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Edição Extra: A CAMPANHA
VEJA, junho de 1958
Entre Uddevalla, Gotemburgo e Estocolmo,
o escrete
venceu cinco jogos e empatou só um. O campeão invicto duelou
com seis seleções européias – e alcançou uma façanha inédita
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| Pelé contra os 'super-homens':os primeiros
minutos do embate com os soviéticos já entraram
para a história do futebol |
A estupenda campanha da seleção brasileira na Suécia
foi marcada por uma peculiaridade: da estréia até
a final, o escrete só enfrentou selecionados europeus. Mesmo
duelando com esses perigosos rivais no continente deles, o Brasil
sempre impôs seu jogo e seu ritmo como se estivesse recebendo
ingleses, russos e franceses no Maracanã ou no Pacaembu.
A cadência envolvente e a habilidade ímpar dos nossos
craques fizeram a torcida virar a casaca – até na decisão,
contra os donos da casa, a platéia escandinava vibrava e
se divertia com o futebol brasileiro. Foram seis jogos em três
estádios diferentes, com cinco vitórias e só
um empate; dezesseis gols marcados e só quatro gols sofridos
(a melhor defesa do certame). Campeão invicto, o esquadrão
brasileiro quebrou uma escrita e logrou uma façanha inédita:
nas cinco primeiras Copas do Mundo, o ganhador foi sempre uma seleção
do continente que abrigava o campeonato. Isso até o Brasil
se tornar o penetra mais amado da grande festa do futebol mundial.
A seguir, os passos dessa escalada heróica.
8 de junho, Uddevalla: Brasil 3 x 0 Áustria
Quem vê o placar do embate com os austríacos pode
achar que o Brasil já começou a Copa atropelando quem
viesse pela frente. Um engano: o selecionado vienense engrossou
o jogo e vendeu muito caro a derrota. Na meia hora inicial, nervos
à flor da pele. O escrete demorava a engrenar e esbarrava
nos reflexos apurados do arqueiro Szanwald. Aos 38 minutos, porém,
o avante Mazzola foi servido por Zagalo e fuzilou o quíper
da Áustria. Com o primeiro tento anotado, o quadro clareou
para o Brasil. O rival teve de avançar sua formação
e abriu mais espaços para os nossos craques. No começo
da segunda etapa, o velho e bom Nilton Santos disparou pelo lado
esquerdo e arrematou a gol: Brasil 2 a 0. Mazzola fechou o marcador
no penúltimo minuto. Muito antes, os austríacos já
tinham desistido de valsar: frustrados com o resultado adverso,
começaram a distribuir pontapés e provocações.
Mas a seleção manteve o sangue frio e fechou sua estréia
na liderança do grupo 4 do Mundial.
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Brasil:
Gilmar; De Sordi, Bellini, Orlando e Nilton
Santos; Dino Sani e Didi; Joel, Mazzola, Dida e
Zagallo (Técnico: Vicente Feola)
Áustria: Szanwald; Halla, Swoboda
e Hanappi; Happel e Koller; Horak, Senekowitsch,
Buzek, Körner e Schleger (Técnico: Karl
Argauer)
Local: Estádio Rimnersvallen (Uddevalla)
Público: 25.000 pessoas
Árbitragem: Maurice Guigue (França),
Jan Bronkhorst (Holanda) e Albert Dusch (Alemanha)
Gols: Mazzola, 38min do 1º tempo; Nilton
Santos, 4min, e Mazzola, 44min do 2º tempo
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11 de junho, Gotemburgo: Brasil 0 x
0 Inglaterra

O selecionado inglês provocava arrepios nos brasileiros.
Ainda estava fresca na memória a derrota de dois anos atrás
(Inglaterra 4 a 2, em Wembley), quando a nossa equipe, tímida
e temerosa, se encolheu frente ao quadro da casa. Por causa de uma
chocante tragédia, porém, a Inglaterra que desembarcou
na Suécia estava desfigurada. Em fevereiro último,
um avião que transportava a delegação do Manchester
United se acidentou no aeroporto de Munique, na Alemanha. Oito atletas
do clube inglês morreram e dois tiveram suas carreiras encerradas
precocemente. A seleção perdeu atletas como Taylor,
Edwards e Byrne, e teve de convocar veteranos que participaram do
vexame inglês no Mundial de 1950, como Finney e Wright. Na
peleja de Gotemburgo, o Brasil foi senhor absoluto das ações.
O marcador zerado pode ser atribuído a um novo candidato
a santo da Igreja Anglicana: o lépido goleiro McDonald, que
agarrou bolas que pareciam impossíveis e ainda contou com
a sorte (o Brasil esbarrou duas vezes na trave). O escrete jogou
melhor que na estréia e manteve a liderança do grupo,
mas o técnico Feola ficou possesso com tantos gols perdidos.
Na mira das críticas estava Mazzola: o palmeirense é
cobiçado por equipes italianas e, conforme alguns integrantes
da comissão técnica, andava pensando mais nas liras
que pode embolsar do que nos gols que foi encarregado de marcar.
Era um sinal de que Feola ensaiava mexer no time.
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Brasil:
Gilmar; De Sordi, Bellini, Orlando e Nilton
Santos; Dino Sani e Didi; Joel, Mazzola, Vavá
e Zagallo (Técnico: Vicente Feola)
Inglaterra: McDonald; Howe e Banks; Clamp, Wright
e Slater; Douglas, Robson, Kevan, Haynes e A'Court
(Técnico: Walter Winterbottom)
Local: Estádio Nya Ullevi (Gotemburgo)
Público: 30.000 pessoas
Arbitragem: Albert Dusch (Alemanha), Bertil
Loeoew (Suécia) e Istvan Zsolt (Hungria)
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15 de junho, Gotemburgo: Brasil 2 x 0 União
Soviética

