| Notas O
Monge se foi Conforme o prometido aqui,
deixei o livro best-seller de auto-ajuda no avião, durante o último
vôo que tomei. Conforme o esperado, esse não foi devolvido, e não
constava do sistema de achados e perdidos da TAM em nenhum dos aeroportos para
os quais o avião havia seguido naquele dia. Sinal de que o meliante, quer
seja ele um passageiro que ocupou meu assento no trecho seguinte, quer seja um
funcionário da companhia aérea, responde por pecado duplo: além
de ladrão, tem péssimo gosto literário. Se ainda tivessem
roubado o volume esquecido originalmente - The Structure of Scientific Revolutions
- pelo menos haveria um ganho em inteligência nacional. Ainda as aéreas No
vôo de retorno a SP, outra incomodação. Seguindo o exemplo
da Gol, sua companheira de duopólio, a TAM agora também entrou na
onda de fazer o passageiro despachar as bagagens mais ridículas, inclusive
aquelas especificamente desenhadas para o transporte a bordo, como a minha. Sinto
cheiro de queimado no ar. Minha hipótese é de que as empresas aéreas
forçaram a Anac a limitar a 5 quilos o peso das bagagens de mão,
justamente para que a maioria fosse forçada a despachá-las, para
que as empresas pudessem fazer seu processo de embarque e desembarque com maior
rapidez. É uma transferência de renda – o tempo perdido pelos passageiros
com o despacho e recolhimento da bagagem é parcialmente compensado pelo
maior lucro dos acionistas das aéreas. Digo parcialmente porque imagino
que haja uma perda coletiva, o que o economês chama de deadweight loss
– a perda coletiva deve ser maior do que o ganho dos acionistas. Por enquanto,
apenas uma hipótese. Vou investigar e posto meus achados por aqui. Falando
em aéreas, alguns leitores me perguntam por que tratar de assuntos de empresas
privadas nesse espaço público. É que, em primeiro lugar,
as empresas aéreas prestam importantes serviços públicos.
E, em segundo e mais importante, é que nossas empresas não estão
inseridas exatamente em um mercado privado. Por conta da regulamentação
governamental, criou-se um duopólio, em que não há competição.
O sistema judicial brasileiro, como se sabe, é uma piada, especialmente
na defesa de pequenas causas. Portanto, se não há os dois caminhos
– o do mercado e o da regulação – para disciplinar um setor estratégico,
sobra apenas um: o do constrangimento. Eis-me aqui. Falando em leitores Alguns
preferem abdicar do debate de idéias e recorrem à guerrilha cibernética.
Um anônimo me chama de "sr. sem cérebro", outro me atribui
pertencimento à espécie Ozotoceros bezoarticus, outro atribui
à minha progenitora pertencimento àquela profissão das mais
antigas do mundo, outros me sugerem que beberiquem naquilo que o filósofo
carioca Agamenon Mendes Pedreira chama de "pavilhão retofuricular",
outros valentões anônimos ameaçam chegar às vias de
fato se me encontrarem por aí, outros ainda recorrem aos mais incríveis
erros de Português ("eu desconcordo contigo" é um dos top
10) na tentativa de me abalar. Bom, lamento informar, mas estão perdendo
seu tempo. Só me causam riso. |