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  COPA DE 1958
NESTA EDIÇÃO
O Brasil é campeão do mundo
  Uma campanha quase perfeita
    Brasil 3 x 0 Áustria
Brasil 0 x 0 Inglaterra
Brasil 2 x 0 União Soviética
Brasil 1 x 0 País de Gales
Brasil 5 x 2 França
Brasil 5 x 2 Suécia
  A preparação inédita da equipe
  O fenômeno Pelé, de 17 anos
  Garrincha, alegria dos suecos
  Talento em campo e fora dele
    O goleiro Gilmar
Na zaga, Bellini e De Sordi
O lateral Nilton Santos
No meio, Zito e Didi
Um ataque poderoso
O técnico Vicente Feola
VÍDEOS
 
Índice
Edição Extra: Brasil campeão
VEJA, junho de 1958
Uma seleção desacreditada revela o talento do brasileiro,
supera os temidos europeus, faz a torcida sorrir e conquista nossa
primeira Copa do Mundo. O pesadelo de 1950 terminou
O escrete de ouro: o técnico Feola, Djalma Santos, Zito, Bellini, Nilton Santos, Orlando e Gilmar; Garrincha, Didi, Pelé, Vavá e Zagallo

Foram 2.905 dias de cabeça baixa, ombros curvados e rabo entre as pernas. Durante 415 semanas, o jogador de futebol do Brasil zanzou pelos gramados estrangeiros sem saber ao certo do que era capaz. Temia descobrir sua própria identidade, pois acreditava que o drama de 1950 revelara sua fraqueza, sua covardia, sua inferioridade – o chamado "complexo de vira-latas", conforme a célebre definição do cronista Nelson Rodrigues na revista Manchete Esportiva. Na tarde do último dia 29, contudo, o escrete brasileiro mostrou pertencer à mais nobre das linhagens: a dos campeões do mundo. Noventa e cinco meses depois da mais doída tragédia da história esportiva do país, a seleção nacional enfim exorcizou os fantasmas que tiravam o sono de seus craques e assombravam seus sofridos torcedores desde a tragédia do Maracanã. Ainda não somos os maiorais da bola, é fato – os gigantes Uruguai e Itália, por exemplo, já conquistaram duas Copas cada um. Neste alegre junho de 1958, porém, ninguém mais duvida: o brasileiro é o melhor jogador de futebol do planeta.

A sensacional vitória na finalíssima contra a Suécia, no domingo – 5 a 2, placar jamais antes visto numa decisão de Copa do Mundo – lavou a alma dos brasileiros e tirou um monstruoso peso das costas dos ídolos da seleção. Afinal, todos ainda carregavam as duras lembranças da inacreditável derrota para os uruguaios, oito anos antes, no Mundial realizado no Brasil. Os jogadores, cada um a seu modo, estavam marcados pelo desastre. O lateral Nilton Santos, único remanescente do time de 1950, viu tudo de perto, do banco de reservas do Maracanã. O atleta mais velho da equipe (33 anos) chegou à Suécia sabendo que era sua última chance de superar o trauma. Se voltasse derrotado, possivelmente não retornaria à seleção. O ponta Zagalo também presenciara o Maracanazo no estádio – naquele tempo, era o praça Mário Jorge, de 18 anos, escalado pela Polícia do Exército para tomar conta da euforia dos 200.000 torcedores espremidos nas arquibancadas quando o Brasil ganhasse a taça. Zagalo não teve trabalho algum. A multidão esvaziou o gigante de concreto em meio a um silêncio sepulcral.

O começo da arrancada: uma vitória suada contra a Áustria, na partida de estréia

Longe dali, em Minas Gerais, o fatídico 16 de julho de 1950 também foi de tristeza para o menino Edson, então com 9 anos de idade. O guri mal sabia o que era Copa do Mundo, já que no torneio anterior, em 1938, nem era nascido. Mas ficou amargurado ao ver o pai, seu Dondinho, empapado de lágrimas depois do triunfo uruguaio. Edson, que naquele tempo era chamado de Dico, foi consolar Dondinho com a promessa de que um dia ganharia uma Copa do Mundo para alegrar o pai. Na final contra a Suécia, Dico, agora Pelé, fechou o marcador no último lance do jogo, fazendo seu sexto gol no Mundial. Entre todos os novos campeões, apenas um parecia imune ao trauma de 50. O ponteiro-direito Mané Garrincha, um rapagote de 16 anos no Mundial do Brasil, nem sequer ouviu a transmissão radiofônica da final contra o Uruguai. Preferiu uma pescaria em sua cidade, a minúscula Pau Grande, no interior do Rio de Janeiro. Só quando voltou do riacho é que soube da derrota. A vizinhança toda chorava, mas Mané deu de ombros – para ele, o luto pela perda da Copa era uma grande besteira.