Chegava a hora de decidir a classificação contra
o futebol científico dos soviéticos. O Brasil entrou
no gramado do estádio Nya Ullevi com três novidades:
Zito, implacável na marcação da meia-cancha,
e os talentosos Pelé e Garrincha, grandes esperanças
da torcida nacional. O resultado foi extraordinário. Nem
mesmo as muralhas do Kremlin seriam capazes de resistir ao bombardeio
inclemente do ataque brasileiro no início da partida. O famoso
goleiro Lev Yashin viu-se desamparado diante do poderio ofensivo
dos adversários. A jornada brasileira foi tão inspirada
que os russos, que chegaram com a reputação de super-heróis
invencíveis, pareciam não acreditar na humilhação
a que estavam sendo submetidos. A imprensa local e internacional
também não acreditava que o Brasil tivesse mantido
na reserva a infernal dupla formada por Pelé e Garrincha.
O menino do Santos, contudo, ainda se recuperava de lesão
(leia reportagem nesta edição). Já Garrincha,
do Botafogo, vinha sendo guardado para um momento delicado como
este, em que o Brasil precisava ousar e surpreender para seguir
na briga pela taça. De uma coisa ninguém mais duvidava:
os dois tinham entrado no time para não sair mais.
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Brasil:
Gilmar; De Sordi, Bellini, Orlando e Nilton
Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Pelé
e Zagallo (Técnico: Vicente Feola)
União Soviética: Yashin; Kesarev,
Kuznetsov e Voinov; Krijevski e Tsarev; Aleksander
Ivanov, Valentin Ivanov, Simonian, Igor Netto e
Ilyin (Técnico: Gavril Katchaline)
Local: Estádio Nya Ullevi (Gotemburgo)
Público: 50.000 pessoas
Arbitragem: Maurice Guigue (França),
Birger Nielsen (Noruega) e Carl Jorgensen (Dinamarca)
Gols: Vavá, 3min do 1º tempo; Vavá,
32min do 2º tempo |
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19 de junho, Gotemburgo: Brasil 1
x 0 País de Gales

O primeiro choque eliminatório da seleção
na Suécia foi de altíssima tensão. O embate
de quartas-de-final contra os galeses poderia significar a volta
para casa e uma nova decepção. A importância
da partida deixou a equipe e a torcida com os nervos à flor
da pele. Para complicar ainda mais a situação, o escrete
se via outra vez diante de uma muralha britânica. Assim como
o inglês McDonald, o galês Kelsey parecia ser feito
de borracha. Fez mais de vinte defesas na partida, contra duas ou
três de Gilmar. O que não quer dizer que o Brasil não
passou sustos: Allchurch chegou a acertar a trave de Gilmar. O Brasil
também saiu de campo inconformado com a arbitragem de Friedrich
Seipelt. O homem de preto, austríaco, deixou de anotar dois
pênaltis escandalosos – e depois ainda anulou um golaço
de bicicleta de Mazzola (menos distraído com as liras italianas
e de volta ao time por causa de uma lesão de Vavá).
O Brasil seguiu adiante na Copa graças a Pelé, que
marcou seu primeiro tento no Mundial. Anotado o gol, o guri genial
agarrou-se ao esférico no fundo das redes enquanto era abraçado
pelos companheiros. Faltavam dois jogos para o Brasil conquistar
o mundo.
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Brasil:
Gilmar; De Sordi, Bellini, Orlando e Nilton
Santos; Zito e Didi; Garrincha, Mazzola, Pelé
e Zagallo (Técnico: Vicente Feola)
País de Gales: Kelsey; Williams e Hopkins;
Sullivan, Mel Charles e Bowen; Medwin, Hewitt, Webster,
Allchurch e Jones (Técnico: Jimmy Murphy)
Local: Estádio Nya Ullevi (Gotemburgo)
Público: 25.000 pessoas
Arbitragem: Friedrich Seipelt (Áustria),
Albert Dusch (Alemanha) e Maurice Guigue (França)
Gol: Pelé, 13min do 2º tempo |
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24 de junho, Estocolmo: Brasil 5 x 2 França

