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  COPA DE 1962

NESTA EDIÇÃO
A conquista do bicampeonato
  A campanha sem nenhum revés
    Brasil 2 x 0 México
Brasil 0 x 0 Tchecoslováquia
Brasil 2 x 1 Espanha
Brasil 3 x 1 Inglaterra
Brasil 4 x 2 Chile
Brasil 3 x 1 Tchecoslováquia
  Estrela de Garrincha brilha
  Amarildo substitui rei Pelé
  Os campeões até no jeitinho
  Os heróis: rotina de vencer
    O goleiro Gilmar
Os 'irmãos' Santos
Mauro e Zózimo
Zito e Didi
Zagallo e Vavá
O técnico Aymoré
VÍDEOS
Índice
Edição Extra: Brasil bicampeão
VEJA, Junho de 1962


Seleção canarinho supera ausência de Pelé e conquista
com autoridade o bicampeonato mundial de futebol no Chile,
com espetáculo particular de Garrincha, o nome da Copa
A hora da glória: Mauro levanta a taça em Santiago. O Brasil se igualava a Uruguai e Itália com dois títulos mundiais cada

 

Na preparação para o VI Campeonato Mundial de Futebol, no Chile, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) seguiu à risca a máxima popular: em time que está ganhando não se mexe. A seleção desembarcou no Chile com praticamente a mesma equipe titular que triunfou na Suécia, quatro anos antes. Se por um lado o escrete lucrava com a experiência dos veteranos, por outro perdia em vigor atlético – sete dos onze atletas já haviam cruzado a barreira dos 30 anos. Até o início do torneio, todavia, ninguém encarou o fato como um problema. Afinal, com Pelé em forma galopante, era consenso que a locomotiva negra de 21 anos puxaria a equipe rumo à vitória. Por isso, quando uma contusão na coxa tirou o camisa 10 canarinho da Copa do Mundo de 1962, logo no segundo jogo do torneio, a apreensão tomou conta da delegação e dos torcedores. Mas os deuses do futebol escrevem certo por pernas tortas. A ausência de Pelé abriu espaço para outro gênio assumir as rédeas da seleção: foi Garrincha, maquinista de fala mansa e futebol indomável, quem conduziu a equipe ao bicampeonato mundial. Em terras andinas, o Brasil foi Mané e mais dez.

A façanha dos rapazes de Aymoré Moreira inscreve o país em definitivo no quadro de potências do futebol – ao lado de Uruguai e Itália, somos agora duplos vencedores do torneio máximo do esporte. Torneio que, aliás, ganha em importância a cada dia: ao contrário do que ocorreu em 1950, quando alguns países do Velho Continente preferiram não encarar a travessia do Atlântico para jogar futebol no Brasil, desta vez as vagas foram disputadas com fervor pelos europeus, em empolgantes partidas eliminatórias. França e Suécia, por exemplo, terceira e segunda colocadas em 1958, ficaram de fora desta edição, eliminadas respectivamente por Bulgária e Suíça. Diversas nações da Europa chegaram à América do Sul entusiasmadas por seus últimos resultados, acreditando fielmente que teriam chance de retornar com a taça Jules Rimet na bagagem.

A Inglaterra, berço do esporte, vinha de vitórias espetaculares nas duas últimas temporadas: 9 a 3 na Escócia, 4 a 1 na Espanha e 3 a 2 na Itália. A Iugoslávia, que nas Olimpíadas de Roma finalmente ficou com o ouro – depois de três vices consecutivos –, chegava credenciada ao título, assim como a União Soviética, atual campeã europeia, que em sua turnê de três jogos pela América do Sul, contra Argentina, Uruguai e Chile, em novembro passado, venceu todos. Itália e Espanha reforçaram-se ainda mais com a naturalização de estrangeiros: enquanto a Azzurra cadastrou os argentinos Maschio e Sivori e o brasileiro Mazzola (para eles, Altafini), a Fúria foi ainda mais longe. Os espanhóis surrupiaram o paraguaio Martínez, o uruguaio Santamaría, o argentino Di Stéfano e o húngaro Puskas, sem contar o treinador argentino Helenio Herrera. Tudo em vão: melhor teriam feito se tivessem visitado Pau Grande, no estado da Guanabara, e simplesmente procurado por um certo Manuel dos Santos.

