| Nota Saúde
dos médicos e professores - repercussão A
nota abaixo, sobre a saúde de professores e
médicos, causou um volume inesperado de agressividade por parte daqueles.
Quando vejo esses comentários, sinceramente me parece se tratar de uma
minoria de professores estridentes que militam na mídia sempre da mesma
forma: insultando quem quer que ouse questionar a inimputabilidade que a corporação
dos professores obteve ante a grosseira falência da educação
brasileira. Seus ataques são sempre iguais: pessoais, figadais e desprovidos
de contra-argumentos ou de análise racional. Como estes dão a tônica
dos comentários, tanto no site quanto no meu inbox, sou obrigado a tomá-los
como representativo da opinião geral e, portanto, tratá-los com
o devido respeito.
Sinceramente causa espanto e incredulidade que, das linhas
abaixo, algum leitor sério depreenda que eu esteja sugerindo que os professores
apanhem, fisicamente, por conta dos maus resultados das nossas escolas. Mas, se
a alguém bem-intencionado ficou essa impressão, me apresso em apagá-la
e me desculpar. Tampouco defendo que médicos sejam espancados por seus
erros, assim como qualquer outra categoria profissional. Sou um defensor intransigente
da legalidade e do cumprimento às leis. Até mesmo para suspeitos
de infanticídio e dos crimes mais bárbaros, conforme defendi nesse
espaço na penúltima nota.
O que digo no final da nota é que os médicos, e todas as
outras categorias profissionais que me vêm à mente no Brasil, são
condenados pela sociedade e por suas vítimas (ou seus parentes) quando
falham em seu serviço. Nenhum médico teria o peito de culpar seu
paciente ou seus hábitos pelo fracasso dos médicos e hospitais.
E as condições do paciente, especialmente sua baixa escolaridade,
são, sim, um fator que dificulta de maneira inimaginável o trabalho
dos médicos. Tenho um amigo médico que atende nas favelas e periferias
de São Paulo, através do sistema público, e me conta que
freqüentemente não consegue fazer com que seus pacientes cumpram as
instruções mais simples – levantar um braço ou perna – por
não saberem o que é "esquerda" e "direita";
não conseguem precisar seus problemas de forma a possibilitar um diagnóstico
correto porque não conseguem, por exemplo, situar temporalmente o início
ou evolução dos sintomas: gente que não consegue diferenciar
entre "ontem", "uma semana atrás", "há
quinze dias" etc. São pessoas que igualmente têm dificuldade
de seguir o tratamento prescrito e tomar as medicações nos horários
indicados pelos médicos.
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| "Jamais vi um médico
dizer que com ‘esse tipo’ de paciente é impossível exercer a medicina" |
 | Apesar
disso, jamais vi esse ou qualquer outro médico vir a público dizer
que com esse tipo de paciente é impossível exercer a medicina, sem
a ajuda da família é impossível curar, com essas condições
ele (médico) tem certeza que o paciente vai morrer e, portanto, não
vale a pena cuidar dele. Mas é freqüente ouvir, de professores, que
os culpados pelo fracasso da escola são o aluno, sua pobreza, o desinteresse
das suas famílias, e que vários alunos são irrecuperáveis
etc. E o pior é que os próprios alunos e suas famílias introjetaram
esse discurso, e assumem o fracasso da educação como culpa sua,
não do sistema de ensino. Escreverei sobre o assunto em mais detalhes para
artigo na revista. Mas é evidente, para mim, que se os alunos e suas famílias
se indignassem com a má qualidade do ensino que recebem, assim como se
indignam quando são vítimas de erro médico ou do abuso de
um policial ou da inépcia de um funcionário público, certamente
teríamos uma educação melhor. E espero, na medida das minhas
habilidades e do espaço que tenho, ser um agente para essa transformação
de mentalidade. Ficaria satisfeitíssimo se os pais cobrassem dos professores,
diretores e prefeitos uma educação de qualidade, ao invés
de culpar os próprios filhos, que são duplamente vitimados – por
um mau ensino e por terem de assumir para si o fracasso dos outros.
