| Notas Pelo
fim da anistia  | | Capa
de VEJA de 10/12/1969 |
Na
semana que passou, o tema da Lei da Anistia voltou à baila, através
de declarações dos ministros Tarso Genro e Paulo Vannuchi. Que o
tema de torturadores e torturados volte à tona 23 anos depois do fim da
ditadura militar brasileira é apenas um sinal claro de que esse capítulo
não está encerrado, permanece uma ferida aberta na vida nacional
brasileira.
A tática proposta
por Tarso me parece incoerente. Sua idéia é manter a Lei da Anistia
no lugar, e enquadrar os torturadores como criminosos comuns, pois estariam cometendo
crime que nem mesmo o regime militar tornara legal. Seria um crime comum, não
político, e que portanto poderia ser punido sem a mudança da legislação
vigente. Parece-me que há dois problemas jurídicos, e um filosófico,
com essa postura. Os jurídicos: que me conste, o limite para a prescrição
de crimes no Brasil é de 20 anos, de forma que essas sevícias já
estariam prescritas. O segundo problema jurídico é que, se consideramos
a legislação vigente durante o regime militar como legítima,
então é óbvio que os crimes dos guerrilheiros que lutavam
contra a ditadura também não podem ser perdoados, e devem ser julgados
tanto quanto os torturadores.
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| "Há crimes contra
a humanidade que se tornam imprescritíveis. A tortura é um deles." |
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O que nos leva ao problema filosófico
dessa proposta: ela presume a legitimidade da legislação de um estado
autoritário, o que é um contra-senso. Os torturadores não
cometeram um crime comum, não eram um bando de malucos agindo por conta
própria: cometeram um crime político, permitido pelo Estado e que
fazia plena parte do regime autoritário brasileiro - como, de resto, de
praticamente todos os outros regimes ditatoriais da história da humanidade.
Esse reconhecimento é importante porque, sem ele, parece
que tivemos um clima de guerra civil, em que faz sentido perdoar os dois lados,
passar a borracha e virar o capítulo. Mas não foi isso o que aconteceu
no Brasil. Houve um golpe, que depôs um governo democrática e legitimamente
eleito, que fechou o Congresso Nacional e instalou um regime de exceção.
É bom lembrar que o AI-5 não foi um episódio passageiro,
uma aberração dentro do regime ou um piscar de olhos na história
contemporânea do Brasil: ele durou de 1968 a 1978. Dez anos. Não
houve guerra civil. Houve uma usurpação do poder. E houve um grupo
de pessoas que lutou contra essa usurpação. A luta contra um regime
de exceção é não apenas legítima, como louvável.
A guerrilha brasileira não é criminosa ou terrorista por seus atos
contra o regime. E também não se pode esperar que essa luta seja
feita através de palavras, porque o regime militar havia justamente cassado
o direito de expressão da população. É por isso que
praticamente todas as batalhas contra ditadores são violentas: porque o
próprio regime ditatorial retira de suas vítimas o direito às
vias normais, pacíficas, de oposição. Isso não quer
dizer, é claro, que os guerrilheiros brasileiros estão isentos das
punições cabíveis a quem promove crimes comuns. Mas enquanto
seus crimes são políticos, eles não devem ser punidos. Os
crimes políticos que devem ser punidos são aqueles perpetrados por
aqueles que subverteram o estado de direito, não por aqueles que estão
lutando para acabar com o regime ditatorial. Eu, pessoalmente, como pacifista,
discordo de seus métodos. Discordo também das posições
políticas e ideológicas da maioria daqueles que pegaram em armas
na década de sessenta. Discordo da política de compensação
financeira implantada no Brasil para premiar a maioria dos revoltosos. Mas tudo
isso não me impede de reconhecer que havia um lado errado em 1964-85, e
esse era o lado dos militares. Não acho que seja possível
nem desejável implantar essa punição aos torturadores através
de manobras jurídicas, achando uma brecha ou outra na legislação
vigente. Uma das características mais agoniadoras da brasilidade é
essa indisposição ao conflito, que faz com que todos os problemas
se acumulem e se solucionem apenas pela decrepitude natural que vem com a sua
idade. Precisamos confrontar nosso passado, porque ele ainda nos faz refém:
muito da política brasileira atual é fruto do recalque e revanchismo
daqueles que se sentem derrotados pelo Brasil de 1964. A Constituição
de 1988, que já dificulta a vida nacional por quase tanto tempo quanto
durou a ditadura militar, é um nítido e indiscriminado contraponto
ao regime militar. Há poucas áreas da vida nacional que não
sejam afetadas por esse passado insepulto. A "indissociabilidade de ensino
e pesquisa", que encarece sobremaneira nossas universidades públicas,
é um item constitucional inserido por conta das perseguições
e cerceamentos à docência e às atividades de pesquisa encetadas
pelo regime militar. Nossa legislação penal excessivamente permissiva
para com os criminosos foi criada para combater os abusos do AI-5. A lista é
longa, e se espalha por todos os cantos. É preciso colocar um fim ao regime
militar, encerrar esse capítulo da nossa história, para que possamos
caminhar pra frente sem carregar o peso desse passado insepulto. A forma de fazê-lo
é punindo aqueles que torturaram, seqüestraram e mataram em nome da
manutenção de um regime ditatorial. Também devem ser punidos
aqueles que, sob o manto da defesa da legalidade, cometeram crimes comuns que
nada tiveram a ver com questões políticas. Não sou jurista,
mas tenho convicção de que haverá maneiras legais de fazê-lo,
até porque as leis não são éditos divinos, mas construções
humanas. Se a sociedade brasileira quiser, não vejo porque não haveria
maneiras de se criar leis que atendessem à essa demanda. Há crimes
contra a humanidade que se tornam imprescritíveis. A tortura é um
deles. Leituras
Numéricas Para
quem não gosta de economia e de economistas, há dois livros interessante
no mercado: Predictably Irrational, de Dan Ariely (lançado há
pouco em Português pela Editora Campus com o título Previsivelmente
Irracional) e The Origin of Wealth, de Eric Beinhocker (ainda sem tradução).
Os dois tratam de demolir o paradigma do homo economicus previsto pelo paradigma
neoclássico que vem reinando na área econômica pelas últimas
décadas. Ariely o faz com graça e leveza pelo lado da chamada Economia
Comportamental, que identifica uma série de irracionalidades previsíveis
(daí o nome do livro) no comportamento humano, que divergem das previsões
do modelo neoclássico. Beinhocker faz o ataque munido da Economia Evolutiva,
em um livro mais sólido e bem argumentado, trazendo os insights de Darwin
para o ecossistema da economia humana. Para quem gosta de números,
outro lançamento que vale a pena: The Drunkard`s Walk - How Randomness
Rules Our Lives, de Leonard Mlodinow. O subtítulo diz tudo: como o
acaso dita nossas vidas. |