No embarque para a Suécia, contudo, até mesmo o desligado e zombeteiro Garrincha notou que as memórias de 1950 (somadas à decepção do Mundial de 1954, na Suíça) seriam um obstáculo a mais no caminho do escrete. A equipe comandada pelo técnico Vicente Feola ainda não arrancava suspiros da torcida: passou apertado pelas Eliminatórias (contra o Peru, empate de 1 a 1 em Lima e vitória magra de 1 a 0 no Rio de Janeiro) e decepcionou no Sul-Americano de 1957 (levou duas sapatadas, de uruguaios e argentinos). Ainda assim, havia fartura de talento no elenco brasileiro, que reunia a categoria de um Didi, a experiência de um Nilton Santos, a segurança de um Bellini – além, é claro, do toque mágico dos novatos Garrincha e Pelé. Não adiantava: para cronistas e torcedores, a seleção embarcaria (em 25 de maio, num DC-7 da Panair), só para fazer turismo na Escandinávia. A crítica mais comum era de que o jogador brasileiro tinha espírito perdedor – não tinha fibra, era exageradamente humilde, se intimidava de forma vexaminosa diante de rivais estrangeiros. E quando tentava exibir alguma coragem, perdia a cabeça, se esquecia da bola e saía distribuindo caneladas e pontapés nos adversários (como na eliminação contra a Hungria de Puskas, na última Copa).

Quase lá: lance da final contra a Suécia

Garrincha contra a KGB - A seleção que pousará em solo brasileiro na próxima quarta-feira, 2 de julho (chegada prevista para Recife, depois de escalas e homenagens em Londres, Paris e Lisboa) não podia ser mais diferente das equipes que fracassaram no passado. Em 21 dias de participação na Copa (leia mais sobre a campanha nesta edição), o escrete não só venceu e convenceu como também encantou e fascinou os mais temíveis inimigos. Ingleses, russos e franceses ficaram pelo caminho – e aplaudiram a coroação dos novos reis da bola. O Brasil amargava a reputação de tremer frente à simples visão dos selecionados da Inglaterra ou da União Soviética, com seus esquadrões de atletas fortes, altos, loiros e destemidos. Temiam especialmente o pega com os soviéticos, logo na primeira fase. Antes da Copa, os camaradas vermelhos ganharam a fama de bichos-papões. Levaram o ouro na Olimpíada de Melbourne, em 1956, e foram à Suécia cobertos de lendas – treinavam quatro horas nas manhãs antes de cada partida; eram capazes de correr 180 minutos sem parar; tinham espiões da KGB de olho nos rivais e táticas científicas capazes de assegurar o triunfo contra qualquer oponente. Os brasileiros acreditavam que encontrariam super-homens no gramado – afinal, os russos já tinham até mandado um satélite artificial ao espaço, o Sputnik, em outubro do ano passado. Para um povo assim, derrotar onze brasileiros mirrados seria mais fácil que subir no bonde.

Pois foi justamente na partida contra a URSS, a terceira da seleção no Mundial, que o Brasil apresentou seu novo futebol ao planeta. Depois de uma vitória suada contra a competente seleção austríaca e de um empate sem gols contra os fortíssimos ingleses, o escrete nacional foi a campo com uma formação diferente: Zito, Pelé e Garrincha entraram nos lugares de Dino, Mazzola e Joel. O técnico Feola encontrara uma fórmula miraculosa. Junto do cerebral Didi, do astuto Zagalo e do vigoroso Vavá, os infernais Pelé e Garrincha formavam um ataque irresistível. E os soviéticos foram as primeiras vítimas. Os três minutos iniciais de jogo já entraram para a história do futebol. Com os russos pegos de calças curtas, o Brasil lançou um bombardeio sem precedentes contra a meta defendida pelo arqueiro Lev Yashin, o "aranha-negra". Aos 40 segundos, Garrincha já acertava a trave, depois de entortar três defensores soviéticos. Antes do primeiro minuto, Pelé já fuzilava o poste outra vez. Os suecos davam gargalhadas com os dribles dos brasileiros. O primeiro gol, de Vavá, aos 3 minutos, foi uma espécie de golpe de misericórdia – sufocados pela avalanche ofensiva dos rivais, os soviéticos pediam água. O Brasil marcaria só mais um gol, novamente com Vavá, aos 31 minutos da segunda etapa. Mas o placar não contava a história toda: os russos saíram de campo desorientados. Garrincha driblou os defensores de todas as maneiras imagináveis. O menino Pelé fez gato e sapato dos enviados do Kremlin. Só o acrobático Yashin evitou uma goleada antológica.

