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dubitandum
Gustavo Ioschpe
Economista, especialista em educação “de omnibus dubitandum est”
(duvide de tudo)

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Segunda-feira, 2 de junho de 2008
 

Nota

Células-tronco: vitória

Há luz no fim do túnel. E, dessa vez, não é de um trem vindo na direção contrária.

A decisão do STF de quinta-feira passada, permitindo as pesquisas com células-tronco embrionárias, é um grande avanço para a ciência brasileira. Mas é mais importante do que isso. Porque o que a ciência brasileira fará com essas células é ainda uma esperança: pode ser que resulte em avanços magníficos que melhorem a vida de milhares de pessoas com doenças genéticas, pode ser que não se estabeleça nenhum progresso digno de nota. Pesquisa é sempre incerteza. O líquido e certo é que o país, através de suas instituições, optou pela ciência, pelo conhecimento, em detrimento dos dogmas religiosos. É um avanço.

Não acredito, infelizmente, que essa decisão seja a abertura de uma porta para a legalização do aborto: a sociedade brasileira ainda é conservadora demais pra isso. Mas não importa. Se esse pragmatismo e a separação de igreja e estado continuarem a prevalecer, reforçamos as instituições democráticas do país e construímos uma legislação mais arejada. Haverá ganhos em outras áreas.

Não costumo entrar em discussões que envolvem artigos de fé - como o próprio aborto - porque onde a fé impera, a razão desaparece e o diálogo é, em realidade, um monólogo a dois. Não há convencimento, nem argumento, possíveis. Mas confesso ter ficado surpreso com a oposição ao uso, para fins de pesquisa, dos embriões descartados . Porque são embriões não-utilizáveis, que jamais gerariam uma vida humana. Entre jogá-los no lixo sanitário e destiná-los à pesquisa - uma pesquisa de grandes benefícios potenciais - não entendo como podem existir os que defendam a primeira opção.

 

P.S. A minha vizinha virtual, Mayana Zatz, é circunspecta e séria demais para usar o seu espaço aqui para alardear a sua vitória e destacar o papel que teve nessa conquista, então o faço eu: é provável que sem a intervenção vigorosa de Mayana e sua grande militância na mídia, especialmente com a esclarecedora entrevista às páginas amarelas da Veja, o julgamento do Supremo tivesse resultado diferente. Também é provável que sem a excelência técnica da pesquisa genética brasileira os distintos juízes não optassem por incentivar a ciência. Imagino que alguns devem ter decidido comprar a briga por vislumbrar uma verdadeira chance de sucesso, por conta da qualidade do trabalho feito aqui. É um reconhecimento à comunidade científica da área de genética brasileira, da qual Mayana é uma das principais expoentes. Em uma época que vê o desaparecimento do intelectual público e o concomitante surgimento de cientistas que se preocupam cada vez mais com o nível de sofisticação e hermetismo que o seu próximo paper acadêmico, lido por 200 pessoas, irá alcançar, é muito recompensador ver alguém devotando tempo e energia ao bem comum, especialmente aquele de pessoas com sérias doenças e limitações, normalmente os primeiros esquecidos em qualquer sociedade. À Mayana, meus parabéns e, acima de tudo, agradecimento.

 
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