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  COPA DE 1958
NESTA EDIÇÃO
O Brasil é campeão do mundo
  Uma campanha quase perfeita
    Brasil 3 x 0 Áustria
Brasil 0 x 0 Inglaterra
Brasil 2 x 0 União Soviética
Brasil 1 x 0 País de Gales
Brasil 5 x 2 França
Brasil 5 x 2 Suécia
  A preparação inédita da equipe
  O fenômeno Pelé, de 17 anos
  Garrincha, alegria dos suecos
  Talento em campo e fora dele
    O goleiro Gilmar
Na zaga, Bellini e De Sordi
O lateral Nilton Santos
No meio, Zito e Didi
Um ataque poderoso
O técnico Vicente Feola
VÍDEOS
 
Índice
Edição Extra: A CAMPANHA
VEJA, junho de 1958
Entre Uddevalla, Gotemburgo e Estocolmo, o escrete
venceu cinco jogos e empatou só um. O campeão invicto duelou
com seis seleções européias – e alcançou uma façanha inédita
Pelé contra os 'super-homens':os primeiros minutos do embate com os soviéticos já entraram para a história do futebol

A estupenda campanha da seleção brasileira na Suécia foi marcada por uma peculiaridade: da estréia até a final, o escrete só enfrentou selecionados europeus. Mesmo duelando com esses perigosos rivais no continente deles, o Brasil sempre impôs seu jogo e seu ritmo como se estivesse recebendo ingleses, russos e franceses no Maracanã ou no Pacaembu. A cadência envolvente e a habilidade ímpar dos nossos craques fizeram a torcida virar a casaca – até na decisão, contra os donos da casa, a platéia escandinava vibrava e se divertia com o futebol brasileiro. Foram seis jogos em três estádios diferentes, com cinco vitórias e só um empate; dezesseis gols marcados e só quatro gols sofridos (a melhor defesa do certame). Campeão invicto, o esquadrão brasileiro quebrou uma escrita e logrou uma façanha inédita: nas cinco primeiras Copas do Mundo, o ganhador foi sempre uma seleção do continente que abrigava o campeonato. Isso até o Brasil se tornar o penetra mais amado da grande festa do futebol mundial. A seguir, os passos dessa escalada heróica.


8 de junho, Uddevalla: Brasil 3 x 0 Áustria

Quem vê o placar do embate com os austríacos pode achar que o Brasil já começou a Copa atropelando quem viesse pela frente. Um engano: o selecionado vienense engrossou o jogo e vendeu muito caro a derrota. Na meia hora inicial, nervos à flor da pele. O escrete demorava a engrenar e esbarrava nos reflexos apurados do arqueiro Szanwald. Aos 38 minutos, porém, o avante Mazzola foi servido por Zagalo e fuzilou o quíper da Áustria. Com o primeiro tento anotado, o quadro clareou para o Brasil. O rival teve de avançar sua formação e abriu mais espaços para os nossos craques. No começo da segunda etapa, o velho e bom Nilton Santos disparou pelo lado esquerdo e arrematou a gol: Brasil 2 a 0. Mazzola fechou o marcador no penúltimo minuto. Muito antes, os austríacos já tinham desistido de valsar: frustrados com o resultado adverso, começaram a distribuir pontapés e provocações. Mas a seleção manteve o sangue frio e fechou sua estréia na liderança do grupo 4 do Mundial.

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Brasil: Gilmar; De Sordi, Bellini, Orlando e Nilton Santos; Dino Sani e Didi; Joel, Mazzola, Dida e Zagallo (Técnico: Vicente Feola)
Áustria: Szanwald; Halla, Swoboda e Hanappi; Happel e Koller; Horak, Senekowitsch, Buzek, Körner e Schleger (Técnico: Karl Argauer)

Local: Estádio Rimnersvallen (Uddevalla)
Público: 25.000 pessoas
Árbitragem: Maurice Guigue (França), Jan Bronkhorst (Holanda) e Albert Dusch (Alemanha)
Gols: Mazzola, 38min do 1º tempo; Nilton Santos, 4min, e Mazzola, 44min do 2º tempo

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11 de junho, Gotemburgo: Brasil 0 x 0 Inglaterra

O selecionado inglês provocava arrepios nos brasileiros. Ainda estava fresca na memória a derrota de dois anos atrás (Inglaterra 4 a 2, em Wembley), quando a nossa equipe, tímida e temerosa, se encolheu frente ao quadro da casa. Por causa de uma chocante tragédia, porém, a Inglaterra que desembarcou na Suécia estava desfigurada. Em fevereiro último, um avião que transportava a delegação do Manchester United se acidentou no aeroporto de Munique, na Alemanha. Oito atletas do clube inglês morreram e dois tiveram suas carreiras encerradas precocemente. A seleção perdeu atletas como Taylor, Edwards e Byrne, e teve de convocar veteranos que participaram do vexame inglês no Mundial de 1950, como Finney e Wright. Na peleja de Gotemburgo, o Brasil foi senhor absoluto das ações. O marcador zerado pode ser atribuído a um novo candidato a santo da Igreja Anglicana: o lépido goleiro McDonald, que agarrou bolas que pareciam impossíveis e ainda contou com a sorte (o Brasil esbarrou duas vezes na trave). O escrete jogou melhor que na estréia e manteve a liderança do grupo, mas o técnico Feola ficou possesso com tantos gols perdidos. Na mira das críticas estava Mazzola: o palmeirense é cobiçado por equipes italianas e, conforme alguns integrantes da comissão técnica, andava pensando mais nas liras que pode embolsar do que nos gols que foi encarregado de marcar. Era um sinal de que Feola ensaiava mexer no time.

