| Enade
e Protógenes: a marcha da estatização
AP  |
Na semana passada, foram divulgados os resultados do último
Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes), teste que mede o aprendizado
dos alunos dos cursos de graduação das faculdades do país.
Não há muitas novidades - nem nos cursos em si e nem na maneira
como os resultados foram divulgados. Em relação aos cursos,
o que transparece é uma baixa qualidade do sistema como um todo. A nota
média de conhecimentos específicos - aquele conhecimento diretamente
relacionado ao curso que o aluno estudou (há um outro componente do Enade,
mais generalista, chamado "formação geral") - dos concluintes
do país foi de 48,5, em escala de 0 a 100. Significa que depois de quatro,
cinco ou seis anos de estudos, o estudante sai da faculdade sabendo menos da metade
do que deveria. Como nesse ano de 2007 foram medidos especialmente cursos das
áreas biológicas - Medicina, Enfermagem e Odontologia entre eles
- esse desempenho preocupa. Essa média foi igual para instituições
públicas e privadas. Quando se mede quanto o aluno aprendeu durante
o curso - a diferença entre o desempenho entre concluintes e ingressantes,
controlado por características socioeconômicas dos alunos - o quadro
é semelhante. Em um conceito que vai de 0 a 5, a rede privada apresenta
uma melhoria de 2,9 e a pública de 3,3.
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| "Cada vez que o
MEC fecha um curso ele elimina a possibilidade de que um ou dois ou três ou cinco
alunos, normalmente de famílias pobres, se transformem em bons advogados, médicos
ou dentistas, mesmo tendo cursado péssimas universidades. É um crime." |
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Em relação à divulgação dos resultados,
novamente a mesma obsessão pelas instituições que recebem
os menores conceitos e que estão colocando no mercado de trabalho profissionais
incapacitados e, no caso dessas matérias, perigosos. Não se fala
de como todos aprendem pouco. Nem de como aqueles que estão nas melhores
e mais caras instituições, pagas com o nosso dinheiro, aprendem
pouco. Não: toda a atenção é devotada à minoria
que não aprende quase nada. Nesse ano, a obsessão foi ajudada pelo
próprio INEP, que criou mais um conceito para avaliar as instituições.
Já havia o conceito Enade, que reflete a nota absoluta da instituição,
e o conceito IDD, mencionado acima, que mede a melhora de seus alunos entre o
ingresso e a conclusão do curso. Agora há um "Conceito Preliminar
de Curso", que combina o conceito Enade, o conceito IDD e um terceiro conceito
que mede os "insumos" do curso. Esse terceiro conceito, por sua parte,
é composto de quatro insumos (está confuso? Acho que a confusão
é parte do plano, não se preocupe): percepção dos
estudantes sobre a infra-estrutura da escola, percepção dos estudantes
sobre os recursos didático-pedagógicos do curso, número de
professores com PhD no curso e porcentagem de professores em regime de dedicação
integral. O importante dessa salada é que, com este novo conceito,
cria-se mais uma avenida para perseguir os cursos de baixa qualidade. O ministro
Haddad anunciou que "a fiscalização dos cursos (com conceito
baixo) será mais rígida", e que comissões de especialistas
serão enviadas às instituições que tiraram notas 1
e 2 nesse Conceito Preliminar. Diz a matéria da Folha que cobriu o evento:
"Caso o conceito continue baixo, o MEC diz que abrirá processo para
analisar o fechamento do curso." Já disse nesse espaço
e em artigo da revista que sou contra essas medidas de controle estatal, e repito
a opinião agora. O Brasil tem um número ridiculamente baixo de estudantes
com nível superior. Nosso esforço deveria ser de aumentar esse número,
e não diminuí-lo. Naquelas profissões em que o mau ensino
coloca a vida e a liberdade de terceiros em risco - especialmente a Medicina e
o Direito - concordo que devam haver mecanismos de controle do exercício
da profissão, mas acho que esse controle deveria ser feito pelos próprios
membros da profissão, não por "comissões de especialistas"
do MEC. Por quê? Não seria um desperdício fazer com que um
aluno cursasse uma matéria por quatro anos para depois jamais exercê-la?
Não cabe ao Estado proteger o aluno dessa armadilha? Não e não.
Em todo lugar do mundo, ter estudado em universidades traz benefícios salariais
consideráveis aos ex-alunos. O Brasil não é exceção.
É assim porque a capacidade de raciocínio desenvolvida nesses cursos
serve a qualquer área de atividade profissional. Obviamente, eu preferiria
que uma pessoa que estudou Direito ou Medicina pudesse trabalhar como advogado
ou médico, respectivamente. Mas se eles não conseguirem, é
melhor para o país que bancários, gerentes de hotéis e taxistas
tenham passado por esses cursos do que interrompido suas carreiras escolares no
ensino médio. Cada vez que o MEC fecha um curso, ele não apenas
garante que todos esses futuros profissionais não terão essa qualificação,
como também elimina a possibilidade de que um ou dois ou três ou
cinco alunos, normalmente de famílias pobres e que cursaram péssimas
escolas, se transformem em bons advogados, médicos ou dentistas, mesmo
tendo cursado péssimas universidades. É um crime.
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| "Em nome de nobres
intenções, cada vez mais a democracia e a liberdade vão sendo amordaçadas." |
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A postura do MEC não é uma aberração, nos
tempos que correm. Pelo contrário, é reflexo de uma postura comum
a todo esse governo: a idéia de que o governo deve proteger os cidadãos
de si mesmos, que o Estado pode saber melhor do que o indivíduo o que é
melhor para ele e que, portanto, as liberdades individuais podem ser sacrificadas
pelo bem social. Não é coincidência que no mesmo dia
em que a política do Enade foi divulgada, o delegado Protógenes
estivesse prestando depoimento à CPI dos grampos defendendo que os poderes
de monitoramento telefônico da PF sejam ampliados. Isso depois de ter sido
revelado que a PF teve autorização para acessar toda e qualquer
conta telefônica do país. Para que esse poder seja ampliado, o passo
seguinte é um só: grampear todas as ligações. Diz
a reportagem da Folha: "Ele (Protógenes) disse que, se o Legislativo
tentar limitar o grampo, membros de organizações criminosas poderão
substituir deputados: "Se não tomarmos posições, chegará
o dia que os senhores não vão estar sentados nessa cadeira, que
vão ser mafiosos no lugar de vocês, como já ocorre em determinados
países." Protógenes não identificou que países
seriam esses, mas nem precisaria: a ameaça estava feita, o acinte de um
delegado de polícia aos representantes eleitos do povo estava consumado,
e o auto-intitulado arauto do grito dos oprimidos mais uma vez se colocava como
redentor da nossa podridão, posição que lhe confere a premissa
de poder desrespeitar as instituições da democracia. É
em nome de todas essas nobres intenções que cada vez mais a democracia
e a liberdade vão sendo amordaçadas. |