BUSCA

Busca avançada      
FALE CONOSCO
Escreva para VEJA
Para anunciar
Abril SAC
ACESSO LIVRE
Conheça as seções e áreas de VEJA.com
com acesso liberado
COLUNISTAS
dubitandum
Gustavo Ioschpe
Economista, especialista em educação “de omnibus dubitandum est”
(duvide de tudo)

ARQUIVO
18/02/2009: Falência educacional: complô ou lógica?
03/12/2008: Violência escolar: quem é a vítima?
01/10/2008: Dinheiro não compra educação de qualidade
8/9/2008: Dever do próximo presidente: vetar a expansão curricular
29/8/2008: Preparados para perder
27/8/2008: Cegueira e Comunismo
18/8/2008: A neutralidade como dever
25/7/2008: Assim não, ministro!
05/7/2008: De pais e professores
06/6/2008: Emenda 29 e CSS: não e não
14/5/2008: Educação e capitalismo: aliados ou inimigos?
24/4/2008: Método de alfabetização: o experimento gaúcho
20/3/2008: E se plantássemos cérebros?
21/2/2008: Pesquisa livre e arejamento mental
19/2/2008: Educação é o legado mais duradouro de Cuba
14/2/2008: Errata e honestidade intelectual
13/2/2008: Pelo direito à ruindade
31/1/2008: Gustavo Ioschpe responde aos leitores
17/1/2008: Educação sem povo
15/1/2008: Educação de quem? Para quem?
2/1/2008: Os professores e a "frieza das estatísticas"
20/12/2007: Opinião dos leitores
10/12/2007: O professor desvalorizado
7/12/2007: Professor não é coitado
26/11/2007: Vestiburrar
9/11/2007: O caminho passa por consertar a escola pública
1/11/2007: Preocupe-se. Seu filho é mal educado
19/10/2007: Os leitores e a gratuidade do ensino universitário público
16/10/2007: Opinião dos leitores
05/10/2007: Contra a gratuidade nas universidades públicas
20/09/2007: Educação e a incomunicabilidade dos Brasis
29/08/2007: Quem sou, de onde vim e por que estou aqui

NOTAS
26/9/2008
23/9/2008
17/9/2008
16/9/2008
18/8/2008 - 20/8/2008
12/8/2008 - 13/8/2008
4/8/2008
15/7/2008 - 21/7/2008
14/7/2008
11/7/2008
2/7/2008
30/6/2008
25/6/2008
23/6/2008
18/6/2008
16/6/2008
02/6/2008
26/5/2008
19/5/2008
14/5/2008
07/5/2008
05/5/2008
02/5/2008
17/4/2008
11/4/2008
9/4/2008
7/4/2008
31/3/2008
25/2/2008 - 18/3/2008
22/2/2008
07/2/2008
24/1/2008
23/1/2008
 
Quarta-feira, 7 de maio de 2008
 

Nota

Último pio a respeito do Enem

Prova do Enem: cursos preparatórios

O "espírito animal" do capitalismo brasileiro já começa a ver mais uma fonte de lucro: cursos preparatórios ao Enem. Recebi e-mail de uma iniciativa ainda um pouco camuflada, escrupulosa, dizendo que "Todos sabem que o objetivo da prova anual ENEM é avaliar competências e habilidades, que se espera tenham sido trabalhadas e desenvolvidas no aluno concluinte do ensino médio", ou seja, de que seria uma aberração haver cursos adicionais para ajudar o aluno em um exame que deveria medir o seu aprendizado no ensino normal. Mas, sacomé, estamos no Brasil, terra dos padrões éticos e morais flexíveis, em que, como diz o ditado, prostituta tem prazer, traficante cheira e mulher de parlamentar vai ao banco pra pagar a conta da TV e sai com 50 mil reais no bolso. De forma que uma pequena "ajuda" ao estudante e seu professor, por preço módico, no sentido de ilustrar quais são os assuntos mais freqüentemente cobrados no Enem ou coisa que o valha não deve ser vista com maus olhos.

