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Notas
Johnny Beira-Mar
Tem
coisas que os jornais matutinos deveriam evitar, não
por uma questão de propriedade jornalística
mas por mero respeito à saúde dos leitores,
que folheiam o diário logo ao acordar, durante
o café da manhã. Caso explícito
é um artigo da Folha desta quarta-feira, 23 de
janeiro, de autoria do ex-traficante João Estrella.
O personagem inspirou o ótimo filme Meu Nome
Não é Johnny, e parece estar agora
sofrendo da estranha perversão que acomete aqueles
dotados de fama repentina, de se achar inteligentes
e acreditar que suas opiniões são relevantes
sobre todo e qualquer assunto. Nosso Johnny repete a
cantilena de que os criminosos de estrato social inferior
são mais vítimas do que culpados: O
jovem pobre e criminoso também não está
preocupado com isso [a violência gerada pelo consumo
de drogas] -e tem lá os seus motivos.
Ele faz parte de uma parcela da população
que, além de ser massacrada pela miséria,
ainda é esculachada pela polícia, enganada
por políticos e jogada na marginalidade mesmo
quando não é bandida, pois marginal é
aquele que não participa da comunidade, aquele
que é excluído. Esses cidadãos,
que são os mais combatidos e que não têm
direito a cela especial, são mais vítimas
do que culpados.
O raciocínio é duplamente tortuoso
pobreza não redime ninguém dos seus atos,
assim como não o condena, e se os pobres são
inocentes a priori, os criminosos de classe média,
como Estrella, são duplamente culpados e, no
caso específico dele, deveria ter cumprido sua
pena num presídio, não em manicômio.
Mas, enfim, o pensamento é torto mas não
é original. Originais são as partes em
que o articulista exime a sua atividade pregressa
o tráfico de entorpecentes de culpabilidade,
dizendo que os drinks são um problema
maior. Na sua sintaxe particular: Então...
Temos o álcool, que, se não me engano,
aparece em primeiro lugar na lista de destruição:
homicídios, acidentes.
Johnny arremata dizendo quem dera nossos maiores
problemas fossem os ecstasys que a rapaziada toma nas
festas e que estão na mídia o tempo todo,
no que eu concordo totalmente. Problema muito maior
que o ecstasy é um ambiente intelectual em que
as pessoas são culpadas e inocentadas de acordo
com sua classe social e em que traficantes internacionais
de drogas recebem uma pena ridícula de dois anos
de confinamento e ainda se acham no direito de vir a
público dizer a nós, que trabalhamos e
suamos todos os dias dentro da lei, que somos, como
sociedade, tão responsáveis pelo problema
da violência do tráfico quanto aqueles
que matam, roubam e violam para preservar sua lucratividade
no tráfico de drogas.
Menas, Johnny. Menas.
Motoboy
José Luis
da Conceição/AE

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As prefeituras do Rio e São Paulo consideram
projetos de lei que proíbem os motoqueiros de
levar caronas em suas motos, dado que grande parte dos
assaltos das metrópoles ocorre nessa modalidade.
Sem entrar na questão jurídica e filosófica
do mérito desse cerceamento da liberdade de movimento,
me parece que essa é mais uma lei destinada a
não dar resultado, se aprovada. Se você
fosse um criminoso que usa a garupa de um amigo para
cometer crimes, o que faria diante da possibilidade
de aprovação de uma lei dessas? Provavelmente
alguma das seguintes opções: a) roubaria
uma moto, pra que os roubos fossem feitos, daqui pra
frente, em duas motos, ao invés de uma; b) aumentaria
o número de assaltos, para ter dinheiro para
comprar uma moto novo; c) roubaria um carro e passaria
a assaltar com um carro, ao invés de (ou junto
com) uma moto. Nos três cenários, teríamos
um aumento, e não diminuição, da
criminalidade.
É preciso educação de qualidade
pra que o jovem de hoje possa se inserir no mercado
de trabalho amanhã, e é preciso repressão
hoje para aqueles que já optaram pela criminalidade.
Me parece mais eficaz aumentar o policiamento e o número
de blitze sobre os motoqueiros com carona do que proibi-los
a priori.
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