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Edição Extra: A PREPARAÇÃO
VEJA, junho de 1958
A delegação campeã enterrou a era do improviso
e da
bagunça – comandada por Paulo Machado de Carvalho, foi
organizada, eficaz e prudente. É uma lição para todo o país
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| Concentrados no hotel em Hindas, prontos para
a consagração: desta vez a seleção
brasileira não foi a passeio |
Não foi só dentro das quatro linhas que esta seleção
campeã mundial inovou e surpreendeu. Nos bastidores da equipe
houve outra revolução, quase tão decisiva para
a conquista quanto o amadurecimento dos futebolistas do país.
A delegação do Brasil na Copa foi um exemplo de organização
e eficácia, encerrando um constrangedor histórico
de despreparo, bagunças, negligência e até corrupção.
Nos certames passados, a seleção viajava ao exterior
de forma mambembe, como um bando de peladeiros de final de semana.
O Brasil de 1958 funcionou como um relógio suíço.
Desta vez não havia cartolas querendo ganhar projeção
política ou algum trocado por fora; não existia improviso
nos traslados ou desordem na concentração; não
havia nem quebra-galhos nem o jeitinho de última hora. A
Confederação Brasileira de Desportos (CBD) traçou
um plano completo e seguiu esse receituário à risca.
O tumultuado mundo do futebol, quem diria, deu exemplo para o resto
do país – que, sob os auspícios do presidente Juscelino
Kubitschek, tenta se modernizar, crescer e enriquecer.
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| Moços sérios: um pacato jantar
no hotel sueco, longe do tumulto da cidade |
A CBD começou a preparar o roteiro brasileiro para a Copa
no ano passado, com a formação de uma comissão
técnica séria e capacitada. O presidente da confederação,
João Havelange, confiou ao seu vice, doutor Paulo Machado
de Carvalho, a chefia da delegação. O dirigente, patrono
do São Paulo Futebol Clube, é um empreendedor de enorme
sucesso (entre as suas empresas estão, por exemplo, a TV
Record e a Rádio Panamericana). Ele logo avisou: não
queria perder tempo com uma patuscada qualquer. Se fosse o chefe,
viajaria à Suécia para fazer bonito. E assim foi.
A comissão foi montada com o supervisor Carlos Nascimento,
um sujeito austero e obcecado pela ordem; o médico Hilton
Gosling, um dos melhores do Rio de Janeiro; o preparador físico
Paulo Amaral, responsável pelo condicionamento do Botafogo;
e o tesoureiro Adolpho Marques, ligado ao Fluminense. A comissão
trabalharia sempre em conjunto, tomando as decisões em equipe
– respeitada a hierarquia que dava a palavra final a Paulo Machado
de Carvalho, é evidente. Faltava a última peça:
o treinador. Por causa do modelo de trabalho a ser adotado, o técnico
tinha de ser um sujeito aberto, tranqüilo e nada vaidoso. A
decisão demorou a ser tomada. Apenas em março a CBD
anunciou sua escolha: Vicente Ítalo Feola, de 48 anos, supervisor
do São Paulo.
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| Doutor Gosling e Pelé: bateria de exames |
Cáries e lombrigas – O rotundo e pacato Feola não
era a primeira opção para ninguém – afinal,
não era o técnico nem mesmo do seu próprio time,
onde o húngaro Bela Gutman ocupava a função
de treinador de campo. O sucesso do São Paulo campeão
paulista de 1957 atestava a capacidade do indicado, mas temia-se
que a seleção ficaria órfã de um comandante
de pulso firme e personalidade marcante. Bobagem. Feola tinha o
perfil talhado para a função que a CBD imaginava.
Conduziria o time sem rompantes desnecessários, aceitaria
as decisões do resto da comissão e não provocaria
atritos internos. Poucos técnicos no país topariam
discutir em equipe a escolha dos jogadores – Feola era um deles.
Enquanto o treinador e seus auxiliares selecionavam a lista de convocados,
a CBD já tinha pronto todo o itinerário para a Copa
– hotéis, vôos, campos de treinamento e deslocamentos
por terra estavam marcados desde o ano passado. O médico
Gosling foi pessoalmente à Suécia e apontou os locais
ideais para a concentração, garantindo conforto e
paz aos atletas. A programação, de 7 de abril (apresentação
dos jogadores) até 29 de junho (final do Mundial), estava
definida nos mínimos detalhes – até o horário
dos treinos já fora agendado.
Antes do início dos treinamentos físicos, técnicos e táticos,
os jogadores escolhidos foram submetidos a outra etapa inédita numa preparação
da seleção. Pela primeira vez, passariam por uma extensa bateria
de exames médicos, coisa incomum no futebol do Brasil. Sinal do atraso
do esporte nacional, o resultado foi de cair o queixo: os jogadores, que são
os mais bem pagos do país, tinham problemas sérios, como lombrigas,
circulação ruim e anemia. Há rumores de que um atleta tinha
sífilis. Garrincha teve de operar as amígdalas, cirurgia que já
deveria ter sido realizada dois anos antes. Isso sem falar nos dentes: foram
arrancados centenas deles das bocas dos 33 jogadores que integravam a lista
preliminar de convocados. Encerrado o banho de sangue das extrações,
o dentista da seleção, doutor Mário Trigo, continuou integrando
a comissão. Além de permanecer de prontidão para possíveis
emergências odontológicas, ajudava a entreter os atletas – era
o melhor piadista do corpo diretivo, característica importante para ajudar
a espantar a tediosa rotina das concentrações.
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| Contato raro: os torcedores no hotel |
Teste psicotécnico – Nem todas as novidades lançadas
pela comissão técnica emplacaram. Em resposta à
preocupação geral com as reações imprevisíveis
dos jogadores frente a seus rivais europeus, a CBD chamou um profissional
jamais antes visto na seleção: um psicólogo.
O doutor, chamado João Carvalhaes, prometia testar a inteligência
e o equilíbrio mental dos nossos craques para identificar
quem tinha um temperamento menos agressivo e impulsivo. Feitos os
experimentos, Carvalhaes concluiu que nem Pelé nem Garrincha
tinham condição psicológica ideal para enfrentar
os desafios da Copa. No caso de Pelé, o especialista apontou
preocupação com a imaturidade do craque (que, vale
lembrar, ainda tem 17 anos) e sugeriu seu corte da equipe. Garrincha
foi reprovado por outros motivos – teria agressividade nula e inteligência
inferior à média. Já na Suécia, os testes
foram repetidos antes da partida contra os soviéticos. Dos
onze titulares, só dois foram aprovados. Curiosamente, Pelé
foi um deles (o outro foi Nilton Santos). Se desse ouvido a Carvalhaes,
Feola teria de trocar quase o time todo. A comissão, porém,
tinha outras virtudes além da organização e
do apreço à ciência – assim como as melhores
mentes modernas, era coerente e tinha bom senso. O parecer do psicólogo
foi ignorado, e os instáveis brasileiros desmoralizaram os
robóticos soviéticos.
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