| Dinheiro não
compra educação de qualidade
Bob Krist/Corbis/Latinstock
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CAMPEÃ
A Mongólia é o país que mais gasta com educação
em proporção do PIB | É
comum ouvirmos professores praguejando contra o neoliberalismo e a onipresença
do dinheiro nos assuntos humanos. Falam sobre a importância de uma educação
para a formação de valores, de cidadãos críticos etc.
Só há uma notável exceção, que é quando
o dinheiro em questão é aquele investido em educação
e no pagamento dos próprios professores. Nesse caso, e apenas nesse caso,
até os líderes dos sindicatos stalinistas defendem que a principal
ferramenta para uma educação de melhor qualidade é o dinheiro.
E o principal uso desse dinheiro deveria ser o aumento do salário dos professores.
Se ganhassem mais, os atuais professores seriam mais motivados, o que faria com
que a qualidade da educação melhorasse.
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| "Pesquisas indicam que a
maioria dos professores está satisfeita em sua carreira e não pensa
em abandoná-la. Quando o assunto é dinheiro, porém, eles
se apresentam como desmotivados e descontentes, e apontam o vil metal como a única
saída para o aprendizado dos alunos" |
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Argumento curioso, já que
os professores são os primeiros a enfatizar a incrível dedicação,
beirando o heroísmo, que adotam em seu dia-a-dia. Pesquisas indicam que
a maioria dos professores está satisfeita em sua carreira e não
pensa em abandoná-la. Quando o assunto é dinheiro, porém,
eles se apresentam como desmotivados e descontentes, e apontam o vil metal como
a única saída para o aprendizado dos alunos. A despeito dessa inconsistência,
o argumento dos professores foi comprado pela sociedade. Em parte porque a proposição
é perfeitamente lógica melhor pagamento está normalmente
associado a melhor qualidade de serviço e em parte porque as lideranças
da categoria vêm martelando o mesmo discurso há mais de vinte anos,
praticamente sem opositores. Esse discurso
contaminou a sociedade e, por fim, as políticas para o setor. No começo
da gestão FHC, criou-se o Fundef, que destinava 60% dos seus recursos a
aumentar salários de professores. Depois de sua implementação,
a qualidade da educação brasileira caiu. O governo Lula criou o
Fundeb, mantendo a mesma destinação aos professores. A qualidade
da educação continuou a cair. Se algum médico prescrevesse
um remédio e, logo depois, a situação da saúde do
paciente piorasse, este provavelmente rejeitaria o aumento da dosagem do mesmo
remédio. Quando o assunto é a nossa educação, porém,
o recado da realidade é constantemente ignorado em favor da teoria. Assim
foi que, no começo do mês de julho, o Congresso decidiu injetar mais
dinheiro na educação e mais salário aos professores. O Senado
aprovou o fim da DRU para a área da educação, o que deve
aumentar em 7 bilhões de reais ao ano o orçamento do MEC. No mesmo
dia, aprovou também um piso salarial nacional de 950 reais para todos os
funcionários da educação. Nota-se que os parlamentares tomaram
essa medida pensando unicamente no aprendizado de nossos alunos: a mesma lei garante
que o benefício seja estendido a funcionários aposentados e determina
que o professor só pode passar dois terços de sua jornada em sala
de aula.
Neco Varella  |
MAIS E MAIS
Professores fazem passeata por melhores salários
no Rio Grande do Sul | Com
exceção dessa parte dos aposentados e da diminuição
do tempo de aula, o projeto tem lógica. Assim como era muito lógica
a idéia de que, se as doenças se espalham pelo sangue, um bom tratamento
à base de sanguessugas só pode melhorar a saúde. Assim como
era lógica, óbvia!, a idéia de que a Terra é fixa
e os astros a orbitam. Ou que um computador jamais conseguiria bater um bom enxadrista.
Todas essas lógicas encontram apenas um pequeno obstáculo: não
são verdade. A realidade encarregou-se de comprovar seu erro. A
questão do financiamento da educação não é
uma área para opiniões, mas para medições. Não
é preciso conjeturar sobre o impacto dos salários sobre a qualidade
do ensino basta medi-lo. E há pencas de estudos empíricos
que fazem exatamente isso: verificam o desempenho de centenas de milhares de alunos
em testes padronizados, computam os salários de seus professores e o volume
de investimentos de suas escolas, adicionam outras variáveis de interesse
nível de educação e financeiro dos pais dos alunos,
experiência do professor, infra-estrutura da escola etc. , jogam tudo
em uma ferramenta de análise estatística e medem a importância
de cada variável para o aprendizado do aluno. A maioria aponta não
haver relação significativa entre salários de professores
e desempenho dos alunos, nem entre volume de gastos por aluno e o seu aprendizado.
