| Nota Último
pio a respeito do Enem  | | Prova
do Enem: cursos preparatórios |
O "espírito
animal" do capitalismo brasileiro já começa a ver mais uma
fonte de lucro: cursos preparatórios ao Enem. Recebi e-mail de uma iniciativa
ainda um pouco camuflada, escrupulosa, dizendo que "Todos sabem que o objetivo
da prova anual ENEM é avaliar competências e habilidades, que se
espera tenham sido trabalhadas e desenvolvidas no aluno concluinte do ensino médio",
ou seja, de que seria uma aberração haver cursos adicionais para
ajudar o aluno em um exame que deveria medir o seu aprendizado no ensino normal.
Mas, sacomé, estamos no Brasil, terra dos padrões éticos
e morais flexíveis, em que, como diz o ditado, prostituta tem prazer, traficante
cheira e mulher de parlamentar vai ao banco pra pagar a conta da TV e sai com
50 mil reais no bolso. De forma que uma pequena "ajuda" ao estudante
e seu professor, por preço módico, no sentido de ilustrar quais
são os assuntos mais freqüentemente cobrados no Enem ou coisa que
o valha não deve ser vista com maus olhos. Fazendo uma busca rápida
online sobre o assunto, descobre-se que há ofertas descaradas de cursos
preparatórios para o teste, um deles já com o patrocínio
do Luciano Huck comemorando e a baboseira de sempre na descrição
da metodologia ("Nossa metodologia é o Problem Based Learning - PBL"
(...)). Há também ofertas de cursos para escolas. Essa é
mais uma razão pela qual é espúria a tentativa de se fazer
rankings de escolas baseadas na performance de seus alunos no Enem. E se uma escola
oferecer cursos preparatórios e outras não? E se uma escola encorajar
seus alunos a freqüentarem esses cursos preparatórios e outras não?
Como a participação no teste é voluntária, acaba-se
comparando maçã com laranja.
| Segunda-feira, 5 de maio de 2008 | Notas Enem
mais um pio a respeito  | | Enem:
cada aluno decide se quer ou não realizar |
Alguns leitores
e colegas vêm me pedindo, nas últimas semanas, comentários
a respeito do Enem, o Exame Nacional do Ensino Médio, divulgados recentemente
e que vêm causando certo furor, chegando inclusive à capa de diversos
jornais e da Veja.com. Em primeiro lugar, as boas notícias. É
encorajador notar que começa a surgir, finalmente, uma mobilização
social a respeito da qualidade de educação no país. Parece
que vamos passando da discussão quantitativa - mais verbas, mais escolas,
mais matrícula etc. - para a discussão que realmente interessa,
que é a qualitativa, sobre a qualidade do ensino ministrado. Esse é
um bom sinal, e é de se imaginar que tenha vindo para ficar: uma vez que
a sociedade demanda qualidade, as escolas e seus gestores não podem ficar
indiferentes ao apelo. A má notícia é que o clamor
veio com o exame errado. O Enem é um teste voluntário, que cada
aluno decide se quer ou não realizar. Por isso, ele não pode ser
utilizado para traçar conclusões sobre qualquer coletividade: nem
o de uma escola, cidade ou estado. Por quê? Porque, pelo fato de ser voluntário,
é bastante possível que o perfil dos alunos que fazem o Enem é
diferente do perfil do aluno médio do sistema escolar - provavelmente é
um aluno de melhor desempenho acadêmico ou, no mínimo, de maior motivação.
Não haveria muito problema se esse fenômeno se repetisse de maneira
constante, uniforme, em todo o país - bastaria considerar o aluno que faz
o Enem separadamente do aluno mediano e julgar o desempenho de uma escola ou cidade
que fez o Enem com outra. Ocorre que também é provável que
haja diferença entre escolas e talvez, inclusive, entre cidades. É
provável que haja escolas que priorizem o Enem e preparem os alunos para
o exame, enquanto outras não se importam com a prova. É provável
que haja escolas que queiram usar o desempenho no Enem como ferramenta de marketing,
o que as levaria a selecionar os alunos que prestam o exame, assegurando-se de
que os mais inteligentes fossem os que o fizessem. Isso pode ser feito de maneira
peremptória - "sugerindo" aos piores alunos que não façam
o teste ou criando atividades alternativas para eles - como de maneira mais sutil,
incentivando apenas os melhores alunos a participarem e deixando os piores alunos
e seus pais sem informações sobre o teste. Não estou dizendo
que essas variações não-aleatórias e manipulações
mais descaradas aconteceram: estou simplesmente dizendo que elas podem acontecer,
e não temos como controlá-las em um exame nacional em que a participação
é voluntária e a auto-seleção é inevitável.
