Veja na História
BEATLEMANIA
Fevereiro de 1964
A EXPLOSÃO


A CONQUISTA DA AMÉRICA

A ascensão meteórica dos Beatles começou num
pequeno clube de Liverpool e culminou na
escalada até o topo das paradas nos EUA – antes
mesmo de deixar a Europa e cruzar o Atlântico. 


Há pouco mais de dois anos, Brian Epstein, gerente da North End Music Stores, cadeia de lojas de discos e equipamentos de áudio de Liverpool, estava intrigado com todo o alvoroço sobre os grupos beat. Foi ao Cavern assistir aos Beatles em novembro de 1961. Achou tudo aquilo barulhento, mas ficou impressionado com o que classificou de "charme" da banda – sabe-se que Brian é homossexual e tem certa queda por rapazes com fama de bad boys. Prometeu arranjar um contrato de gravação para os rapazes e logo conseguiu um teste na Decca, de Londres, em 1º de janeiro de 1962. Para impressionar os garotos, pagou para que o ex-baterista dos Shadows, Tony Meehan, os produzisse. Baseadas nos sets de Hamburgo, cheias de covers e poucas composições próprias (apenas duas, Like Dreamers Do e Hello Little Girl), as sessões não deram em nada.

Mesmo assim, os Beatles fecharam com Brian, ainda em janeiro de 1962. Uma das primeiras ações do empresário foi sugerir que abandonassem as jaquetas de couro em favor de ternos ao estilo dos grupos mod ingleses. Também proibiu que os rapazes fumassem durante os shows, hábito herdado de Hamburgo – quando a banda costumava comer e até dormir no palco. Ao mesmo tempo em que agendava apresentações e shows de rádio, o empresário ficou com os tapes da Decca e usava-os como uma demo da banda.

Ao dizer que seus garotos estavam em "excursão internacional", despertou a atenção de George Martin, um famoso maestro britânico, célebre pelo programa The Goon Show. Martin assumira a "linha pop" da gravadora Parlophone, subsidiária da EMI. Após o teste, em junho de 1962, a única exigência de Martin para gravá-los era usar um "baterista profissional", já que não gostara de Pete Best. Sem qualquer dilema, Epstein e os Beatles demitiram Best e chamaram Ringo Starr.

Ciúme e gravidez - A demissão de Pete Best, logo após a banda ter assinado com a EMI, é uma das maiores puxadas-de-tapete ocorridas na cena musical dos últimos anos. Nenhum dos três beatles teve coragem de demiti-lo – o trabalho sujo ficou para Brian Epstein. Ao que parece, Brian era apaixonado por Pete e, após sucessivas negativas, não teve remorso em sacá-lo. Testemunhas dão conta do ciúme que Pete, o mais bonito dos quatro, despertava nos colegas de palco. Outro complicador: Neil Aspinall, recém-contratado como roadie, engravidou a mãe de Pete no final de 1961, o que azedou as relações de forma definitiva.

Em 4 de setembro, George Martin recebeu John, Paul, George e Ringo –que só descobriu que não tocaria na sessão às portas do estúdio – nas instalações da EMI em Abbey Road, em Londres. O grupo fez questão de registrar apenas músicas próprias. Em 5 de outubro de 1962, foi lançado o primeiro disco da banda, o single Love Me Do. Com fama crescente no noroeste inglês, a banda vendeu 100.000 cópias do compacto e chegou ao 17º lugar no hit parade do país. A conquista da Inglaterra era o próximo passo.

Em novembro, voltaram aos estúdios para um novo single, Please Please Me, outra composição própria. O acordo entre John e Paul, principais compositores do grupo, reza que todas as músicas da dupla recebam crédito conjunto, mesmo que o parceiro não tenha participado. Ao final dos 18 takes, Martin abriu o microfone e disse: "Rapazes, vocês acabam de gravar seu primeiro número um". De fato, Please Please Me, lançado em janeiro de 1963, chegou ao primeiro posto da parada, ganhou disco de platina pelas 500.000 cópias vendidas e transformou a banda na "próxima grande coisa" do Reino Unido.

Rumo à América – Os Beatles passaram a ser requisitados para apresentações por todo o país, para entrevistas e para programas na BBC. Depois de um mês, estavam no ponto exato para lançar seu primeiro LP. Gravado em 12 horas, também intitulado Please Please Me, o disco trazia 14 faixas, entre covers (coisas da soul music americana, como Boys e Twist and Shout) e novos hits em potencial, como I Saw Her Standing There. Com dois singles puxando as vendas, Please Please Me também chegou ao topo da parada. Até o fim do ano, a banda tocaria por Escócia, Suíça, toda a Inglaterra, participaria do tradicional programa Sunday Night at the London Paladium (esgotando os ingressos com meses de antecedência), lançaria mais três singles (From Me To You, She Loves You e I Wanna Hold Your Hand) e um segundo LP, With the Beatles, novo número um.

A banda era um sucesso em toda a Europa Ocidental. Faltavam os Estados Unidos. Brian tinha o plano de levar o grupo à América, mas o grupo decidira que não embarcaria sem um single no topo da Billboard. E não era apenas arrogância: muitos nomes famosos na Inglaterra se aventuravam pelos Estados Unidos, esqueciam seu público local e não angariavam a simpatia ianque. Quando já estavam em primeiro lugar no Reino Unido, os Beatles ainda eram ilustres desconhecidos no outro lado do Atlântico, mas, para todos os efeitos, nunca tinham tentado a sério. A verdade é que a própria EMI não se interessara em lançar a banda por lá.

George Martin negociou os tapes pertencentes à Parlophone com dois selos independentes, o Vee-Jay e o Swan, que lançaram alguns singles e a coletânea Introducing the Beatles, sem repercussão. Em janeiro de 1964, após uma temporada de um mês no Finsbury Park de Londres, os Beatles embarcaram para sua primeira turnê pela França. Após reportagens de revistas como Time e Newsweek, a Capitol (o selo jovem da EMI na Califórnia) despertou para a banda e lançou o single I Wanna Hold Your Hand com toda promoção merecida. De longe, sem deixar o Velho Continente, eles conquistavam o Novo Mundo. Em Paris, eles receberam o telegrama da EMI inglesa: "Parabéns, vocês são número um na América".