| Notas As
cordas do berimbau  | | Escola
de Medicina da UFBA: baixo desempenho |
Causaram espanto
as declarações do coordenador do curso de Medicina da UFBA de que
o baixo desempenho do curso no Enade se deve ao "baixo QI dos baianos",
que estendeu sua análise preconceituosa à musicologia: "O baiano
toca berimbau porque só tem uma corda. Se tivesse mais, não conseguiria".
O repúdio a estultices desse quilate é mais do que devido, e espero
que esse senhor, financiado em seu cargo pelos meus e seus impostos, seja demitido
- não apenas pelo racismo, mas porque alguém com QI baixo o suficiente
para falar essas asneiras não deveria coordenar nem o afinamento de berimbaus.
Mas o espanto só pode ser fruto do desconhecimento ou de má-fé. Com
freqüência praticamente diária, e há muitos anos, é
constante a culpabilização dos alunos - especialmente dos alunos
pobres - pelo fracasso do sistema educacional. Quem não se lembra da conversa
de que os resultados no SAEB caíram no fim da década de 90 por conta
da incorporação ao sistema escolar de estratos sociais desfavorecidos?
Quem não ouviu a reclamação diuturna de professores de que
"com esse aluno, não dá", dando a entender que o desinteresse
e baixo desempenho dos alunos brasileiros se deve não às aulas desinteressantes
e à incompetência da escola, mas sim a fatores inatos e do contexto
social dos alunos brasileiros? Segundo grande parte do nosso professorado, os
alunos que temos, com os pais que eles têm, são irrecuperáveis.
A análise inclusive vai um passo além, ainda que provavelmente a
maioria dos professores não saibam disso: em reunião recente na
secretaria de educação de São Paulo, a diretora da Faculdade
de Educação da USP, Sonia Penin, saiu-se com o mesmo argumento para
justificar as deficiências da sua instituição: com os alunos
que a faculdade recebe - pobres, ignorantes, etc. - seria impossível forjar
professores de grande qualidade. Não tem o mesmo exotismo das declarações
do preclaro baiano, mas a dinâmica subjacente é a mesma: com esse
povo, o Brasil não vai pra frente. É de lascar. Deixem Isabella morrer em
paz  | | Isabella:
a mãe poderia ser poupada desse espetáculo |
Tenho ficado
estarrecido com a vulgaridade e mau gosto da cobertura que se dá ao caso
Isabella. O fascínio do público por um caso tão triste, as
dezenas de desocupados que ficam à porta das delegacias fazendo um linchamento
verbal aos suspeitos cada vez que vão prestar depoimentos, a condenação
da mídia - que se arvora em polícia, juiz e júri - fazem
parte de um circo do absurdo. Essa menina que teve fim tão trágico,
quem quer que tenham sido os assassinos, merecia ser deixada em paz. Sua mãe
poderia ser poupada desse triste espetáculo de ter a sua filha morta debatida
nas rodas de chope do país afora. Os policiais e promotores que participam
do caso podiam manter seus laudos e opiniões pessoais em sigilo. Os repórteres
que cobrem a história, e seus editores, poderiam desviar seu foco para
questões que efetivamente tenham impacto sobre a vida das pessoas. E
os acusados do crime merecem um julgamento justo. No estado de direito, todos
são inocentes, até prova do contrário. O Brasil se
bestializa. |