Apoio incondicional - A Copa do Mundo da Fifa encontrou no Chile um anfitrião brilhantemente preparado, apesar da tragédia que se abateu sobre a nação em maio de 1960. O avassalador terremoto de Valdivia, que alcançou inéditos 9,5 graus na escala Richter, matou quase 6.000 pessoas e feriu 2 milhões, deixando um desolador rastro de destruição em todo o país. A tragédia fez a Fifa cogitar mudar o local de seu principal torneio. Graças aos esforços do presidente da Federação Chilena, Carlos Dittborn – que desgraçadamente veio a falecer apenas um mês antes do início da competição –, o Chile foi confirmado como país-sede. "Temos de ter a Copa do Mundo, porque não temos nada": a frase de Dittborn foi a palavra de ordem para os oito milhões de chilenos superarem o trauma e levantarem-se para organizar o torneio. Apenas o Estádio Braden, em Rancágua, construído em 1945 e pertencente à companhia inglesa de cobre homônima, estava em condições de ser usado. Três novas praças esportivas foram erguidas em tempo recorde – em Viña del Mar (Estádio Sausalito), em Arica (Estádio Carlos Dittborn, batizado em homenagem ao finado diretor) e em Santiago (Estádio Nacional). O clima festivo contagiou a população chilena e garantiu apoio incondicional aos comandados do treinador Fernando Riera, que responderam com uma entrega fervorosa dentro de campo.

Com Argentina e Uruguai eliminados na primeira fase, Chile e Brasil foram os únicos representantes da América do Sul nas quartas-de-final – as seis equipes restantes eram europeias. Nessa fase, os anfitriões surpreenderam os soviéticos – em uma das poucas partidas infelizes da carreira do extraordinário goleiro Lev Yashin – e avançaram à semifinal, justamente contra o Brasil. Foi o único momento da estadia andina em que os anfitriões, sempre simpáticos com a seleção, voltaram-se contra os atletas canarinhos. Mas a presença de mais de 76.000 espectadores, que superlotaram o Estádio Nacional, não seria suficiente para abalar os experientes brasileiros, que já haviam passado por apuros semelhantes em outros carnavais: na final de 1958, a seleção também enfrentou os donos da casa. À exceção de Amarildo, que entrara no lugar de Pelé, e dos zagueiros Mauro e Zózimo, herdeiros das posições de Bellini e Orlando, todos os outros atletas da seleção haviam participado daquela contenda.

Durante a campanha para o mundial do Chile, os atacantes Coutinho e Pepe, companheiros de Pelé na poderosa equipe do Santos, haviam conquistado uma vaga no time titular da seleção. Pouco antes da Copa, entretanto, sofreram lesões que os impediram de participar da defesa do título. A comissão técnica, então, recorreu exatamente à dupla que havia perdido o posto de primeira opção para os praianos: Vavá e Zagallo. Com isso, nove atletas reuniam-se novamente para defender o título que haviam conquistado quatro anos antes. Estreante em mundiais, mas com experiência de sobra na vida do futebol, o treinador Aymoré Moreira – que substituiu há dois anos o campeão Feola, afastado por um problema de saúde – conduziu o time com tranqüilidade, e teve méritos em rearranjar o esquema tático sem a principal figura da Seleção. Moreira forneceu toda a liberdade que Garrincha necessitava para empurrar o escrete em seu caminho para a glória. Assim, o Brasil novamente vencia o anfitrião, desta vez por 4 tentos a 2, para desespero e tristeza da torcida andina.

Senhor da bola - Depois da encarniçada contenda com os chilenos, a decisão contra a Tchecoslováquia, que prometia ser igualmente complicada – na primeira fase, justamente no jogo em que Pelé se contundiu, as equipes ficaram em um disputado empate sem gols –, tornou-se bem mais tranquila do que se esperava. Nela, brilharam Amarildo, o substituto do camisa 10 – que teve participação crucial na competição, especialmente na partida contra a Espanha –, e Vavá, autor do gol que sacramentaria a vitória por 3 a 1. Fim de jogo, o choro pela conquista de 1958 repetiu-se no Chile: Nílton Santos, Gilmar e Zagallo, entre outros, deixaram suas lágrimas no gramado do Estádio Nacional. Mauro Ramos de Oliveira reproduziu o gesto de Bellini e levantou a Jules Rimet acima de sua cabeça, para todo o planeta testemunhar. O Brasil confirmava-se como senhor do futebol mundial – complexo de vira-latas, nunca mais.

Na noite da vitória, em cerimônia de gala no Hotel Carrera, em Santiago, os bicampeões mundiais receberam, das mãos de sir Stanley Rous, presidente da Fifa, as medalhas e diplomas referentes à conquista da VI Copa do Mundo. Na segunda-feira seguinte à conquista, dia 18 de junho, a apoteose: os bicampeões desembarcaram no aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, em sua volta para casa. Recebidos por mais de dois milhões de pessoas, desfilaram em carro aberto pelas ruas da Cidade Maravilhosa. Em um gesto carregado de simbologia, o hoje reserva Bellini e o titular Mauro conduziam a Jules Rimet, unindo as conquistas de Estocolmo e Santiago. Às 23h30, os jogadores foram recebidos no Palácio Guanabara pelo governador Carlos Lacerda. Para Garrincha, o dono da Copa, era chegada a hora de receber um dos presentes mais esperados pela conquista: o falante mainá que encantara o craque na despedida da delegação e que Lacerda prometera a ele caso o Brasil se sagrasse bicampeão. Garrincha cobrou o tributo e posou para fotos com a ave. Só não a levou para o restante da comemoração, madrugada adentro – afinal, o passarinho não precisava saber de tudo.

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