Brasil: Gilmar; De Sordi, Bellini, Orlando e Nilton Santos; Dino Sani e Didi; Joel, Mazzola, Vavá e Zagallo (Técnico: Vicente Feola)
Inglaterra:
McDonald; Howe e Banks; Clamp, Wright e Slater; Douglas, Robson, Kevan, Haynes e A'Court (Técnico: Walter Winterbottom)

Local:
Estádio Nya Ullevi (Gotemburgo)
Público:
30.000 pessoas
Arbitragem:
Albert Dusch (Alemanha), Bertil Loeoew (Suécia) e Istvan Zsolt (Hungria)

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15 de junho, Gotemburgo: Brasil 2 x 0 União Soviética

Chegava a hora de decidir a classificação contra o futebol científico dos soviéticos. O Brasil entrou no gramado do estádio Nya Ullevi com três novidades: Zito, implacável na marcação da meia-cancha, e os talentosos Pelé e Garrincha, grandes esperanças da torcida nacional. O resultado foi extraordinário. Nem mesmo as muralhas do Kremlin seriam capazes de resistir ao bombardeio inclemente do ataque brasileiro no início da partida. O famoso goleiro Lev Yashin viu-se desamparado diante do poderio ofensivo dos adversários. A jornada brasileira foi tão inspirada que os russos, que chegaram com a reputação de super-heróis invencíveis, pareciam não acreditar na humilhação a que estavam sendo submetidos. A imprensa local e internacional também não acreditava que o Brasil tivesse mantido na reserva a infernal dupla formada por Pelé e Garrincha. O menino do Santos, contudo, ainda se recuperava de lesão (leia reportagem nesta edição). Já Garrincha, do Botafogo, vinha sendo guardado para um momento delicado como este, em que o Brasil precisava ousar e surpreender para seguir na briga pela taça. De uma coisa ninguém mais duvidava: os dois tinham entrado no time para não sair mais.

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Brasil: Gilmar; De Sordi, Bellini, Orlando e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo (Técnico: Vicente Feola)
União Soviética:
Yashin; Kesarev, Kuznetsov e Voinov; Krijevski e Tsarev; Aleksander Ivanov, Valentin Ivanov, Simonian, Igor Netto e Ilyin (Técnico: Gavril Katchaline)

Local:
Estádio Nya Ullevi (Gotemburgo)
Público:
50.000 pessoas
Arbitragem:
Maurice Guigue (França), Birger Nielsen (Noruega) e Carl Jorgensen (Dinamarca)
Gols:
Vavá, 3min do 1º tempo; Vavá, 32min do 2º tempo

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19 de junho, Gotemburgo: Brasil 1 x 0 País de Gales

O primeiro choque eliminatório da seleção na Suécia foi de altíssima tensão. O embate de quartas-de-final contra os galeses poderia significar a volta para casa e uma nova decepção. A importância da partida deixou a equipe e a torcida com os nervos à flor da pele. Para complicar ainda mais a situação, o escrete se via outra vez diante de uma muralha britânica. Assim como o inglês McDonald, o galês Kelsey parecia ser feito de borracha. Fez mais de vinte defesas na partida, contra duas ou três de Gilmar. O que não quer dizer que o Brasil não passou sustos: Allchurch chegou a acertar a trave de Gilmar. O Brasil também saiu de campo inconformado com a arbitragem de Friedrich Seipelt. O homem de preto, austríaco, deixou de anotar dois pênaltis escandalosos – e depois ainda anulou um golaço de bicicleta de Mazzola (menos distraído com as liras italianas e de volta ao time por causa de uma lesão de Vavá). O Brasil seguiu adiante na Copa graças a Pelé, que marcou seu primeiro tento no Mundial. Anotado o gol, o guri genial agarrou-se ao esférico no fundo das redes enquanto era abraçado pelos companheiros. Faltavam dois jogos para o Brasil conquistar o mundo.

