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dubitandum
Gustavo Ioschpe
Economista, especialista em educação “de omnibus dubitandum est”
(duvide de tudo)

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19/10/2007: Os leitores e a gratuidade do ensino universitário público
16/10/2007: Opinião dos leitores
05/10/2007: Contra a gratuidade nas universidades públicas
20/09/2007: Educação e a incomunicabilidade dos Brasis
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Sexta-feira, 2 de maio de 2008
 

Notas

As cordas do berimbau

Escola de Medicina da UFBA: baixo desempenho

Causaram espanto as declarações do coordenador do curso de Medicina da UFBA de que o baixo desempenho do curso no Enade se deve ao "baixo QI dos baianos", que estendeu sua análise preconceituosa à musicologia: "O baiano toca berimbau porque só tem uma corda. Se tivesse mais, não conseguiria". O repúdio a estultices desse quilate é mais do que devido, e espero que esse senhor, financiado em seu cargo pelos meus e seus impostos, seja demitido - não apenas pelo racismo, mas porque alguém com QI baixo o suficiente para falar essas asneiras não deveria coordenar nem o afinamento de berimbaus. Mas o espanto só pode ser fruto do desconhecimento ou de má-fé.

Com freqüência praticamente diária, e há muitos anos, é constante a culpabilização dos alunos - especialmente dos alunos pobres - pelo fracasso do sistema educacional. Quem não se lembra da conversa de que os resultados no SAEB caíram no fim da década de 90 por conta da incorporação ao sistema escolar de estratos sociais desfavorecidos? Quem não ouviu a reclamação diuturna de professores de que "com esse aluno, não dá", dando a entender que o desinteresse e baixo desempenho dos alunos brasileiros se deve não às aulas desinteressantes e à incompetência da escola, mas sim a fatores inatos e do contexto social dos alunos brasileiros? Segundo grande parte do nosso professorado, os alunos que temos, com os pais que eles têm, são irrecuperáveis. A análise inclusive vai um passo além, ainda que provavelmente a maioria dos professores não saibam disso: em reunião recente na secretaria de educação de São Paulo, a diretora da Faculdade de Educação da USP, Sonia Penin, saiu-se com o mesmo argumento para justificar as deficiências da sua instituição: com os alunos que a faculdade recebe - pobres, ignorantes, etc. - seria impossível forjar professores de grande qualidade.

Não tem o mesmo exotismo das declarações do preclaro baiano, mas a dinâmica subjacente é a mesma: com esse povo, o Brasil não vai pra frente. É de lascar.

Deixem Isabella morrer em paz

Isabella: a mãe poderia ser poupada desse espetáculo

Tenho ficado estarrecido com a vulgaridade e mau gosto da cobertura que se dá ao caso Isabella. O fascínio do público por um caso tão triste, as dezenas de desocupados que ficam à porta das delegacias fazendo um linchamento verbal aos suspeitos cada vez que vão prestar depoimentos, a condenação da mídia - que se arvora em polícia, juiz e júri - fazem parte de um circo do absurdo. Essa menina que teve fim tão trágico, quem quer que tenham sido os assassinos, merecia ser deixada em paz. Sua mãe poderia ser poupada desse triste espetáculo de ter a sua filha morta debatida nas rodas de chope do país afora. Os policiais e promotores que participam do caso podiam manter seus laudos e opiniões pessoais em sigilo. Os repórteres que cobrem a história, e seus editores, poderiam desviar seu foco para questões que efetivamente tenham impacto sobre a vida das pessoas.

E os acusados do crime merecem um julgamento justo. No estado de direito, todos são inocentes, até prova do contrário.

O Brasil se bestializa.

OPINIÃO
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