Justamente por haver essa possibilidade de manipulação e a impossibilidade
de controle é que não se pode usar o Enem para criar rankings de
escolas, cidades ou estados ou para se dizer coisas como "Enem revela que
educação brasileira melhorou" etc. Qualquer análise
que utilize o Enem para conclusões como essa está irremediavelmente
equivocada. Mesmo com o alto número de alunos prestando o exame. Para
que se possa tecer análises coletivas é preciso que o exame seja
obrigatório (para todos os alunos) ou realizado com amostragem controlada,
de forma que aqueles alunos e escolas que realizam os exames sejam cuidadosamente
escolhidos e tenham seus resultados filtrados para que sejam representativos da
totalidade da população. O Brasil, felizmente, tem esses exames.
Os dois tipos, aliás: O Prova Brasil (vulgo Anresc na nomenclatura oficial)
é aplicado à totalidade de alunos, e o antigo SAEB, atualmente Aneb,
é realizado por amostragem. O Enem pode apenas ser utilizado para
se medir o desempenho individual. É possível saber se um aluno individual
está melhor ou pior preparado baseado na sua pontuação no
exame. Caso ele(a) tenha realizado o Enem em anos anteriores, é possível
comparar sua evolução ao longo do tempo e dizer se está melhor
ou pior. E é só. Qualquer agregação desses resultados
individuais - por escola, por exemplo - é um equívoco. Veja
também Em
VEJA desta semana: Termômetro do bom ensino MEC e Igrejas: mistura infeliz Nesse
dia 8 de maio, o Ministério da Educação lança uma
ação chamada de Plano de Mobilização de Igrejas Cristãs
pela Educação. A idéia, segundo relata o release
oficial sobre o programa, é aumentar a mobilização
social em torno do Plano de Desenvolvimento da Educação. Diz o comunicado:
"Os dirigentes do MEC já se reuniram com diversos segmentos, como
o dos comunicadores, dos profissionais dos tribunais de contas, entre outros.
Agora, chegou a vez dos representantes de igrejas cristãs." Sou
um dos grandes defensores da mobilização popular pela causa da educação,
faço isso há tempo e em diversos formatos e mídias - minha
ocupação desse espaço não é nada mais do que
isso. Mas acho esse plano profundamente equivocado. A aliança de religiões
com o Estado causou alguns dos maiores massacres que a humanidade conheceu, apesar
das sempre professadas boas intenções dos homens de fé. É
por isso que desde o Iluminismo se conquistou a separação entre
Igreja e Estado. A Constituição Federal é clara na criação
do Estado laico, proibindo, em seu artigo 19, a formação de alianças
entre entes governamentais e igrejas. No final do artigo faz-se uma ressalva a
colaborações de interesse público, na forma da lei. Mas
para que essa ação fosse de interesse público - segundo o
Aurélio, "público" é "que é do uso
de todos; comum. Aberto a quaisquer pessoas" - essa ação não
poderia criar uma associação exclusiva com apenas uma das fés
- a cristã - que compõem o mosaico religioso no Brasil. Um umbandista,
espírita, judeu ou muçulmano não será atingido por
essa ação, nem se sentirá confortável em freqüentar
uma igreja cristã ou programa de uma igreja cristã para melhorar
o nível educacional de sua comunidade. Não se pode criar uma iniciativa
governamental que discrimine negativamente os membros das minorias religiosas. Isso
sem falar do conteúdo que será ministrado por essas igrejas. Tenho
grande curiosidade para saber como as igrejas cristãs tratarão temas
como a liberdade religiosa, educação sexual, História da
Inquisição, Teoria da Evolução etc. É
para evitar esse choque entre visões de mundo antagônicas - aquela
do Estado laico e das instituições religiosas - que se separou o
Estado da religião, especialmente na área educacional. Triste retrocesso.
