, o autor serviu na Cruz Vermelha como motorista de ambulância
no front italiano até ser atingido na perna por estilhaços de um
morteiro austríaco, em 1918, o que forçou seu retorno aos Estados
Unidos. No papel, o romance traz a história de Frederic Henry – assim como
Hemingway, um jovem americano motorista de ambulância que combate ao lado
do exército italiano no front austro-húngaro até ser atingido
na perna por estilhaços de um morteiro. Levado a um hospital de Milão,
passa a receber os cuidados de Catherine Barkley, enfermeira americana da Cruz
Vermelha. A personagem foi inspirada em Agnes von Kurowsky, que cuidou de Hemingway
na Itália.
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| A capa do novo romance: sem final feliz | O
romance da vida real ficou pelo caminho: Agnes se apaixonou por um oficial italiano
e não retornou com Hemingway aos Estados Unidos, como o autor planejava.
Na ficção, o autor trata de corrigir esta falha do destino. Mas
não vai tão longe a ponto de mudar o que a humanidade, a duras penas,
vem experimentando ao longo dos séculos. Há poucos finais felizes
em uma guerra – aliás, acrescentaria o escritor, há poucos finais
felizes na vida. No ano passado, o suicídio de seu pai, médico honrado
em dificuldades financeiras e com saúde precária, foi mais uma demonstração
de tal frustração. Em A Farewell to Arms, não há
como virar a face para isso. As palavras de Frederic Henry são definitivas:
"Aos que trazem muita coragem neste mundo, o mundo quebra a cada um deles
e eles ficam mais fortes nos lugares quebrados. Mas aos que não se deixam
quebrar, o mundo mata-os. Mata os muito bons, os muito meigos, os muito bravos
– imparcialmente. Se não pertenceis a nenhuma destas categorias, morrereis
da mesma maneira, mas não haverá pressa nenhuma em matar-vos".
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