| Notas Educar
para Crescer Me
parece cabotinismo, para não dizer sabujice, usar um espaço de mídia
para falar bem dos próprios chefes ou da empresa que nos emprega. Abro
uma exceção por acreditar que essa é verdadeiramente merecedora.
Nesta
segunda-feira a Abril lançou o projeto Educar para Crescer, do qual este
escriba tem a honra de ser conselheiro. Como vocês podem ver em maiores
detalhes nesta apresentação,
trata-se de um ambicioso projeto para conscientizar e mobilizar a sociedade brasileira
sobre os problemas da nossa educação e a importância da superação
destes problemas para o desenvolvimento do país. Notem que não estamos
falando da educação apenas como mecanismo para a concretização
dos sonhos e aspirações pessoais, mas também como ferramenta
para o crescimento do país.
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| "A Abril tem um compromisso
histórico e profundo com a educação." |
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Sempre acreditei que a educação só obteria
o destaque que merece quando passasse a ser vista como questão coletiva
- que diz respeito não apenas a alunos e professores, mas a toda a sociedade
- e urgente para a resolução dos problemas do nosso subdesenvolvimento.
Há tempos também cheguei à conclusão de que nosso
problema educacional não é técnico, mas político.
Ou seja, não é que não saibamos aquilo que deve ser feito,
que não haja em nenhum lugar do mundo experiências de sucesso com
as quais possamos aprender. Pelo contrário, os rudimentos de uma educação
de qualidade já são sabidos e praticados, em alguns lugares, há
séculos, e mesmo em países com os mesmos problemas sociais que o
brasileiro. Falta convencer os gestores públicos a aplicar os remédios
amargos ao nosso sistema educacional. E esse trabalho de convencimento não
se dá, como pensam muitos no país, por meio de um trabalho de convencimento
de autoridades a portas fechadas, mas sim convencendo a massa de eleitores que
efetivamente decidem os destinos do país. Democracia é isso. É
um trabalho, portanto, no qual a mídia tem um papel absolutamente crucial. A
Abril tem um compromisso histórico e profundo com a educação.
Publica a maior revista educacional do país, a Nova Escola, atua
no setor de livros didáticos, cobre com freqüência a questão
educacional em suas publicações e eventos (um dos temas de debate
no evento de 40 anos de Veja foi justamente a educação - assista
ao vídeo) e tem a coragem de divulgar visões divergentes
do consenso em suas publicações, como aquelas defendidas por Claudio
de Moura Castro e este colunista. Não é surpresa, portanto, que
seja o primeiro grande grupo de comunicação do país a empreender
um projeto dessa dimensão, organizado, com rumos corretos e já baseado
em pesquisas quantitativas para nortear o seu trabalho (frise-se, para não
parecer auto-elogio, que o mérito por esse trabalho é da Fundação
Victor Civita, comandada por Claudia Costin; o trabalho do Conselho do qual faço
parte inicia-se daqui pra frente). Para aqueles que comungam desta visão
sobre a educação brasileira, sugiro que vejam a apresentação
e confiram constantemente o site.
Espero que muitas iniciativas semelhantes surjam no futuro próximo.
É possível
educar em casa?
AP
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Recentemente,
a imprensa tem devotado bastante atenção a casos de educação
domiciliar, em que os pais tratam de substituir a escola por atividades de ensino
em suas casas. Apesar de ser um fenômeno insignificante em termos numéricos
- não conheço levantamento que quantifique esses casos, mas ficaria
muito surpreso se chegasse a mais do que algumas centenas de alunos - o tema vem
atraindo interesse por ser a materialização de questões importantes
sobre os limites da atuação do estado versus os pais no desenvolvimento
de uma criança, e também sobre as diferenças de um processo
de educação e um de instrução. O caso mais notório
tem sido o da família mineira Andrade Nunes. Cleber e Bernardeth Nunes
retiraram seus filhos David e Jonatas, hoje com 14 e 15 anos de idade, da escola
pública e os educam em casa. Foram acossados por uma série de medidas
judiciais tentando barrar a prática e fazer com que os filhos voltem à
escola, com ameaças que vão desde o pagamento de multa até
a perda da guarda. Recentemente, por ordem de um tribunal, os meninos passaram
por testes de aprendizagem ministrados através de provas especificamente
criadas para eles, e obtiveram notas boas (68% e 65%). O caso está extensamente
relatado, ainda que de maneira obviamente parcial, no blog http://www.escolaemcasa.blogspot.com/
e em vários jornais do país. Essa semana, recebi correspondência
de Cleber narrando o seu caso. Transcrevo a mensagem abaixo, com autorização
do autor, e comento o caso na seqüência.
"Oi
Gustavo, meu nome é Cleber.
Acabo
de ler seu artigo "Dever
do próximo presidente: vetar a expansão curricular".
Achei oportuno te enviar este e-mail. Minha
esposa e eu fomos processados pelo Ministério Público por crime
de abandono intelectual, porque nossos filhos estão sendo educados fora
da escola. Mesmo após terem sido aprovados em 7º e 13º lugares
em uma faculdade particular aos 13 e 14 anos. A Justiça ignorou o resultado
e fomos condenados sem que nos permitissem exercermos o direito de ampla defesa.