Agenda 
Todo
professor de Biologia que puder deveria visitar a exposição Revolução
Genômica, em exibição no antigo prédio
da Prodam no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Depois de um começo
esquisito, com um mini-zoológico que termina com um exemplar de Homo sapiens
enjaulado, a exposição desvenda com grande riqueza de detalhes e
clareza de informação as principais facetas desse campo absolutamente
fascinante que é a genética moderna. Com painéis, vídeos,
e espaços para interatividade, a exposição é interessante
para os leigos e também para os iniciados. É a segunda parceria
entre o Instituto Sangari e o Museu Americano de História Natural, de Nova
York - a primeira, igualmente boa, havia sido sobre o maior gênio da espécie
humana, Charles Darwin.  | | Interatividade:
fascinante |
A exposição fica no ar até
13 de julho. Espero que depois disso os organizadores a levem para outras cidades
do país. • Revolução Genômica. Pavilhão
Armando de Arruda Pereira (antigo prédio da Prodam). Parque do Ibirapuera,
portão 10. Informações,
3468-7400. Terça a sexta, 9h às 20h; sábado, domingo e feriados,
10h às 20h. R$ 15,00 e R$ 7,00 (meia-entrada). A bilheteria fecha uma
hora antes. Grátis no último domingo de cada mês.
| Sexta-feira, 2 de maio de 2008 |
| | | Notas As
cordas do berimbau  | | Escola
de Medicina da UFBA: baixo desempenho |
Causaram espanto
as declarações do coordenador do curso de Medicina da UFBA de que
o baixo desempenho do curso no Enade se deve ao "baixo QI dos baianos",
que estendeu sua análise preconceituosa à musicologia: "O baiano
toca berimbau porque só tem uma corda. Se tivesse mais, não conseguiria".
O repúdio a estultices desse quilate é mais do que devido, e espero
que esse senhor, financiado em seu cargo pelos meus e seus impostos, seja demitido
- não apenas pelo racismo, mas porque alguém com QI baixo o suficiente
para falar essas asneiras não deveria coordenar nem o afinamento de berimbaus.
Mas o espanto só pode ser fruto do desconhecimento ou de má-fé. Com
freqüência praticamente diária, e há muitos anos, é
constante a culpabilização dos alunos - especialmente dos alunos
pobres - pelo fracasso do sistema educacional. Quem não se lembra da conversa
de que os resultados no SAEB caíram no fim da década de 90 por conta
da incorporação ao sistema escolar de estratos sociais desfavorecidos?
Quem não ouviu a reclamação diuturna de professores de que
"com esse aluno, não dá", dando a entender que o desinteresse
e baixo desempenho dos alunos brasileiros se deve não às aulas desinteressantes
e à incompetência da escola, mas sim a fatores inatos e do contexto
social dos alunos brasileiros? Segundo grande parte do nosso professorado, os
alunos que temos, com os pais que eles têm, são irrecuperáveis.
A análise inclusive vai um passo além, ainda que provavelmente a
maioria dos professores não saibam disso: em reunião recente na
secretaria de educação de São Paulo, a diretora da Faculdade
de Educação da USP, Sonia Penin, saiu-se com o mesmo argumento para
justificar as deficiências da sua instituição: com os alunos
que a faculdade recebe - pobres, ignorantes, etc. - seria impossível forjar
professores de grande qualidade. Não tem o mesmo exotismo das declarações
do preclaro baiano, mas a dinâmica subjacente é a mesma: com esse
povo, o Brasil não vai pra frente. É de lascar. Deixem Isabella morrer em
paz  | | Isabella:
a mãe poderia ser poupada desse espetáculo |
Tenho ficado
estarrecido com a vulgaridade e mau gosto da cobertura que se dá ao caso
Isabella. O fascínio do público por um caso tão triste, as
dezenas de desocupados que ficam à porta das delegacias fazendo um linchamento
verbal aos suspeitos cada vez que vão prestar depoimentos, a condenação
da mídia - que se arvora em polícia, juiz e júri - fazem
parte de um circo do absurdo. Essa menina que teve fim tão trágico,
quem quer que tenham sido os assassinos, merecia ser deixada em paz. Sua mãe
poderia ser poupada desse triste espetáculo de ter a sua filha morta debatida
nas rodas de chope do país afora. Os policiais e promotores que participam
do caso podiam manter seus laudos e opiniões pessoais em sigilo. Os repórteres
que cobrem a história, e seus editores, poderiam desviar seu foco para
questões que efetivamente tenham impacto sobre a vida das pessoas. E
os acusados do crime merecem um julgamento justo. No estado de direito, todos
são inocentes, até prova do contrário. O Brasil se
bestializa. | | | |