Fazendo uma busca rápida online sobre o assunto, descobre-se que há ofertas descaradas de cursos preparatórios para o teste, um deles já com o patrocínio do Luciano Huck comemorando e a baboseira de sempre na descrição da metodologia ("Nossa metodologia é o Problem Based Learning - PBL" (...)). Há também ofertas de cursos para escolas.

Essa é mais uma razão pela qual é espúria a tentativa de se fazer rankings de escolas baseadas na performance de seus alunos no Enem. E se uma escola oferecer cursos preparatórios e outras não? E se uma escola encorajar seus alunos a freqüentarem esses cursos preparatórios e outras não? Como a participação no teste é voluntária, acaba-se comparando maçã com laranja.

OPINIÃO
Comente a nota

 

Segunda-feira, 5 de maio de 2008

Notas

Enem mais um pio a respeito

Enem: cada aluno decide se quer ou não realizar

Alguns leitores e colegas vêm me pedindo, nas últimas semanas, comentários a respeito do Enem, o Exame Nacional do Ensino Médio, divulgados recentemente e que vêm causando certo furor, chegando inclusive à capa de diversos jornais e da Veja.com.

Em primeiro lugar, as boas notícias. É encorajador notar que começa a surgir, finalmente, uma mobilização social a respeito da qualidade de educação no país. Parece que vamos passando da discussão quantitativa - mais verbas, mais escolas, mais matrícula etc. - para a discussão que realmente interessa, que é a qualitativa, sobre a qualidade do ensino ministrado. Esse é um bom sinal, e é de se imaginar que tenha vindo para ficar: uma vez que a sociedade demanda qualidade, as escolas e seus gestores não podem ficar indiferentes ao apelo.

A má notícia é que o clamor veio com o exame errado. O Enem é um teste voluntário, que cada aluno decide se quer ou não realizar. Por isso, ele não pode ser utilizado para traçar conclusões sobre qualquer coletividade: nem o de uma escola, cidade ou estado. Por quê? Porque, pelo fato de ser voluntário, é bastante possível que o perfil dos alunos que fazem o Enem é diferente do perfil do aluno médio do sistema escolar - provavelmente é um aluno de melhor desempenho acadêmico ou, no mínimo, de maior motivação. Não haveria muito problema se esse fenômeno se repetisse de maneira constante, uniforme, em todo o país - bastaria considerar o aluno que faz o Enem separadamente do aluno mediano e julgar o desempenho de uma escola ou cidade que fez o Enem com outra. Ocorre que também é provável que haja diferença entre escolas e talvez, inclusive, entre cidades. É provável que haja escolas que priorizem o Enem e preparem os alunos para o exame, enquanto outras não se importam com a prova. É provável que haja escolas que queiram usar o desempenho no Enem como ferramenta de marketing, o que as levaria a selecionar os alunos que prestam o exame, assegurando-se de que os mais inteligentes fossem os que o fizessem. Isso pode ser feito de maneira peremptória - "sugerindo" aos piores alunos que não façam o teste ou criando atividades alternativas para eles - como de maneira mais sutil, incentivando apenas os melhores alunos a participarem e deixando os piores alunos e seus pais sem informações sobre o teste. Não estou dizendo que essas variações não-aleatórias e manipulações mais descaradas aconteceram: estou simplesmente dizendo que elas podem acontecer, e não temos como controlá-las em um exame nacional em que a participação é voluntária e a auto-seleção é inevitável. Justamente por haver essa possibilidade de manipulação e a impossibilidade de controle é que não se pode usar o Enem para criar rankings de escolas, cidades ou estados ou para se dizer coisas como "Enem revela que educação brasileira melhorou" etc. Qualquer análise que utilize o Enem para conclusões como essa está irremediavelmente equivocada. Mesmo com o alto número de alunos prestando o exame.