O menino decidiu tudo: Pelé anota um tento na decisão contra os donos da casa

Fontaine e o "já ganhou' - O baile contra os russos foi o que faltava para despertar a esperança da torcida brasileira. Milhares de pessoas saíram às ruas para festejar, do Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo, à orla do Rio de Janeiro, tomada pelas escolas de samba em pleno mês de junho. Era a primeira vez desde 1950 que o brasileiro voltava a acreditar que a taça Jules Rimet poderia ser nossa. Nos três jogos que faltavam, porém, os craques brasileiros ainda teriam de enfrentar novamente seus velhos demônios. Apesar da vitória incontestável do talento do escrete contra os gelados soviéticos, ainda havia desconfianças a respeito do comportamento dos atletas diante das situações adversas. Na partida de quartas-de-final, o time teve paciência diante da retranca ferrenha do País de Gales. Manteve a calma, insistiu até o fim e arrancou um gol aos 28 minutos do segundo tempo, em jogada extraordinária de Pelé. Estávamos nas semifinais, entre as quatro maiores equipes do mundo. Mas a própria comissão técnica guardava uma preocupação: e quando o goleiro Gilmar, intacto durante a competição inteira, levasse seu primeiro tento? O time sucumbiria ao nervosismo ou seria capaz de absorver o golpe do primeiro gol no Mundial?

A resposta seria conhecida no duelo contra a França, dona de um arsenal poderosíssimo – era o melhor ataque do torneio (fantásticos quinze gols em quatro jogos) e tinha seu maior artilheiro, Just Fontaine (oito tentos, dois a mais que toda a seleção do Brasil). Feola e sua comissão também estavam de olho em outro adversário, que batia à porta da concentração depois de um sumiço de oito anos: o indesejável clima de já ganhou, que ameaçava roubar a atenção dos craques e sabotar as chances brasileiras justamente na fase mais aguda da Copa. Mas o escrete não vacilou: repetiu o início arrasador das partidas anteriores e marcou seu primeiro gol no segundo minuto de jogo. Aos oito, o implacável Fontaine igualou o placar. A seleção balançou, é verdade - passou os quinze minutos seguintes perdida no gramado, com a França apertando o nó. Empurrada ao ataque por Garrincha, a equipe logo acalmou os nervos, reencontrou seu jogo e saltou à frente, aos 39 minutos, numa "folha-seca" de Didi. No segundo tempo, Pelé desequilibrou a parada e anotou três tentos. Os suecos aplaudiam e riam. Para os anfitriões e para o resto do mundo, o Brasil já era o melhor da Copa. Faltava a final, justamente contra os suecos.

Carnaval junino: festa no centro do Rio

Sob o manto da padroeira - Como não podia deixar de ser, o último capítulo da epopéia brasileira rumo ao seu primeiro título também evocou as memórias de 1950. Primeiro foi na escolha do uniforme. Como os suecos também jogam de camisa amarela, um sorteio definiu quem disputaria a finalíssima com seu fardamento principal. Os donos da casa venceram. O Brasil teria de escolher entre o branco, o verde e o azul. O branco foi descartado logo de cara - era a camisa número um do Brasil até o drama do Maracanã. O chefe da delegação, doutor Paulo Machado de Carvalho, deixou de lado o verde da esperança e escolheu o azul, cor do manto de Nossa Senhora Aparecida, a padroeira da seleção. Na véspera do jogo, a comissão técnica adquiriu o novo fardamento no comércio de Estocolmo e costurou os números e os escudos da CBD, arrancados das malhas amarelas. Tudo pronto para a consagração. Ninguém pensava na repetição de 1950. Não até os quatro minutos de jogo, quando Liedholm marcou Suécia 1 a 0.

Esse Brasil, entretanto, era outro. As feridas do passado estavam cicatrizadas, e nenhuma assombração perturbaria a festa. Didi apanhou a bola, ergueu a cabeça e carregou o esférico com serenidade de monge até o círculo central. Quatro minutos depois, o Brasil empatava, com Vavá. A virada veio aos 32, com outro tento do inspirado avante. A torcida local trocou de lado: sabia que a derrota era inevitável e que estavam diante dos melhores. O restante do embate foi um espetáculo brasileiro, com gols de Pelé, Zagallo e outro de Pelé, no último lance da partida. Depois de marcar de cabeça, o menino caiu desmaiado e o árbitro Maurice Guigue apitou o final de jogo. Quando recobrou os sentidos, Pelé era campeão do mundo, assim como seus 63 milhões de compatriotas. O país explodiu em lágrimas – desta vez, de alegria. Enquanto centenas de milhares de pessoas saíam às ruas num carnaval improvisado, o rei da Suécia, Gustavo VI, entregava a taça Jules Rimet a Bellini, na tribuna de honra do estádio Rasunda. O capitão segurou o troféu de ouro com as duas mãos e o ergueu acima da cabeça, em direção ao céu.

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