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| Quarta-feira, 20 de agosto de 2008 |
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Notas
As
viúvas de Mr. Danger
Recebi alguns comentários
irados sobre a nota da semana passada a respeito das
declarações de George Bush (a.k.a. Mr.
Danger para o comediante Hugo Chávez) sobre a
guerra entre Geórgia e Rússia. Aparentemente,
há muitos brasileiros que defendem as políticas
do presidente americano - aparentemente, há mais
apoiadores de Bush entre os leitores desse site do que
entre a
população americana, na qual Bush
não consegue chegar aos 30% de aprovação,
um recorde histórico. Ou talvez a defesa do presidente
americano - que muitos gringos já consideram
o pior presidente da história dos EUA, país
que já teve os seus Nixons da vida - seja apenas
uma transposição automática do
princípio da realpolitik à discussão
de idéias. Algo do estilo: os petistas detestam
Bush, eu detesto os petistas, portanto eu adoro Bush.
O princípio político é: o inimigo
do meu inimigo é meu amigo. Bem, o que posso
dizer? Há poucas coisas na vida que me dão
mais fastio do que um militante - quer seja da causa
que defendo, quer seja da causa à qual me oponho.
Meu norte é o ceticismo constante, a liberdade
e honestidade intelectuais. Quem pensa com o grupo ou
o partido já não pensa, apenas repete
uma linha dogmática qualquer. Grande parte dos
militantes entra na atividade para combater os militantes
do "outro lado". Com o passar do tempo, mimetiza
as táticas do adversário e se transforma
em seu inverso, operando do mesmo modo, trocando apenas
o sinal.
Quando isso acontece na esquerda stalinista, é
esperado: a ideologia que subjaz a militância
é necessariamente anti-democrática e ignorante.
Mas acho triste quando aqueles que se dizem liberais
e democráticos e pensam com a mesma camisa de
força que os marxistas, apenas para o lado oposto.
Se um acha que o mercado é o vilão de
tudo, o outro pensa que o mercado é a solução
de todos os males. Se um acredita que os EUA são
a fonte de todo mal, o outro acredita que deve ser irreprensível.
Preto e branco, branco e preto. "Muito a leste,
e já se chega a oeste", disse alguém.
É por aí. No momento que um suposto liberal
espuma e lança impropérios contra a opinião
alheia e faz todo o esforço para que essa seja
tolhida, virou o tiranete que buscava combater. Vez
que outra os editores desta coluna, preocupados com
a minha auto-estima e com o nível do debate nessas
páginas, sugerem que alguns dos posts mais desaforados
de leitores sejam retirados do ar. Eu peço para
que sejam mantidos. Estão todos aí, podem
consultar os arquivos. Espero jamais ter um ego que
me leve ao caminho da censura. O dissenso é do
jogo democrático - mesmo quando é estúpido,
grosseiro e ofensivo. Argumentos se combatem com argumentos,
não com proibições. Xingamentos
se combatem com o silêncio que lhes é devido.
Gostaria de convencer os militantes a se permitirem
o exercício da dúvida e da eventual transgressão
à linha de seus gurus, mesmo sabendo que isso
é impossível. A tirada de Nelson Rodrigues
sobre a burrice da unanimidade é tão conhecida
quanto é mal interpretada, porque poucos conhecem
a sentença completa: "Toda unanimidade é
burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa
pensar." E não precisa ser nem unânime
para abdicar do pensamento: pode até ser em um
grupo minoritário. O fundamental é a coletividade
versus o indivíduo: quando o pensamento é
coletivo, não é pensamento. Só
pensa quem pensa sozinho. O resto copia, repete.
A aqueles que me escreveram "decepcionados"
pela minha suposta conversão ao esquerdismo rastaquera
anti-americano, lamento informar que a lamentação
foi recebida como um elogio. Não pela associação
a um grupo com o qual eu definitivamente não
me identifico, mas pelo reconhecimento da imprevisibilidade
deste espaço. No dia em que tudo que eu disser
for previsível, antecipável, eu peço
as contas e deixo vocês com o arquivo de textos,
que seria auto-suficiente. O dia que eu tiver receio
de chamar Bush de idiota e hipócrita por ser
confundido com a turma dos filo-guevaristas é
o dia que eu abandono a escrita e o pensamento. Já
disse e repito: não estou aqui para fazer amigos,
ser aceito em algum grupo ou agradar algum partido.
O caminho é meu, só meu. Sigo sozinho.
P.S. Pra quem gosta de perseguir os dissidentes,
sugiro um alvo mais suculento: a colunista do The New
York Times, Maureen Dowd, que disse em sua coluna
desta segunda-feira mais ou menos a mesma coisa que
se disse aqui semana passada.