Para que se possa tecer análises coletivas é preciso que o exame seja obrigatório (para todos os alunos) ou realizado com amostragem controlada, de forma que aqueles alunos e escolas que realizam os exames sejam cuidadosamente escolhidos e tenham seus resultados filtrados para que sejam representativos da totalidade da população. O Brasil, felizmente, tem esses exames. Os dois tipos, aliás: O Prova Brasil (vulgo Anresc na nomenclatura oficial) é aplicado à totalidade de alunos, e o antigo SAEB, atualmente Aneb, é realizado por amostragem.

O Enem pode apenas ser utilizado para se medir o desempenho individual. É possível saber se um aluno individual está melhor ou pior preparado baseado na sua pontuação no exame. Caso ele(a) tenha realizado o Enem em anos anteriores, é possível comparar sua evolução ao longo do tempo e dizer se está melhor ou pior. E é só. Qualquer agregação desses resultados individuais - por escola, por exemplo - é um equívoco.

Veja também
Em VEJA desta semana: Termômetro do bom ensino

MEC e Igrejas: mistura infeliz

Nesse dia 8 de maio, o Ministério da Educação lança uma ação chamada de Plano de Mobilização de Igrejas Cristãs pela Educação. A idéia, segundo relata o release oficial sobre o programa, é aumentar a mobilização social em torno do Plano de Desenvolvimento da Educação. Diz o comunicado: "Os dirigentes do MEC já se reuniram com diversos segmentos, como o dos comunicadores, dos profissionais dos tribunais de contas, entre outros. Agora, chegou a vez dos representantes de igrejas cristãs."

Sou um dos grandes defensores da mobilização popular pela causa da educação, faço isso há tempo e em diversos formatos e mídias - minha ocupação desse espaço não é nada mais do que isso. Mas acho esse plano profundamente equivocado. A aliança de religiões com o Estado causou alguns dos maiores massacres que a humanidade conheceu, apesar das sempre professadas boas intenções dos homens de fé. É por isso que desde o Iluminismo se conquistou a separação entre Igreja e Estado. A Constituição Federal é clara na criação do Estado laico, proibindo, em seu artigo 19, a formação de alianças entre entes governamentais e igrejas. No final do artigo faz-se uma ressalva a colaborações de interesse público, na forma da lei.

Mas para que essa ação fosse de interesse público - segundo o Aurélio, "público" é "que é do uso de todos; comum. Aberto a quaisquer pessoas" - essa ação não poderia criar uma associação exclusiva com apenas uma das fés - a cristã - que compõem o mosaico religioso no Brasil. Um umbandista, espírita, judeu ou muçulmano não será atingido por essa ação, nem se sentirá confortável em freqüentar uma igreja cristã ou programa de uma igreja cristã para melhorar o nível educacional de sua comunidade. Não se pode criar uma iniciativa governamental que discrimine negativamente os membros das minorias religiosas.

Isso sem falar do conteúdo que será ministrado por essas igrejas. Tenho grande curiosidade para saber como as igrejas cristãs tratarão temas como a liberdade religiosa, educação sexual, História da Inquisição, Teoria da Evolução etc.

É para evitar esse choque entre visões de mundo antagônicas - aquela do Estado laico e das instituições religiosas - que se separou o Estado da religião, especialmente na área educacional. Triste retrocesso.

Agenda

Todo professor de Biologia que puder deveria visitar a exposição Revolução Genômica, em exibição no antigo prédio da Prodam no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Depois de um começo esquisito, com um mini-zoológico que termina com um exemplar de Homo sapiens enjaulado, a exposição desvenda com grande riqueza de detalhes e clareza de informação as principais facetas desse campo absolutamente fascinante que é a genética moderna. Com painéis, vídeos, e espaços para interatividade, a exposição é interessante para os leigos e também para os iniciados. É a segunda parceria entre o Instituto Sangari e o Museu Americano de História Natural, de Nova York - a primeira, igualmente boa, havia sido sobre o maior gênio da espécie humana, Charles Darwin.