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| "Simplesmente não
acredito que dando mais dinheiro aos professores e diretores que estão
em nossas escolas hoje, sem exigir nenhuma contrapartida ou melhorar sua capacitação,
nós teremos um ensino de melhor qualidade. O problema principal dos funcionários
de nossas escolas não é de motivação: é de
preparo" |  |
Alguns dizem que o Brasil investe
pouco em educação, como se essa fosse a razão de todos os
nossos males. Não é verdade: nosso setor público investe
entre 4% e 5% do PIB em educação, valor parecido com o investido
pelos países ricos. O gasto é malfeito vai muito para as
universidades e muito pouco para o ensino básico , mas não
é pequeno. Outros argumentam que não podemos nos comparar com o
que esses países fazem hoje. Precisaríamos gastar entre 7% e 8%
do PIB para chegar aonde eles estão, pois é isso que os países
gastam quando dão seus saltos educacionais. Desculpem a sem-cerimônia:
é mentira. No período 1970-90, a Coréia do Sul gastou em
média 3,5% do PIB em educação. A Irlanda, 5,6%. China, 2,3%.
Hong Kong, 2,8%. Inglaterra, 4,9%. Até a Finlândia, com seu estado
de bem-estar social, ficou em 5,7%. Para não ser injusto, é forçoso
reconhecer que, nesse período, houve sim um grupo de países que
gastou mais de 7% (os dados são da Unesco e estão disponíveis
no fim desta coluna). São eles: Quênia, Namíbia, Seychelles,
Barbados, Martinica, Suriname, Armênia, Azerbaijão, Jordânia,
Mongólia (a campeã, com 12,9% não é piada),
Tadjiquistão, Uzbequistão, Noruega e Suécia. é desnecessário
comentar. Quero deixar claro que não
acredito que o aumento de recursos para a nossa educação ou o aumento
de salário dos professores vai causar um mal. Acredito inclusive que em
alguns casos ele poderá fazer bem se o MEC investir os seus recursos
adicionais para melhorar a infra-estrutura de escolas que estão caindo
aos pedaços e dotá-las de bibliotecas e laboratórios, por
exemplo, há ampla evidência de que a repercussão sobre o desempenho
dos alunos será positiva. Simplesmente não acredito que dando mais
dinheiro aos professores e diretores que estão em nossas escolas hoje,
sem exigir nenhuma contrapartida ou melhorar sua capacitação, nós
teremos um ensino de melhor qualidade. O problema principal dos funcionários
de nossas escolas não é de motivação: é de
preparo. E falta de preparo não se resolve com salário, mas com
mais e melhor treinamento. Alguns defendem a idéia de que um aumento de
salário atrairia novas e melhores pessoas ao magistério. Que não
adianta aumentar o salário dos professores em 20% ou 30%: seria necessário
dobrá-lo ou triplicá-lo, para torná-lo comparável
ao salário das carreiras ditas nobres. Há dois problemas com a idéia:
primeiro, não tem respaldo empírico. Segundo, mesmo que seja verdadeira,
o orçamento de prefeituras e municípios simplesmente não
comportaria um salto assim. Há uma lei que determina que estados e municípios
devem gastar 25% de seu orçamento com educação. O país
hoje gasta 70% dos recursos educacionais com salário de professor. Dobrar
o salário do professor significaria ocupar 35% dos orçamentos com
educação. Triplicar levaria a verba a 52%. Não há
estado ou municipalidade que possa arcar com essa carga. Olhando para a pesquisa
em educação das últimas décadas e para a própria
experiência brasileira, fica difícil acreditar que tenhamos uma educação
virtuosa enquanto os bilhões de reais que gastarmos forem investidos em
um sistema ineficiente, muitas vezes corrupto, e composto por pessoas que não
têm o preparo necessário para exercer suas funções.
A investigação sobre os efeitos dessas novas leis seria uma instigante
questão acadêmica, não fosse o detalhe de que estamos falando
de algo que afeta diretamente os mais de 50 milhões de alunos que povoam
nossas escolas. E os seus 50 milhões de sonhos e projetos de vida que jamais
verão a luz do dia, em parte pelo nosso fetiche por uma idéia que
a realidade já comprovou ser falsa.
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Quality
in cross-country perspective, Barro and Lee
Does
school quality matter?, Betts
Innefectiveness
of school inputs, Dewey et al
School
and teacher characteristics, Ehrenberg
Schooling, labor force quality and the growth of nations, Hanushek and Kimko
Who
chooses to teach and why, Hanushek and Pace
School
accountability, Hanushek and Raymond
Educação
secundária no Brasil, Herran e Rodriguez
Os
determinantes do desempenho escolar no Brasil, Menezes-Filho
FUNDEF
e impacto de salário de professores no SAEB, Menezes-Filho e Pazello
Factors
affecting achievement, Velez et al
Schooling
resources and student performance, Woessmann Em
DOC
Teacher
quality & student achievement, Darling-Hammond
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