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dubitandum
Gustavo Ioschpe
Economista, especialista em educação “de omnibus dubitandum est”
(duvide de tudo)

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05/10/2007: Contra a gratuidade nas universidades públicas
20/09/2007: Educação e a incomunicabilidade dos Brasis
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Segunda-feira, 26 de maio de 2008
 

Nota

Saúde dos médicos e professores - repercussão

A nota abaixo, sobre a saúde de professores e médicos, causou um volume inesperado de agressividade por parte daqueles. Quando vejo esses comentários, sinceramente me parece se tratar de uma minoria de professores estridentes que militam na mídia sempre da mesma forma: insultando quem quer que ouse questionar a inimputabilidade que a corporação dos professores obteve ante a grosseira falência da educação brasileira. Seus ataques são sempre iguais: pessoais, figadais e desprovidos de contra-argumentos ou de análise racional. Como estes dão a tônica dos comentários, tanto no site quanto no meu inbox, sou obrigado a tomá-los como representativo da opinião geral e, portanto, tratá-los com o devido respeito.

Sinceramente causa espanto e incredulidade que, das linhas abaixo, algum leitor sério depreenda que eu esteja sugerindo que os professores apanhem, fisicamente, por conta dos maus resultados das nossas escolas. Mas, se a alguém bem-intencionado ficou essa impressão, me apresso em apagá-la e me desculpar. Tampouco defendo que médicos sejam espancados por seus erros, assim como qualquer outra categoria profissional. Sou um defensor intransigente da legalidade e do cumprimento às leis. Até mesmo para suspeitos de infanticídio e dos crimes mais bárbaros, conforme defendi nesse espaço na penúltima nota.

O que digo no final da nota é que os médicos, e todas as outras categorias profissionais que me vêm à mente no Brasil, são condenados pela sociedade e por suas vítimas (ou seus parentes) quando falham em seu serviço. Nenhum médico teria o peito de culpar seu paciente ou seus hábitos pelo fracasso dos médicos e hospitais. E as condições do paciente, especialmente sua baixa escolaridade, são, sim, um fator que dificulta de maneira inimaginável o trabalho dos médicos. Tenho um amigo médico que atende nas favelas e periferias de São Paulo, através do sistema público, e me conta que freqüentemente não consegue fazer com que seus pacientes cumpram as instruções mais simples – levantar um braço ou perna – por não saberem o que é "esquerda" e "direita"; não conseguem precisar seus problemas de forma a possibilitar um diagnóstico correto porque não conseguem, por exemplo, situar temporalmente o início ou evolução dos sintomas: gente que não consegue diferenciar entre "ontem", "uma semana atrás", "há quinze dias" etc. São pessoas que igualmente têm dificuldade de seguir o tratamento prescrito e tomar as medicações nos horários indicados pelos médicos.

"Jamais vi um médico dizer que com ‘esse tipo’ de paciente é impossível exercer a medicina"


Apesar disso, jamais vi esse ou qualquer outro médico vir a público dizer que com esse tipo de paciente é impossível exercer a medicina, sem a ajuda da família é impossível curar, com essas condições ele (médico) tem certeza que o paciente vai morrer e, portanto, não vale a pena cuidar dele. Mas é freqüente ouvir, de professores, que os culpados pelo fracasso da escola são o aluno, sua pobreza, o desinteresse das suas famílias, e que vários alunos são irrecuperáveis etc. E o pior é que os próprios alunos e suas famílias introjetaram esse discurso, e assumem o fracasso da educação como culpa sua, não do sistema de ensino. Escreverei sobre o assunto em mais detalhes para artigo na revista. Mas é evidente, para mim, que se os alunos e suas famílias se indignassem com a má qualidade do ensino que recebem, assim como se indignam quando são vítimas de erro médico ou do abuso de um policial ou da inépcia de um funcionário público, certamente teríamos uma educação melhor. E espero, na medida das minhas habilidades e do espaço que tenho, ser um agente para essa transformação de mentalidade. Ficaria satisfeitíssimo se os pais cobrassem dos professores, diretores e prefeitos uma educação de qualidade, ao invés de culpar os próprios filhos, que são duplamente vitimados – por um mau ensino e por terem de assumir para si o fracasso dos outros.

Creio que alguns professores (espero que minoritários) adotaram, em um compreensível mecanismo de defesa por suas deficiências, a culpabilização dos alunos e a sua própria inimputabilidade a um ponto que virou patológico. Um deles me escreveu a seguinte pérola:

Médicos x Professores:
A maioria dos pacientes estão no hospital porque querem, não porque foram obrigados. Os pacientes, em geral, colaboram com os médicos, porque QUEREM ficar curados. Porque VALORIZAM a própria saúde.

Quer dizer: o problema da educação é que os alunos não querem ir à escola, nem aprender, nem valorizam sua própria educação, enquanto que o paciente vai ao hospital porque quer. É de lascar. Me pergunto se ocorre a esses professores que seus alunos não gostem de ir à escola porque a escola é ruim e o aluno passa horas, dias e anos e não aprende quase nada.