Video
Brasil: Gilmar; De Sordi, Bellini, Orlando e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Mazzola, Pelé e Zagallo (Técnico: Vicente Feola)
País de Gales:
Kelsey; Williams e Hopkins; Sullivan, Mel Charles e Bowen; Medwin, Hewitt, Webster, Allchurch e Jones (Técnico: Jimmy Murphy)

Local:
Estádio Nya Ullevi (Gotemburgo)
Público:
25.000 pessoas
Arbitragem:
Friedrich Seipelt (Áustria), Albert Dusch (Alemanha) e Maurice Guigue (França)
Gol:
Pelé, 13min do 2º tempo

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24 de junho, Estocolmo: Brasil 5 x 2 França

A semifinal, marcada para o estádio Rasunda, podia ser considerada uma decisão antecipada do certame – afinal, colocava frente à frente a melhor defesa (do Brasil, ainda não vazada) e o melhor ataque (o da França, com quinze tentos anotados). Se os brasileiros contavam com Didi municiando Garrincha e Pelé, os franceses tinham Kopa preparando as jogadas para as conclusões fulminantes de Just Fontaine, oito gols na Copa. Nosso escrete já sabia que seria quase impossível escapar ileso de um duelo com Fontaine. Era necessário, portanto, ter um ataque ainda mais contundente que o dos rivais. E foi o que aconteceu em Estocolmo. Vavá, acionado por Garrincha, apresentou o cartão de visitas brasileiro logo no segundo minuto, fazendo 1 a 0. O matador francês respondeu cinco minutos depois, furando pela primeira vez a defesa brasileira no Mundial. A arbitragem não validou um gol de Zagalo aos 14, mas não foi preciso lamentar: Didi, com sua inconfundível "folha-seca", colocou o Brasil na frente no fim da primeira etapa. O segundo tempo foi todo nosso: numa reedição do show contra os russos, a seleção marcou mais três, todos com Pelé. Os defensores gauleses se enervaram e, como de costume nas partidas recentes do Brasil, abusaram da violência. Mas quem conhece de bola se curvou ao talento do rival. O fabuloso Just Fontaine, espantado com Pelé, foi de encontro ao brasileiro para aplaudi-lo e cumprimentá-lo depois do último gol. E Kopa, de cabeça inchada pela tempestade de gols, previu que ninguém tiraria a taça da nossa seleção.

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Brasil: Gilmar; De Sordi, Bellini, Orlando e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo (Técnico: Vicente Feola)
França:
Abbes; Kaelbel e Lerond; Penverne, Jonquet e Marcel; Wisnieski, Fontaine, Kopa, Piantoni e Vincent (Técnico: Albert Batteaux)

Local:
Estádio Rasunda (Estocolmo)
Público:
27.000 pessoas
Arbitragem:
Benjamin Griffiths (País de Gales), Raymon Wyssling (Suíça) e Reginald Leafe (Inglaterra)
Gols:
Vavá, 2min, Fontaine, 9min, e Didi, 39min do 1º tempo; Pelé, 8min, 19min e 31min, e Piantoni, 38min do 2º tempo

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29 de junho, Estocolmo: Brasil 5 x 2 Suécia

A contar pelo futebol apresentado pelas duas seleções no Mundial, só havia duas fórmulas capazes de derrotar o Brasil frente à Suécia: uma dose exagerada de confiança, que pudesse transbordar num clima de já ganhou, ou a escassez de fibra e coragem, que colocasse tudo a perder logo na primeiro momento desfavorável. Do primeiro problema a comissão técnica se livrou com relativa facilidade: fechou a concentração, em Hindas, e evitou que os jogadores fossem expostos às notícias excessivamente otimistas que circulavam pelo país. Os jornais e revistas brasileiros eram itens proibidos no hotel. A segunda preocupação se evaporou logo no começo da decisão da Copa. O Brasil tomou o primeiro gol, logo aos 4 minutos. Mas os futuros campeões do mundo não se abateram. Quatro minutos depois, empataram o placar e deram a partida para a goleada. O tempo chuvoso, o gramado enlameado, a torcida sueca – nada atrapalharia nossa conquista. Vavá virou o jogo, Pelé marcou outro, Zagalo deixou o seu e Pelé anotou o último, no lance que encerrou a Copa, perto dos 45 minutos do segundo tempo. Às lágrimas, os heróis se abraçavam. Aplaudidos por toda a platéia, que celebrava como se fosse a Suécia a campeã, eles desfilaram pelo gramado do Rasunda carregando um estandarte do país-sede. O rei Gustavo VI estava no campo, mas a verdadeira majestade era o futebol do Brasil.

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Brasil: Gilmar; Djalma Santos, Bellini, Orlando e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo (Técnico: Vicente Feola)
Suécia:
Karl Svensson; Bergmark e Axbom; Börjesson; Gustavsson e Parling; Hamrin, Gren, Simonsson, Liedholm e Skoglund (Técnico: George Raynor)

Local:
Estádio Rasunda (Estocolmo)
Público:
51.800 pessoas
Arbitragem:
Maurice Guigue (França), Albert Dusch (Alemanha) e Juan Gardeazabal (Espanha)
Gols:
Liedholm, 4min, Vavá, 9min e 32min do 1º tempo; Pelé, 10min, Zagallo, 23min, Simonsson, 35min, e Pelé, 45min do 2º tempo
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