Interatividade: fascinante

A exposição fica no ar até 13 de julho. Espero que depois disso os organizadores a levem para outras cidades do país.

• Revolução Genômica. Pavilhão Armando de Arruda Pereira (antigo prédio da Prodam). Parque do Ibirapuera, portão 10. Informações, 3468-7400. Terça a sexta, 9h às 20h; sábado, domingo e feriados, 10h às 20h. R$ 15,00 e R$ 7,00 (meia-entrada). A bilheteria fecha uma hora antes. Grátis no último domingo de cada mês.

 

OPINIÃO
Comente as notas

 

Sexta-feira, 2 de maio de 2008
 

Notas

As cordas do berimbau

Escola de Medicina da UFBA: baixo desempenho

Causaram espanto as declarações do coordenador do curso de Medicina da UFBA de que o baixo desempenho do curso no Enade se deve ao "baixo QI dos baianos", que estendeu sua análise preconceituosa à musicologia: "O baiano toca berimbau porque só tem uma corda. Se tivesse mais, não conseguiria". O repúdio a estultices desse quilate é mais do que devido, e espero que esse senhor, financiado em seu cargo pelos meus e seus impostos, seja demitido - não apenas pelo racismo, mas porque alguém com QI baixo o suficiente para falar essas asneiras não deveria coordenar nem o afinamento de berimbaus. Mas o espanto só pode ser fruto do desconhecimento ou de má-fé.

Com freqüência praticamente diária, e há muitos anos, é constante a culpabilização dos alunos - especialmente dos alunos pobres - pelo fracasso do sistema educacional. Quem não se lembra da conversa de que os resultados no SAEB caíram no fim da década de 90 por conta da incorporação ao sistema escolar de estratos sociais desfavorecidos? Quem não ouviu a reclamação diuturna de professores de que "com esse aluno, não dá", dando a entender que o desinteresse e baixo desempenho dos alunos brasileiros se deve não às aulas desinteressantes e à incompetência da escola, mas sim a fatores inatos e do contexto social dos alunos brasileiros? Segundo grande parte do nosso professorado, os alunos que temos, com os pais que eles têm, são irrecuperáveis. A análise inclusive vai um passo além, ainda que provavelmente a maioria dos professores não saibam disso: em reunião recente na secretaria de educação de São Paulo, a diretora da Faculdade de Educação da USP, Sonia Penin, saiu-se com o mesmo argumento para justificar as deficiências da sua instituição: com os alunos que a faculdade recebe - pobres, ignorantes, etc. - seria impossível forjar professores de grande qualidade.

Não tem o mesmo exotismo das declarações do preclaro baiano, mas a dinâmica subjacente é a mesma: com esse povo, o Brasil não vai pra frente. É de lascar.

Deixem Isabella morrer em paz

Isabella: a mãe poderia ser poupada desse espetáculo

Tenho ficado estarrecido com a vulgaridade e mau gosto da cobertura que se dá ao caso Isabella. O fascínio do público por um caso tão triste, as dezenas de desocupados que ficam à porta das delegacias fazendo um linchamento verbal aos suspeitos cada vez que vão prestar depoimentos, a condenação da mídia - que se arvora em polícia, juiz e júri - fazem parte de um circo do absurdo. Essa menina que teve fim tão trágico, quem quer que tenham sido os assassinos, merecia ser deixada em paz. Sua mãe poderia ser poupada desse triste espetáculo de ter a sua filha morta debatida nas rodas de chope do país afora. Os policiais e promotores que participam do caso podiam manter seus laudos e opiniões pessoais em sigilo. Os repórteres que cobrem a história, e seus editores, poderiam desviar seu foco para questões que efetivamente tenham impacto sobre a vida das pessoas.

E os acusados do crime merecem um julgamento justo. No estado de direito, todos são inocentes, até prova do contrário.

O Brasil se bestializa.

OPINIÃO
Comente as notas

 

 

 

 
  VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter |