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Edição Extra: PERFIL
VEJA, junho de 1958
Mané Garrincha, o alquimista das fintas,
conseguiu o que
ninguém acreditava ser possível: fazer a torcida da casa torcer
pelo
Brasil. O arisco ponteiro deu um banho nos zagueiros
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| Chinelada no 'Aranha Negra': Mané Garrincha
estréia no Mundial e solta a bomba contra a meta do soviético
Yashin |
O grande xodó da torcida sueca na Copa foi um brasileiro
de pernas tortas e fintas mágicas: Mané Garrincha,
o principal artista do certame. Menos escandinavo que ele, impossível
– descendente de índios, mirrado, galhofeiro e nada profissional,
o ponta-direita do Botafogo é tudo o que os anfitriões
da Copa não estão acostumados a ver num estádio
de futebol. Ao contrário dos discípulos da escola
sueca, pragmática e sem rodeios, Garrincha tem um estilo
de jogo esfuziante. Sua forma de atuar é marcada por uma
verdadeira obsessão: o drible. Na cabeça do ponteiro,
o objetivo do jogo é entortar, desmoralizar e desorientar
o maior número possível de adversários. Se
os dribles o levarem à linha de fundo, ótimo: Garrincha
procura um avante na grande área e presenteia o colega com
o esférico. Se o caminho das fintas o conduzir até
o gol, ainda melhor – o craque tem um canhão no pé
direito e também costuma guardar seus tentos (ainda que na
Copa não tenha marcado nenhum). Garrincha participou de quatro
partidas do Mundial. Desde que entrou, transformou a feição
do jogo do Brasil e o destino da seleção no torneio.
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| Dupla infernal: Mané e Pelé
no vestiário |
Revelado pelo Botafogo em 1953, Garrincha, de 24 anos, já
fazia a alegria da torcida no Rio de Janeiro havia tempos. Defendendo
a seleção, entretanto, ele jamais tinha conseguido
ser o mesmo ponteiro contundente e endiabrado que se apresentava
pelo clube. Em função disso, seu nome não aparecia
na lista dos mais cotados para disputar a Copa no início
deste ano. O titular mais freqüente vinha sendo Joel, do Flamengo.
E ainda havia Julinho, da Fiorentina, o maior ponta-direita brasileiro
(pelo menos até a participação de Garrincha
no Mundial). É um fato raro a CBD convocar à seleção
atletas que militam em clubes do exterior. Mas Julinho era exceção
à regra – seria, se tudo corresse dentro do previsto, o titular
absoluto da posição na Suécia. Em carta enviada
à confederação, o atleta, um rapaz de caráter
exemplar, agradeceu pelo convite, mas rejeitou a chamada. Para o
craque, seria uma injustiça roubar o doce da boca de outro
ponteiro em atividade no país, tirando a vaga de alguém
que vinha participando de toda a preparação bem na
hora de disputar a Copa do Mundo. E foi assim, como uma segunda
opção, que Garrincha foi parar na Suécia.
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| Show com bis: contra a Suécia, Garrincha
deu dois gols de presente a Vavá |
Trupe malabarista - Matreiro, descompromissado e sem apreço
algum pelas estratégias, Garrincha não participou
das duas primeiras partidas da seleção. A comissão
técnica temia que ele não seguisse orientação
nenhuma e acabasse prejudicando a dinâmica do resto da equipe.
Contra a Áustria, por exemplo, era necessário que
nosso ponta-direita ajudasse na marcação. Que ninguém
esperasse isso de Garrincha. O disciplinado Joel cumpriu o papel
direitinho – idem contra os ingleses. Mas no terceiro jogo, contra
os russos, chegava a hora de surpreender e chocar os oponentes.
A seleção começou a partida com uma ordem expressa
do técnico Vicente Feola: a bola devia ser entregue a Garrincha,
o novo titular, que trataria de assustar os soviéticos com
seu ritmo frenético. Deu certo: os rivais bateram cabeça
e, de quebra, os bailados de Garrincha ainda conquistaram a simpatia
da torcida local.
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| Mané atropela: um canhão no
pé direito |
Seria assim até o final. A imprensa da Suécia passou
a anunciar as partidas seguintes do Brasil como se fossem espetáculos
de uma trupe de malabaristas, com o abusado Mané Garrincha
à frente. Quando ele recebia a bola, o estádio todo
congelava na expectativa do drible. Depois, com os zagueiros batidos
e atordoados, a torcida ria e aplaudia efusivamente. A contribuição
de Garrincha, no entanto, não ficou restrita a esses momentos
de diversão. É justo dizer que, sem o ponta-direita,
a taça poderia ter escapado das mãos dos brasileiros.
Na final, Garrincha só não fez chover porque Estocolmo
já fora castigada por um temporal na manhã da partida.
Depois que a Suécia abriu o placar, Garrincha fez duas vezes
a mesma jogada: atropelou três defensores, foi à linha
de fundo e cruzou para Vavá. Dois gols quase idênticos e uma
virada brasileira. Os lances ainda convenceram boa parte da torcida
sueca a trocar de lado e vibrar com o selecionado visitante. Só
mesmo um mágico para tirar da cartola um truque tão
improvável e surpreendente.
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