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ROCK BRITÂNICO
VEJA, Fevereiro de 1964
Na virada desta década, a terra da rainha começou a produzir
grandes
legiões de súditos do rock. Mas conquistar a América era outra história
– até os Beatles fracassaram em seus primeiros lançamentos nos EUA
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| Os Beatles com Little Richard: os alunos reunidos com o mestre que tanto influenciou seu som no início da carreira |
Nos anos 50, Londres era uma cidade tranquila, repleta de ônibus de dois andares, cabines de telefone vermelhas e parques verdes e espaçosos, que ficavam lotados nos raros dias de sol. Praticamente não havia atividade depois do expediente e os pubs fechavam cedo, assim como o comércio e o metrô. Nem mesmo um cenário pacato e pouco excitante como esse ficou imune à explosão mundial do rock exportada pelos Estados Unidos na década passada. Os garotos ingleses consumiam avidamente Elvis Presley, Buddy Holly & The Crickets, Little Richard, Chuck Berry e outros tantos. Não demorou muito para que os talentos locais despontassem. Tommy Steele, Cliff Richard & The Shadows, Marty Wilde, Adam Faith e Billy Fury foram verdadeiros pioneiros e seu sucesso criou um mercado relativamente forte para o rock nacional.
Para ser mais rigoroso, o pontapé inicial do rock britânico já havia sido encabeçado um pouco antes por Lonnie Donegan, o rei do skiffle. Usando violões acústicos, tábuas de lavar roupa e instrumentos improvisados, o skiffle tomava emprestado do blues, country e folk seu repertório e podia ser tocado por qualquer um. Foi justamente esse o estilo adotado por um grupelho chamado The Quarrymen, de um certo John Lennon. Já Cliff Richard era um verdadeiro fenômeno. No começo desta década, à frente de seu grupo, The Shadows, ele colocou mais de vinte músicas no top 10 inglês. A gravadora Epic, que o representava nos Estados Unidos, gastou uma boa soma tentando fazer com que ele estourasse na antiga colônia. Richard apareceu no Ed Sullivan Show – que lançara Elvis Presley e acaba de consagrar os Beatles na América – e colocou duas músicas no Top 40 americano. E só.
Além desse fato isolado, os americanos continuavam alheios à música que vinha do outro lado do Atlântico. O panorama musical dos Estados Unidos não foi nada ruim nesses últimos anos. Havia o som de Nashville, cantores e compositores de talento (Del Shannon, Gene Pitney, Roy Orbison), surf music, rock instrumental. A Motown dava seus primeiros passos, Phil Spector criava suas minissinfonias para jovens e gigantes da música negra como Ray Charles, Sam Cooke e Jackie Wilson davam forma à soul music. Mas o ano passado foi determinante por posicionar todas as peças que conduziram à chamada "invasão britânica".
Só para se ter uma idéia, o hit parade americano de 1963 foi dominado por baboseiras do naipe de Sukyaki, com o japonês Kyu Sakamoto. Os descontentes e politizados optavam pelo folk de Bob Dylan, Joan Baez, Peter, Paul & Mary. Eis que, sem querer, um selo independente de Chicago deu o empurrão inicial para o início de uma nova ordem. A Vee Jay Records é uma das mais bem-sucedidas gravadoras de rhythm & blues dos Estados Unidos. Em 23 de fevereiro de 1963, lançou no país um single contendo Please Please Me, de um desconhecido grupo chamado The Beatles.
O motivo? Os membros do grupo Four Seasons, depois de uma visita à Inglaterra, gostaram tanto do som que recomendaram aos chefes da Vee Jay a compra dos direitos de lançamento daquela canção. Please Please Me fazia um tremendo sucesso na Inglaterra, mas a Capitol (que licenciava os títulos da EMI na América) não se interessou nem um pouco pelos Beatles. Com certa razão: Please Please Me foi um fiasco nos EUA, bem como os discos seguintes – o LP Introducing... The Beatles e o single From Me To You. A Vee Jay perdeu o interesse e She Loves You acabou distribuída sem grande êxito pelo pequeno selo Swan, com sede na Filadélfia. Para essas distribuidoras, ver o sucesso estrondoso da excursão dos Beatles aos EUA causa ainda mais perplexidade do que para quem nem sequer conhecia a banda.
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| 'She Loves You', canção que não emplacou em seu primeiro lançamento nos EUA |
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