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Edição Extra: A DELEGAÇÃO
VEJA, junho de 1958
Um arqueiro confiável, uma defesa valente,
um
meio-campo criativo e um ataque explosivo. No banco, um treinador
que
conhece do riscado. Eis a receita de um escrete campeão
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| Retrato de um país inteiro: o escrete
campeão na Suécia reunia paulistas, cariocas,
alagoanos, gaúchos, mineiros... |
Trinta e cinco homens representaram o Brasil na Copa do Mundo da
Suécia. Do chefe da delegação ao roupeiro,
dos goleiros aos atacantes, todos honraram as cores do país.
Como recompensa, entraram para a história e ganharam uma
vaga cativa no coração da torcida. A delegação
que retornará da Europa no próximo dia 2 de julho
(e que será homenageada em desfiles e cerimônias em
Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo) pode ser considerada
um retrato bem-acabado do Brasil. Tem o doutor Paulo Machado de
Carvalho, um magnata das comunicações, mas também
o folclórico massagista Mário Américo, um sujeito
simples e folgazão; o supervisor Carlos Nascimento, homem
severo e às vezes arredio, e o dentista Mário Trigo,
comediante nas horas vagas. Entre os atletas, há brancos,
negros e pardos; há paulistas, cariocas, alagoanos, gaúchos
e mineiros. Os zagueiros têm sobrenome de italiano, mas Garrincha
descende de índios. Nos surtos mais agudos do nosso complexo
de vira-latas, essa mistura chegou a ser apontada como razão
dos fracassos da seleção. Alguns cronistas abraçavam
conceitos racistas e diziam que o time, de forte miscigenação,
tinha um eterno e inevitável espírito de perdedor.
O sucesso na Suécia comprova que nossa rica variedade de
talentos é, na verdade, uma fórmula para a vitória.
A seguir estão algumas dessas histórias de sucesso.

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| O elástico Gilmar: liderança,
firmeza e personalidade debaixo dos paus |
Goleiro menos vazado do certame, GILMAR, de 27
anos, ganhou seu lugar no time titular por transmitir segurança
a todos os setores da equipe. Além de fazer defesas estupendas,
é um dos líderes do grupo. O quíper do Corinthians
nasceu em Santos e chegou ao futebol da capital paulista meio que
por acaso, como contrapeso na negociação de um obscuro
meia do Jabaquara. Acabou conquistando três títulos
paulistas. Na Suécia, segurou um rojão: assim como
já ocorrera com Barbosa, injustamente apontado como o vilão
da derrota em 1950, corria o risco de amargar sozinho a culpa por
um possível revés na Copa. Que nada. Gilmar foi o
fiador da vitória, agarrando todas debaixo dos paus.
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| O capitão Bellini: esse já nasceu
líder |

A defesa brasileira passou incólume pelos quatro primeiros
jogos da Copa. Mérito da dupla formada por BELLINI,
o zagueiro central, e DE SORDI, o lateral-direito. Quem ouvia
os dois nomes nos alto-falantes dos estádios suecos achava
que a zaga da Itália tinha entrado no campo com o time errado.
Mas Bellini, de 28 anos, e De Sordi, de 27, são do interior
de São Paulo, onde começaram suas carreiras. O primeiro,
hoje no Vasco da Gama, é um líder nato. Com uma ascendência
natural entre os companheiros, mereceu a honra de ser o capitão
e, na final, levantar a taça Jules Rimet – foi o primeiro
brasileiro a tocá-la. De Sordi, atleta do São Paulo,
marcador determinado e valente, não teve a mesma sorte: contundiu-se
na semifinal e não pôde jogar a decisão. Depois
de cinco jogos esplêndidos, não apareceu na foto do
time campeão (em seu lugar entrou Djalma Santos, da Portuguesa).

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| Disparando para o ataque: Nilton Santos prepara
o arremate e marca contra a Áustria |
Desafia-se a torcida a encontrar, em qualquer parte do
globo, um defensor que trate tão bem a bola quanto NILTON
SANTOS, o lateral-esquerdo da seleção. A classe
e a fineza deste atleta de 33 anos, titular do Botafogo há
dez, são singulares. O fenômeno tem explicação:
o craque começou a carreira como atacante, cujos grandes
prazeres eram driblar e marcar gols. Como seu repertório
é completo – afinal, também é capaz de marcar
e armar o jogo –, já se apresentou nas mais diversas funções.
Nilton tem uma característica ímpar para um lateral.
Ao invés de se limitar a defender o flanco e conter o ponta
adversário, parte para o ataque como se ele próprio
fosse um ponteiro quando consegue roubar a bola. Alguns técnicos
são levados ao desespero pelo seu estilo – como Flávio
Costa, que o manteve no banco na Copa de 1950. Em 1954, já
era titular. Numa de suas arrancadas, Nilton Santos marcou o segundo
gol da seleção na Copa da Suécia. Quando percebeu
que o lateral disparava para o ataque, o técnico saltou do
banco e implorou para que voltasse. Tarde demais: o lateral que
também é artilheiro já tinha guardado a bola
na rede. Restou a Feola aplaudir a ousadia.
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| O maestro Didi: categoria e 'folha-seca' |

Se fossem integrantes de um regimento militar, ZITO
e DIDI seriam a dupla responsável pelo funcionamento
dos canhões – o primeiro traz a munição, o
segundo efetua os disparos. Zito, 31 anos, médio-volante
do Santos, é mestre em cercar o adversário, tomar-lhe
a bola e entregar o balão aos armadores. Já Didi,
28 anos, grande maestro do time do Botafogo, é o encarregado
de fazer funcionar todo o ataque. É dele que partem os lançamentos
precisos para Garrincha, Pelé e Vavá – ou, quando
a defesa vacila, os tiros de longa distância contra a meta
adversária. Dono de um chute inimitável, a fantástica
"folha seca", Didi foi o cérebro da seleção
durante toda a aventura sueca. Zito, que entrou apenas no terceiro
jogo, contra a União Soviética, tornou-se o ponto
de equilíbrio da equipe – nosso futebol cresceu tanto que
ele agarrou de vez a camisa titular.
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| Comissão de frente: festa para Vavá |

O trabalho podia parecer fácil: empurrar para o fundo
das redes as bolas que chegavam após as tramas geniais costuradas
por Didi, Pelé e Garrincha. Mas a missão dos avantes
VAVÁ e MAZZOLA estava longe de ser um passeio
no parque. Na Copa, os avançados brasileiros depararam-se
com zagueiros de espantosa força física (além
de modos nada delicados). Eles eram verdadeiros touros, e exigia-se
coragem de quem fosse enfrentá-los. Mazzola, 19 anos, jogador
do Palmeiras, começou o Mundial como titular. Marcou duas
vezes logo na estréia, contra a Áustria. Mas os rumores
de que estaria negociando uma transferência para o futebol
da Itália irritaram a comissão técnica, que
o colocou na geladeira depois das várias chances de gol perdidas
no jogo contra a Inglaterra. Nas quartas-de-final, contra os galeses,
Mazzola ganhou nova chance e não decepcionou. Mas o grande
artilheiro da seleção na Suécia foi o vascaíno
Vavá, de 23 anos. Destemido e brigador, fez frente aos gigantes
europeus e marcou cinco gols – incluindo os dois da vitória
contra os soviéticos e outros dois tentos na final. É
justa uma menção honrosa a ZAGALO, de 26 anos,
ponta-esquerda do Flamengo. Titular do escrete do primeiro ao último
minuto da Copa, fez um trabalho de formiguinha, recuando à
meia-cancha para ajudar na marcação e dar mais liberdade
aos artistas do ataque. Ainda foi premiado com um gol na final,
seu único no certame.
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| O rotundo Feola: sempre acordado |

Impassível e bonachão (mas profundo conhecedor
de bola), VICENTE ÍTALO FEOLA foi uma escolha inesperada
para o comando técnico da seleção na Copa do
Mundo. Ele havia largado a função de treinador em
seu time, o São Paulo, por sofrer de problemas cardíacos
– o gorducho comandante, 48 anos e mais de 100 quilos, fora promovido
a supervisor do clube (com o cargo de técnico de campo entregue
ao húngaro Bela Gutman). Feola conduziu sua equipe com discrição
e tenacidade na Copa, mas ficou marcado por um injusto boato: o
de que pegava no sono durante treinos e até jogos. Ficou
difícil desmentir a história depois que fotógrafos
flagraram o comandante de olhos cerrados em pleno banco. Na comissão
técnica todos sabem, porém, que Feola sofre de angina.
Quando abaixa a cabeça e fecha os olhos, está apenas
esperando a angustiante dor no peito passar. De qualquer forma,
Feola parecia não ligar para a boataria. Paulo Machado de
Carvalho também não se importava. Afinal, o cartola
conhecia o técnico de longa data e sabia muito bem do que
Feola era capaz: montar um time bem arrumado, trabalhar sem alarde
e manter uma convivência agradável com todo o elenco
de jogadores.
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