| Nota
Células-tronco: vitória

Há luz no fim do túnel. E, dessa vez,
não é de um trem vindo na direção
contrária.
A decisão do STF de quinta-feira passada, permitindo
as pesquisas com células-tronco embrionárias,
é um grande avanço para a ciência
brasileira. Mas é mais importante do que isso.
Porque o que a ciência brasileira fará
com essas células é ainda uma esperança:
pode ser que resulte em avanços magníficos
que melhorem a vida de milhares de pessoas com doenças
genéticas, pode ser que não se estabeleça
nenhum progresso digno de nota. Pesquisa é sempre
incerteza. O líquido e certo é que o país,
através de suas instituições, optou
pela ciência, pelo conhecimento, em detrimento
dos dogmas religiosos. É um avanço.
Não acredito, infelizmente, que essa decisão
seja a abertura de uma porta para a legalização
do aborto: a sociedade brasileira ainda é conservadora
demais pra isso. Mas não importa. Se esse pragmatismo
e a separação de igreja e estado continuarem
a prevalecer, reforçamos as instituições
democráticas do país e construímos
uma legislação mais arejada. Haverá
ganhos em outras áreas.
Não costumo entrar em discussões que
envolvem artigos de fé - como o próprio
aborto - porque onde a fé impera, a razão
desaparece e o diálogo é, em realidade,
um monólogo a dois. Não há convencimento,
nem argumento, possíveis. Mas confesso ter ficado
surpreso com a oposição ao uso, para fins
de pesquisa, dos embriões descartados . Porque
são embriões não-utilizáveis,
que jamais gerariam uma vida humana. Entre jogá-los
no lixo sanitário e destiná-los à
pesquisa - uma pesquisa de grandes benefícios
potenciais - não entendo como podem existir os
que defendam a primeira opção.
P.S. A minha vizinha virtual, Mayana Zatz, é
circunspecta e séria demais para usar o seu espaço
aqui para alardear a sua vitória e destacar o
papel que teve nessa conquista, então o faço
eu: é provável que sem a intervenção
vigorosa de Mayana e sua grande militância na
mídia, especialmente com a esclarecedora entrevista
às páginas amarelas da Veja, o julgamento
do Supremo tivesse resultado diferente. Também
é provável que sem a excelência
técnica da pesquisa genética brasileira
os distintos juízes não optassem por incentivar
a ciência. Imagino que alguns devem ter decidido
comprar a briga por vislumbrar uma verdadeira chance
de sucesso, por conta da qualidade do trabalho feito
aqui. É um reconhecimento à comunidade
científica da área de genética
brasileira, da qual Mayana é uma das principais
expoentes. Em uma época que vê o desaparecimento
do intelectual público e o concomitante surgimento
de cientistas que se preocupam cada vez mais com o nível
de sofisticação e hermetismo que o seu
próximo paper acadêmico, lido por 200 pessoas,
irá alcançar, é muito recompensador
ver alguém devotando tempo e energia ao bem comum,
especialmente aquele de pessoas com sérias doenças
e limitações, normalmente os primeiros
esquecidos em qualquer sociedade. À Mayana, meus
parabéns e, acima de tudo, agradecimento.
|