A semifinal, marcada para o estádio Rasunda, podia ser considerada
uma decisão antecipada do certame – afinal, colocava frente
à frente a melhor defesa (do Brasil, ainda não vazada)
e o melhor ataque (o da França, com quinze tentos anotados).
Se os brasileiros contavam com Didi municiando Garrincha e Pelé,
os franceses tinham Kopa preparando as jogadas para as conclusões
fulminantes de Just Fontaine, oito gols na Copa. Nosso escrete já
sabia que seria quase impossível escapar ileso de um duelo
com Fontaine. Era necessário, portanto, ter um ataque ainda
mais contundente que o dos rivais. E foi o que aconteceu em Estocolmo.
Vavá, acionado por Garrincha, apresentou o cartão
de visitas brasileiro logo no segundo minuto, fazendo 1 a 0. O matador
francês respondeu cinco minutos depois, furando pela primeira
vez a defesa brasileira no Mundial. A arbitragem não validou
um gol de Zagalo aos 14, mas não foi preciso lamentar: Didi,
com sua inconfundível "folha-seca", colocou o Brasil
na frente no fim da primeira etapa. O segundo tempo foi todo nosso:
numa reedição do show contra os russos, a seleção
marcou mais três, todos com Pelé. Os defensores gauleses
se enervaram e, como de costume nas partidas recentes do Brasil,
abusaram da violência. Mas quem conhece de bola se curvou
ao talento do rival. O fabuloso Just Fontaine, espantado com Pelé,
foi de encontro ao brasileiro para aplaudi-lo e cumprimentá-lo
depois do último gol. E Kopa, de cabeça inchada pela
tempestade de gols, previu que ninguém tiraria a taça
da nossa seleção.
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Brasil:
Gilmar; De Sordi, Bellini, Orlando e Nilton
Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Pelé
e Zagallo (Técnico: Vicente Feola)
França: Abbes; Kaelbel e Lerond; Penverne,
Jonquet e Marcel; Wisnieski, Fontaine, Kopa, Piantoni
e Vincent (Técnico: Albert Batteaux)
Local: Estádio Rasunda (Estocolmo)
Público: 27.000 pessoas
Arbitragem: Benjamin Griffiths (País
de Gales), Raymon Wyssling (Suíça)
e Reginald Leafe (Inglaterra)
Gols: Vavá, 2min, Fontaine, 9min, e Didi,
39min do 1º tempo; Pelé, 8min, 19min
e 31min, e Piantoni, 38min do 2º tempo |
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29 de junho, Estocolmo: Brasil 5 x 2 Suécia

A contar pelo futebol apresentado pelas duas seleções
no Mundial, só havia duas fórmulas capazes de derrotar
o Brasil frente à Suécia: uma dose exagerada de confiança,
que pudesse transbordar num clima de já ganhou, ou a escassez
de fibra e coragem, que colocasse tudo a perder logo na primeiro
momento desfavorável. Do primeiro problema a comissão
técnica se livrou com relativa facilidade: fechou a concentração,
em Hindas, e evitou que os jogadores fossem expostos às notícias
excessivamente otimistas que circulavam pelo país. Os jornais
e revistas brasileiros eram itens proibidos no hotel. A segunda
preocupação se evaporou logo no começo da decisão
da Copa. O Brasil tomou o primeiro gol, logo aos 4 minutos. Mas
os futuros campeões do mundo não se abateram. Quatro
minutos depois, empataram o placar e deram a partida para a goleada.
O tempo chuvoso, o gramado enlameado, a torcida sueca – nada atrapalharia
nossa conquista. Vavá virou o jogo, Pelé marcou outro,
Zagalo deixou o seu e Pelé anotou o último, no lance
que encerrou a Copa, perto dos 45 minutos do segundo tempo. Às
lágrimas, os heróis se abraçavam. Aplaudidos
por toda a platéia, que celebrava como se fosse a Suécia
a campeã, eles desfilaram pelo gramado do Rasunda carregando
um estandarte do país-sede. O rei Gustavo VI estava no campo,
mas a verdadeira majestade era o futebol do Brasil.
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Brasil:
Gilmar; Djalma Santos, Bellini, Orlando e Nilton
Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Pelé
e Zagallo (Técnico: Vicente Feola)
Suécia: Karl Svensson; Bergmark e Axbom;
Börjesson; Gustavsson e Parling; Hamrin, Gren,
Simonsson, Liedholm e Skoglund (Técnico:
George Raynor)
Local: Estádio Rasunda (Estocolmo)
Público: 51.800 pessoas
Arbitragem: Maurice Guigue (França),
Albert Dusch (Alemanha) e Juan Gardeazabal (Espanha)
Gols: Liedholm, 4min, Vavá, 9min e 32min
do 1º tempo; Pelé, 10min, Zagallo, 23min,
Simonsson, 35min, e Pelé, 45min do 2º
tempo |
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