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| Terça-feira, 19 de agosto de 2008 |
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Música
para os seus ouvidos
Depois da Filosofia e Sociologia,
vem aí mais uma disciplina ao já carregado
currículo das escolas brasileiras: Música.
O presidente Lula sancionou, nesta segunda-feira, dia
18, lei que institui a obrigatoriedade de cursos de
música em nossas escolas. Mais curioso ainda:
vetou o artigo que estipulava que os professores da
disciplina deveriam ter formação específica
na área. É claro que esse artigo foi colocado
ali para gerar mais um cabide de empregos no sistema
público, dessa vez para músicos. Se os
formandos em Filosofia e Sociologia já haviam
conseguido a sua boquinha, por que não os músicos,
não é mesmo? Sua atividade é pelo
menos mais agradável para os nossos ouvidos do
que a maioria da "produção intelectual"
de nossos filósofos e sociólogos, e certamente
menos daninha às jovens mentes da nação.
Mas aparentemente os músicos não têm
um sindicato com influência no PT, de forma que
a exigência caiu.
Agora teremos o pior dos mundos: mais uma disciplina
absolutamente dispensável se tornando obrigatória
em nosso currículo, sem gente qualificada para
ensiná-la. Pegar professores leigos para ensinar
Geografia ou Matemática já é um
descalabro, mas ainda são matérias que
qualquer bacharel de Pedagogia terá alguma familiaridade.
Mas música? Como ensinar música quem não
é da área? Se usará a pedagogia
do oprimido para ensinar a criança a ler partituras
e tocar instrumentos? Ou será que o construtivismo
também vai nos salvar dessa? Não faltará
alguém a sugerir que as crianças aprenderão
por osmose ao conviver com instrumentos musicais à
sua volta. Já consigo até ver o novo round
de dinheiro público sendo gasto na empreitada:
afinal, dirão os mestres, como será possível
ensinar música às crianças se não
conseguimos dar a cada uma o acesso a um piano, um violino,
um violão?
Antes que a tropa de choque da deturpação
textual dirija a mim as primeiras acusações
de filistinismo anti-musical, devo - aliás, não
devo, mas poupemos tempo de todos - esclarecer que sou
um grande amante da música, especialmente a clássica.
Já estudei o assunto, tanto teoria quanto violino,
leio sobre ele, ouço música todos os dias
etc. e tal. Adoraria que todas as crianças brasileiras
fossem expostas à música. Mas governar
é escolher prioridades, e a prioridade da educação
brasileira agora não é, definitivamente,
o ensino obrigatório da música. Precisamos
fazer com que nossas crianças saibam ler e escrever
e fazer operações matemáticas básicas.
Deveríamos focar 100% de nossas atenções
à consecução dessa meta. Depois
disso - e só depois - novas matérias pro
currículo. Música no atual currículo
é como dar a sobremesa pra quem ainda não
recebe o prato principal.
| Segunda-feira, 18 de agosto de 2008 |
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A
neutralidade como dever
"A pesquisa
CNT/Sensus publicada nesta edição
corrobora esse quadro: só 18% dos professores
da escola pública dizem que seu discurso
em sala de aula é politicamente neutro.
Setenta e quatro por cento escolhem formar
cidadãos como missão do professor
apenas 8,4% dizem que é ensinar
a matéria. Os resultados são
praticamente idênticos nas escolas particulares"
Sabendo que, em uma
população de 190 milhões
de habitantes, temos mais de 50 milhões
de alunos no ensino básico e aproximadamente
100 milhões de pais desses alunos e apenas
2 milhões de professores, e sabendo que
vivemos em uma democracia, a pergunta que se impõe
a todo professor, diretor, secretário municipal,
estadual ou ministro da Educação
do país de agora em diante é: como
se pode justificar que uma minoria imponha sobre
a maioria a sua visão da educação?
Em uma sociedade democrática, quem decide
que tipo de educação será
oferecido no sistema público: o público
ou as corporações do setor? Como
se justifica que professores e administradores
escolares ditem uma política educacional
à revelia dos desejos expressos da sociedade
brasileira? A educação para a cidadania
não pressupõe, afinal, o respeito
à vontade coletiva e a valorização
da sabedoria popular?
Quando se discutem
as razões pelas quais nosso sistema escolar
não consegue ensinar a maioria dos alunos
a ler e a escrever ou a realizar operações
aritméticas simples, muitos supostos fatores
vêm à baila: o salário dos
professores, a condição da infra-estrutura
das escolas, o descaso da sociedade etc. Essa
análise parte do pressuposto de que todos
os atores do processo educacional estão
engajados no mesmo projeto, o que não é
verdade. Seguimos ignorando um problema que me
parece cada vez mais crucial: o ensino acadêmico
é percebido pelos nossos professores como
uma tarefa desimportante do processo educacional.