Não tiveram nem a curiosidade de checar se foi pura sorte ou se os garotos
realmente estavam preparados. Só um ano e meio depois, no processo criminal,
decidiram testar os meninos. A justiça oficiou a secretaria de educação
para avaliarem os garotos. Foi então convocada uma equipe de 16 profissionais
que trabalharam tempo integral por duas semanas para elaboração
das provas que foram: matemática, português, história, ciências,
geografia, inglês, artes e até educação física.
O objetivo da determinação
judicial foi averiguar se estava realmente havendo o crime de abandono intelectual,
mas parece que os pedagogos convocados entenderam que deveriam avaliar se os meninos
estavam aptos a cursar uma universidade. Caíram até questões
extraídas de vestibulares da UFMG, PUC, Enem. Mas o tiro acabou saindo
pela culatra. Os meninos foram aprovados com médias 68 e 65 em testes que
grande parte dos estudantes, até mesmo do ensino médio, falhariam.
Resta saber qual será a decisão
da "Justiça". Se permitirão seguir nosso caminho ou se
nos condenarão por colocarmos a mão na massa e fazer o que o estado
assumidamente não tem conseguido fazer. Gostaria
de ouvir sua opinião sobre este fato. A escola cumpre sem dúvida
um papel importante na sociedade. Mas teria o estado o direito de obrigar a todos
os pais darem a seus filhos a educação básica exclusivamente
em instituição de ensino? Afinal, não trata o artigo 206
da Constituição do pluralismo de idéias e de concepções
pedagógicas? Quais seriam os limites deste pluralismo? Estou
à sua disposição para conversarmos a respeito." Cleber
de Andrade Nunes | O que dizer sobre o caso
da família Andrade Nunes e a prática da educação domiciliar
em geral?
Em princípio, preciso dizer que, pessoalmente, sou contrário
à prática. Mesmo que tivesse o tempo e a vocação pedagógica
(não os tenho) para ensinar meus filhos, optaria por colocá-los
em uma escola, por mais deficiente que fosse a sua qualidade, porque acredito
que a convivência com outras crianças é um componente importante,
indispensável, do processo de socialização e amadurecimento
de um jovem. Como diz o meu amigo Hélio Schwartzman sobre a educação
de seus filhos gêmeos, "educar é traumatizar aos poucos".
Não há lugar melhor do que uma escola para dar lugar a esse processo
de traumatização controlada.
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| "Enquanto não houver
evidências conclusivas de que a prática de homeschooling gera danos psicológicos
sérios ao desenvolvimento emocional das crianças, não me parece que o aparato
repressivo do estado deva coibi-la" |  |
Vejam, não pensem que eu me converti ao mantra da educação-para-a-formação-do-cidadão-crítico-e-consicente.
Longe de mim. Acredito apenas que uma criança deve poder conviver com os
seus pares. E continuo acreditando que a função primeira de qualquer
escola é desenvolver o raciocínio analítico e transmitir
conhecimento aos seus alunos. Acho que se a escola falha na transmissão
dessas habilidades e conhecimentos - e sabemos que a escola brasileira falha profundamente
- os pais podem complementar a educação de seus filhos em casa,
em igrejas, em Ongs, onde quiserem. Mas não acredito que a interdição
ao convívio escolar e o isolamento social de crianças em casa seja
o rumo ideal para sanar as deficiências do sistema escolar. Digo isso
com muito respeito e até admiração pelos pais que optam pelo
homeschooling, porque são necessários muito amor e devoção
aos filhos para embarcar nesse método, e os pais que assim o fazem certamente
estão munidos das melhores intenções. Ao mesmo tempo
em que não acredito e não defendo a adoção da prática,
tampouco defendo a interferência do estado na questão, muito menos
a imposição de sanções legais contra os pais que assim
procederem. Contanto que os pais que praticam o homeschooling consigam
demonstrar, através do desempenho de seus filhos em provas estandardizadas
como o Saeb ou Prova Brasil, que os seus filhos têm um nível de aprendizagem
igual ou superior a aquele obtido por crianças nas escolas públicas
das regiões em que vivem, parece-me que o estado deveria se afastar da
questão. Sei que esse afastamento requereria, provavelmente, a alteração
da legislação vigente, especialmente o artigo 208 da Constituição,
o 55 do ECA e o 6º da Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Alguns
leitores hão de achar contraditório que eu defenda a legalidade
de uma prática que me parece equivocada, mas não há nada
de contraditório nisso. Detesto o cigarro, música sertaneja, carros
cor-de-rosa e operadores de telemarketing. Nem por isso acho que devam ser banidos,
legalmente. Acredito que o espaço das liberdades individuais só
pode ser cerceado quando impacta a liberdade de terceiros - mesmo que a pessoa
utilize dessa liberdade para dar cabo da própria vida, como no caso dos
fumantes. No caso de pessoas com idade insuficiente para responder por seus próprios
atos, como neste, acredito que o estado pode atuar na garantia de direitos mínimos,
mas além destes os pais ou responsáveis pelas crianças devem
ser os maiores responsáveis. No caso da educação, o direito
mínimo é o aprendizado da matéria. Enquanto não houver
evidências conclusivas de que a prática de homeschooling gera
danos psicológicos sérios e irreparáveis ao desenvolvimento
emocional das crianças, não me parece que o aparato repressivo do
estado possa ser convocado para coibi-la. |