Creio
que alguns professores (espero que minoritários) adotaram, em um compreensível
mecanismo de defesa por suas deficiências, a culpabilização
dos alunos e a sua própria inimputabilidade a um ponto que virou patológico.
Um deles me escreveu a seguinte pérola: Médicos x Professores:
A maioria dos pacientes estão no hospital porque querem, não
porque foram obrigados. Os pacientes, em geral, colaboram com os médicos,
porque QUEREM ficar curados. Porque VALORIZAM a própria saúde. Quer
dizer: o problema da educação é que os alunos não
querem ir à escola, nem aprender, nem valorizam sua própria educação,
enquanto que o paciente vai ao hospital porque quer. É de lascar. Me pergunto
se ocorre a esses professores que seus alunos não gostem de ir à
escola porque a escola é ruim e o aluno passa horas, dias e anos e não
aprende quase nada. Finalmente, há o pelotão dos cínicos.
Alguns acham que minha escrita está aí para atender aos interesses
dos governantes de plantão, especialmente do governo de São Paulo.
Bem, venho defendendo as mesmas idéias há bastante tempo, antes
desse ou qualquer outro governo. No meu livro A Ignorância Custa um Mundo,
publicado em 2004, defendo basicamente as mesmas idéias, e inclusive ataco,
nominal e explicitamente, o então secretário de educação
do estado, do mesmo PSDB de agora, na introdução. Certamente cometo
muitos erros e, espero, alguns acertos de vez em quando, mas são todos
única e exclusivamente meus. Não estão a serviço de
ninguém, nem contra ninguém. E é bom que saibam que este
policiamento jamais me pautou e nem irá me pautar. Não vou escrever
aqui algo defendendo ou atacando quem quer que seja para "ficar bem na foto",
fazer média, angariar simpatias e amizades. Não tenho preocupação
com a imparcialidade, não sou jornalista, não estou relatando fatos:
sou um economista e um articulista, e o meu único dever é com aquilo
que me pareça ser a verdade. Por mais que ela fira suscetibilidades e gere
impopularidade. A aqueles que me escrevem com seus xingamentos, já disse
e repito, estão perdendo tempo: meu único critério é
estar em paz com a minha consciência, cumprir o que me parece ser o dever
do intelectual – dizer a verdade. Ponto.
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| "Tenho indignação pelos
professores que culpam os seus alunos e sua pobreza pelo seu fracasso na sala
de aula" |  | Outros
ainda se perguntam porque tenho tanta "raiva dos professores", qual
foi o "trauma" no meu processo educacional que me deixou assim etc.
Como se o meu objetivo, e da VEJA.com, fosse ter esse espaço para levar
a cabo uma vendetta pessoal! Eu não tenho "raiva" de ninguém,
muito menos dos professores. Tenho, sim, uma forte indignação em
relação aos professores picaretas, que culpam os seus alunos e a
pobreza dos brasileiros pelo seu fracasso em sala de aula. Detesto os cínicos,
os resignados, os acomodados, os que abandonam as crianças que têm
sob sua guarda, os preguiçosos. E esse tipo de profissional existe em todas
as categorias profissionais – inclusive dentre economistas e jornalistas – e é
normal que existam entre os professores. Essa postura não tem nada a ver
com o meu passado estudantil - que foi felizmente muito bom, coberto de sucessos
e encontros com professores excepcionais (e outros tantos medianos, e outros sofríveis,
como imagino ser o caso da maioria dos alunos do mundo). A postura tem a ver,
isso sim, com o futuro que eu gostaria de ver para os meus filhos e netos, com
o país que eu gostaria de ver nascer, e para o qual uma educação
de qualidade é tarefa urgente e indispensável.
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