Quando instado, em pesquisa da Unesco, a apontar
as finalidades mais importantes da educação,
o professorado brasileiro disse o seguinte: com
72% dos votos, a campeã foi "formar
cidadãos conscientes". A segunda mais
lembrada foi "desenvolver a criatividade
e o espírito crítico" (60,5%).
Lá atrás, na rabeira, apareceram
"proporcionar conhecimentos básicos"
(8,9%) e "transmitir conhecimentos atualizados
e relevantes" (17%). No mesmo levantamento,
73% dos professores concordaram com a afirmação
que segue: "O professor deve desenvolver
a consciência social e política das
novas gerações". Cinqüenta
e cinco por cento rejeitam a idéia de que
"a atividade docente deve reger-se pelo princípio
da neutralidade política". Mais de
75% dos professores acham que a igualdade é
um valor superior à liberdade. A pesquisa
CNT/Sensus publicada nesta edição
corrobora esse quadro: só 18% dos professores
da escola pública dizem que seu discurso
em sala de aula é politicamente neutro.
Setenta e quatro por cento escolhem "formar
cidadãos" como missão do professor
apenas 8,4% dizem que é "ensinar
a matéria". Os resultados são
praticamente idênticos nas escolas particulares.
É triste constatar
que o pendor atingiu o nível de formação
de políticas públicas e, como tal,
virou uma questão sistêmica. Na avaliação
que o MEC faz dos livros didáticos que
serão escolhidos para todas as escolas
do país, a obra ganha pontos se mostrar
preocupação com a questão
da cidadania. Não apenas na área
de humanas, mas também em ciências
e matemática. Na avaliação
de livros didáticos de ciências do
ensino fundamental, por exemplo, há seis
itens. Um deles é "cidadania e ética".
Lá está dito que o livro deve incentivar
a "valorização do debate sobre
direitos do trabalhador e do cidadão"
e que se deve atentar "à relação
entre conhecimento popular e científico,
com respeito e valorização de ambos".
Não sei muito bem o que isso quer dizer,
mas imagino que, se perguntarem a um aluno numa
prova a razão da existência das chamadas
"estrelas cadentes", ele tirará
10 se responder que é para atender aos
três desejos da vizinha. Se complementar
dizendo que os três desejos são uma
conquista da cidadania, aí então
será 10 com louvor.
Acho que a formação
política de cada um é sua prerrogativa
individual, sujeita apenas à interferência
dos pais. Não é para ser condenada
ou legitimada na escola. Mesmo que os pais não
pratiquem sua prerrogativa, isso não dá
ao professor o direito de se assenhorear da tarefa.
Não acredito que a maioria dos professores
brasileiros, com seu baixo preparo intelectual,
tenha condições de oferecer ao aluno
a exposição complexa e multifacetada
que as questões inerentes à formação
da cidadania exigem. Vira panfletagem. Também
não acredito no poder do discurso dissociado
da prática. Se essas razões são
válidas para qualquer tipo de escola, creio
que as regras devessem ser ainda mais rigorosas
para as escolas públicas, nas quais o aluno
não tem condições de optar
por escola diferente. Aqui o texto de referência
é de Max Weber, em "Wissenschaft als
Beruf" (A Ciência como Vocação).
Falando sobre o dever de neutralidade dos professores
universitários creio que não
lhe passaria pela cabeça que pudesse ocorrer
como no Brasil de hoje a politização
de alunos de 10 anos de idade , Weber disse:
"Só se pode exigir do professor que
tenha a integridade intelectual para ver que uma
coisa é declarar fatos, determinar as relações
matemáticas ou lógicas ou a estrutura
interna de valores culturais; outra coisa é
responder a questões sobre o valor da cultura
e seus componentes individuais e como alguém
deve agir na comunidade cultural e em associações
políticas. Se ele perguntar por que não
deve lidar com os dois tipos de problema em sala
de aula, a resposta é: porque o profeta
e o demagogo não pertencem ao espaço
acadêmico. (...)" Uma discussão
político-ideológica profícua
pressupõe a igualdade de poder entre os
participantes. A relação professor-aluno
é totalmente assimétrica: se o aluno
questionar as convicções de seu
mestre, correrá o risco de sofrer represálias,
enquanto o oposto é impossível.
Pela mesma razão que o estado é
laico, as aulas do estado também deveriam
ser politicamente neutras.
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