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  BEATLEMANIA
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VÍDEOS
Índice
HAMBURGO
VEJA, Fevereiro de 1964
A temporada alemã dos Beatles foi fundamental para a definição do
som, do visual e da postura da banda. Os meninos que viajaram para Hamburgo voltaram homens – e agora formavam um quarteto afiadíssimo
No jardim dos prazeres: os Beatles, ainda com Pete Best (à esq.) e Stu Sutcliffe (à dir.), posam com suas caras de mau

Em 1960, os Quarrymen deixaram de existir como um grupinho de fim de semana e deram seu lugar para os Beatles, uma banda "semiprofissional" de rock’n’roll. Esse processo, na verdade, não se deu de uma hora para a outra e passou por uma evolução nos nomes – de Moondogs para Long John and The Silver Beetles, depois para Silver Beetles, e finalmente para Beatles. O nome definitivo veio da paixão deles pelos Crickets (grilos), grupo de Buddy Holly. Assim, eles combinaram beetles (besouros) com o nome que se usava na época para definir o rock: música beat (batida).

No começo, o trabalho da banda ainda era esporádico. Eles tocavam nos bailes das escolas de arte, saíram em turnê pela Escócia como banda de apoio para Johnny Gentle, acompanharam cantoras como Shirley The Stripper e fizeram algumas aparições em clubes de Liverpool, como o Casbah. Foi mais ou menos nessa época, em agosto de 1960, que apareceu um empresário local chamado Andy Williams, que lucrava agenciando shows das bandas de Liverpool no exterior. Williams conseguiu um contrato interessante para os Beatles no clube Indra, em Hamburgo, na Alemanha. Na iminência de uma temporada internacional, Paul McCartney lembrou-se de Pete Best (filho da dona do Casbah), que arranhava como baterista, e o chamou para a banda.

Os quatro meses e meio que os Beatles passaram em Hamburgo transformaram a banda – e não só no sentido musical. Tendo que tocar de seis a oito horas por noite, seu repertório aumentou consideravelmente – eles já executavam praticamente todos os hits do rock’n’roll. Sua técnica também se desenvolveu enormemente – os três guitarristas, John, Paul e George, se entendiam tão bem no palco a ponto de, ao tocar uma canção, um adivinhar o que o outro faria em seguida, sem ao menos se olharem. Pelo fato de passar tanto tempo no palco, começaram a criar hábitos pouco ortodoxos, como o de comer sanduíches entre uma música e outra, além de beber e fumar. Em dias de cansaço extremo, chegavam a se revezar: enquanto os outros tocavam, um dormia por alguns minutos atrás da bateria. Apresentando-se em clubes da Reeperbahn, a zona de boates de Hamburgo, os garotos de início ficaram intimidados com o público barra-pesada. Aos poucos, incentivados pelo dono do Indra, Bruno Korschmeier, eles foram aprendendo as habilidades próprias dos artistas profissionais. O público gostava de sua música, e John ocasionalmente brindava a platéia com suas brincadeiras e seus trajes, que incluíam calcinhas e uma tampa de privada em volta do pescoço.

Para um grupo de roqueiros adolescentes – John, o mais velho, tinha só 19 anos – Hamburgo era o jardim dos prazeres. Os rapazes faziam amizade – e algo mais – com as prostitutas, que havia em número abundante, e tomavam quantidades cada vez maiores de comprimidos para emagrecer (as famosas "bolinhas"), que os deixavam acordados por dias inteiros. Seu café da manhã era uma mistura de leite, cerveja e cereal de milho. Mas eles também progrediram no trabalho: foram do Indra para o Kaiserkeller, depois para o Top Ten, e finalmente para o Star Club, o maior e mais movimentado da cidade. Suas acomodações também melhoraram, dentro do possível – de um quartinho atrás da tela de um cinema caindo aos pedaços para um sótão no Top Ten.

Existencialistas - Vários grupos ingleses tocavam nos clubes alemães, como os Hurricanes (que tinham Ringo Starr na bateria). Também se apresentavam por lá cantores como Tony Sheridan. Cumpriam um azeitado circuito de boates, clubes de strip-tease e inferninhos, como os citados acima. A maior parte do público dos shows (além de marinheiros mal-encarados e prostitutas) era formado por roqueiros, que se vestiam à moda teddy boy, com jaquetas de couro e cabelos gomalinados. Mas os Beatles começaram a atrair um grupo de jovens universitários intelectualizados, os chamados "exis" (de "existencialistas"), que curtiam poesia e pintura, com garotas "de bem" e rapazes com cabelos à francesa, penteados para frente. Entre os "exis" que se aproximaram dos Beatles (e logo se tornaram seus amigos) estava a fotógrafa Astrid Kirshner e o estudante de arte Klaus Voorman. Igualmente vindos de escolas de artes, com aspirações nesse campo, os Beatles transformaram-se num misto de roqueiros e "exis" – e logo adotariam o penteado "exi".

Hamburgo seria o começo do fim para Stuart Sutcliffe. No Keiserkeller, ele conheceu e logo se apaixonou por Astrid, permanecendo na cidade quando a banda voltou a Liverpool. Com a saída de Stu, Paul acabou assumindo o baixo e os Beatles tornaram-se um quarteto. Astrid, que fora a responsável pelo novo penteado do grupo, tirou a primeira foto dos novos cabelos, no telhado de um clube em Hamburgo. Em 10 de abril de 1961, os Beatles tiveram de enfrentar uma tragédia: Stu morreu repentinamente, de hemorragia cerebral. No dia seguinte, os rapazes chegavam a Hamburgo para uma nova temporada, de sete semanas. John Lennon, de todos, foi o que ficou mais abalado.

A volta a Hamburgo era para se apresentar no Top Ten. O quarto em que os Beatles ficaram desta vez era ao lado de onde morava o cantor Tony Sheridan. Ficaram amigos e, durante a temporada, dividiram o palco inúmeras vezes. Quando Tony recebeu um convite para gravar para a Polydor alemã, não pensou duas vezes e levou os Beatles como banda de apoio – que acabou usando o nome Beat Brothers. Lançaram um EP com My Bonnie, Why, Ain’t She Sweet (cantada por John) e a instrumental Cry for a Shadow. O disco foi lançado em agosto de 1961. Nesse tempo, os Beatles já eram um grupo profissional, com empresário e até um motorista – na verdade, o contador Neil Aspinall, que tinha uma perua que colocava a serviço da banda. Já contavam com um público relativamente fiel em Liverpool e eram atração constante no Cavern Club, um clube de jazz convertido em local beat. Seria ali, naquele palco acanhado, que os Beatles encontrariam um caminho rumo ao estrelato.

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