Finalmente, há o pelotão dos cínicos. Alguns acham que minha escrita está aí para atender aos interesses dos governantes de plantão, especialmente do governo de São Paulo. Bem, venho defendendo as mesmas idéias há bastante tempo, antes desse ou qualquer outro governo. No meu livro A Ignorância Custa um Mundo, publicado em 2004, defendo basicamente as mesmas idéias, e inclusive ataco, nominal e explicitamente, o então secretário de educação do estado, do mesmo PSDB de agora, na introdução. Certamente cometo muitos erros e, espero, alguns acertos de vez em quando, mas são todos única e exclusivamente meus. Não estão a serviço de ninguém, nem contra ninguém. E é bom que saibam que este policiamento jamais me pautou e nem irá me pautar. Não vou escrever aqui algo defendendo ou atacando quem quer que seja para "ficar bem na foto", fazer média, angariar simpatias e amizades. Não tenho preocupação com a imparcialidade, não sou jornalista, não estou relatando fatos: sou um economista e um articulista, e o meu único dever é com aquilo que me pareça ser a verdade. Por mais que ela fira suscetibilidades e gere impopularidade. A aqueles que me escrevem com seus xingamentos, já disse e repito, estão perdendo tempo: meu único critério é estar em paz com a minha consciência, cumprir o que me parece ser o dever do intelectual – dizer a verdade. Ponto.

"Tenho indignação pelos professores que culpam os seus alunos e sua pobreza pelo seu fracasso na sala de aula"


Outros ainda se perguntam porque tenho tanta "raiva dos professores", qual foi o "trauma" no meu processo educacional que me deixou assim etc. Como se o meu objetivo, e da VEJA.com, fosse ter esse espaço para levar a cabo uma vendetta pessoal! Eu não tenho "raiva" de ninguém, muito menos dos professores. Tenho, sim, uma forte indignação em relação aos professores picaretas, que culpam os seus alunos e a pobreza dos brasileiros pelo seu fracasso em sala de aula. Detesto os cínicos, os resignados, os acomodados, os que abandonam as crianças que têm sob sua guarda, os preguiçosos. E esse tipo de profissional existe em todas as categorias profissionais – inclusive dentre economistas e jornalistas – e é normal que existam entre os professores. Essa postura não tem nada a ver com o meu passado estudantil - que foi felizmente muito bom, coberto de sucessos e encontros com professores excepcionais (e outros tantos medianos, e outros sofríveis, como imagino ser o caso da maioria dos alunos do mundo). A postura tem a ver, isso sim, com o futuro que eu gostaria de ver para os meus filhos e netos, com o país que eu gostaria de ver nascer, e para o qual uma educação de qualidade é tarefa urgente e indispensável.

OPINIÃO
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Quarta-feira, 21 de maio de 2008
 

Nota

Saúde dos médicos e professores

Um tema que vem tendo grande repercussão nas questões educacionais recentemente diz respeito à saúde dos professores. Fala-se muito na incidência de depressão, síndrome de burnout (fadiga), estresse, problemas de voz, de coluna etc. É indubitavelmente uma questão séria e que deve ser tratada com atenção. Mas, como quase tudo aquilo que cerca a questão educacional no país, me parece que tomou uma dimensão despropositada. Virou mais uma da longa lista de razões esfarrapadas segundo as quais seria impossível oferecer uma educação de qualidade no país (junto com o pretenso baixo salário dos professores, as condições precárias de trabalho, o baixo investimento em educação, a indisciplina dos alunos, o desinteresse dos pais, os interesses do modelo neoliberal etc.)

Para colocar a questão em perspectiva, vale a pena conferir um estudo sobre a saúde dos médicos. Pesquisa do Conselho Federal de Medicina divulgada recentemente atesta que 44% sofrem de depressão ou ansiedade e 57% têm estafa e desânimo com o emprego, índice bem superior ao da população em geral e dos professores idem. 82% dos médicos atuam em três ou mais empregos - no magistério brasileiro, segundo estudo da Unesco, são 9% os professores que trabalham em três ou mais empregos.

Apesar desses dados, a saúde brasileira vai bem melhor do que a nossa educação. Se algum médico deixasse um paciente morrer por não saber administrar massagem cardíaca ou não conseguir debelar uma simples infecção com antibióticos, e tentasse justificar suas falhas se dizendo deprimido ou estressado, ou reclamando da falta de cooperação do paciente, provavelmente levaria uma porrada dos familiares do morto e uma reprimenda do seu hospital. Quando a nossa população tiver essa mesma indignação com os professores que não conseguem, por exemplo, alfabetizar (o SAEB de 2003 revelou que 55% dos alunos de 4ª série são praticamente analfabetos. 55%! Na 4ª série!!), e culpam sua saúde ou os próprios alunos pelo seu fracasso, tenho certeza que daríamos um salto gigantesco na qualidade do nosso ensino.

OPINIÃO
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