| Quem sou, de onde vim e por que estou
aqui Começamos hoje esse diálogo que, espero, seja
longo e frutífero. Nos encontraremos nesse espaço quinzenalmente.
Talvez valha a pena uma breve apresentação. Meu assunto primordial
aqui será educação. Abordo-o da perspectiva de um economista
da educação. "Economista da educação?",
perguntarão alguns. Que é isso? O que economia tem a ver com educação?
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| "A economia lê o
mundo através de algumas hipóteses sobre o comportamento humano baseado na defesa
de seus interesses materiais." |
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Na primeira aula de economia que eu fiz na vida, um grande professor
disse: "Vocês estão aqui para tirar uma nota boa, eu estou aqui
para fazer vocês pensarem como economistas." Não entendi direito
o que ele tentou dizer com a segunda parte da frase. Imaginei, como certamente
muitos de vocês imaginarão agora, que a economia é uma área
do conhecimento humano que lida com dinheiro, taxas de juro, inflação,
etc. Não é. Economia é uma forma de ler o mundo. Assim como
a História interpreta o presente pelo que ocorreu no passado. Assim como
a sociologia explica o mundo pelo comportamento de coletividades. Assim como a
psicologia trata de desvendar o mundo analisando as motivações inconscientes
que determinam o comportamento de indivíduos. A economia lê o mundo
através de algumas ferramentas heurísticas, hipóteses sobre
o comportamento humano baseado na defesa de seus interesses materiais. Algumas
pessoas vêem economistas falando sobre o amor, a família, o aborto,
a cultura e se ressentem da impertinência desse avanço sobre outras
áreas do saber. Não entendem justamente que as hipóteses
que norteiam a criação do homo economicus e a caixa de ferramentas
estatísticas que são normalmente usadas para decifrar taxas de juro
ou de retorno podem ser igualmente aplicadas a qualquer situação.
Assim como se pode falar de uma história da educação, de
uma sociologia da educação e de uma psicologia da educação,
também se pode falar da economia da educação. Se as análises
resultantes desse método estarão certas ou erradas são, obviamente,
outros quinhentos.
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| "Assim como se pode
falar de uma história da educação, de uma psicologia da educação, também se pode
falar da economia da educação." |
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Mas o que faz a economia da educação? Basicamente, duas
coisas. Primeiro, analisa o impacto da educação sobre fatores econômicos
(renda, crescimento econômico, desigualdade social etc.) e vice-versa. E,
segundo, utiliza-se do ferramental do economista as análises estatísticas
para avaliar a própria educação, tratando de determinar
quais variáveis são, por exemplo, relevantes (ou "estatisticamente
significativas", no jargão) para determinado resultado. Um
sociólogo pode descrever grandes teorias sobre, por exemplo, a relação
entre educação e criminalidade. Um economista pegará uma
variedade de dados os mais óbvios sendo taxas de escolaridade e
índices de homicídio, por exemplo juntará a outras
inúmeras variáveis que podem estar influenciando a relação
das duas variáveis. Por exemplo, o nível de renda da região
estudada, o índice de desemprego, o número de residências
em que os pais são divorciados, a taxa de policiamento, a eficiência
do judiciário e jogará todas elas em programas que fazem
análises estatísticas e dirá se há ou não uma
relação entre educação e crime, quanto um explica
o outro, quais são as outras variáveis relevantes, etc. É
disso tudo que vamos tratar a partir de hoje nesta página em VEJA.com. |