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Método de alfabetização:
o experimento gaúcho
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Escrevi aqui em janeiro
sobre um experimento gaúcho focado em métodos
de alfabetização. O estado escolheu aleatoriamente
677 turmas de primeira série em 536 escolas,
que receberiam quatro tipos de intervenção
na sua metodologia de alfabetização: um
grupo seria instruído através do método
construtivista, a cargo do GEEMPA, outro pelo método
fônico, do Instituto Alfa e Beto, o terceiro através
da metodologia do Instituto Ayrton Senna e um quarto
grupo serviria de controle, recebendo a instrução
convencional do estado.
Divulgo aqui os resultados desse experimento em primeira
mão. O relatório completo está
disponível
aqui.
A primeira notícia relevante é de que
os três métodos de instrução
melhoraram o aprendizado das crianças. O grupo
de controle teve uma média de 54 pontos, contra
68 do Alfa e Beto e 63 do IAS e GEEMPA.
A segunda, como se pode depreender dos dados acima,
é que o método fônico desenvolvido
pelo Instituto Alfa e Beto teve o melhor desempenho.
A diferença de performance se deu em todos os
níveis. 74,5% dos alunos deste método
ficaram acima de um resultado de 40 pontos (o limite
do nível "insatisfatório"),
contra 68,7% do IAS e 68,2% do GEEMPA. Mais surpreendentemente,
43% obtiveram performance acima de 90 pontos ("muito
bom"), comparado a 36% do IAS e 32% do GEEMPA.
Essa diferença de pontuação é
particularmente surpreendente porque, apesar da natureza
bem controlada e sofisticada do experimento, os três
métodos não se desenvolveram em igualdade
de condições: conforme o relatado no artigo
de janeiro, há uma forte preferência por
parte de professores, orientadores pedagógicos
e diretores de escolas pelo método construtivista,
e forte resistência ao método fônico.
Essa resistência, somada à pesquisa empírica
a que tenho acesso sobre o tema, me levaram a imaginar
que não haveria diferença de desempenho
entre os três métodos. Fico contente pelo
engano: como a alfabetização é
sem dúvida a área mais nevrálgica
da educação brasileira, é bom saber
que há métodos que geram melhorias comprovadas,
e mais útil ainda a descoberta de que um método
em particular sai-se melhor do que os outros. É
claro que um estudo relativamente pequeno em um estado
da federação não prova nada e nem
deveria fazer com que todos os municípios e estados
do país adotassem o método fônico
do dia para a noite, mas é sem dúvida
um indício, um ponto de partida. Deveríamos
dar mais atenção ao método fônico
e trabalhar para acabar com as resistências a
ele, e implementar mais estudos, em outras áreas
do país, testando a eficácia desse método.
E deveríamos faze-lo com urgência, pois
se contam nos milhões as crianças brasileiras
que são amputadas para toda a vida por conta
de sua inabilidade de ler e escrever.
Perguntei à secretária da educação
do RS, Mariza Abreu, se havia alguma diferença
relevante de custos entre os três métodos,
que tornasse um deles mais eficiente em termos financeiros,
e também quais seriam os desdobramentos desse
estudo sobre os métodos de alfabetização
praticados no estado. Eis a sua resposta, que transcrevo
na íntegra:
Os custos são praticamente os mesmos. Os três
programas são diferentes. O Ayrton Senna não
é propriamente um método de alfabetização
e sim uma gestão da aprendizagem - auxiliam os
professores a fazerem avaliações formativas
durante o ano letivo e a definirem estratégias
de intervenção pedagógica para
assegurar a aprendizagem dos alunos. O Alfa e Beto (metodo
fônico) e o GEEMPA (pós-construtivismo)
são métodos de alfabetização
decorrentes de diferentes concepções /
teorias relativas ao processo de construção
do conhecimento. A resistência dos professores
ao Alfa e Beto deve-se ao preconceito em relação
ao método fônico no Brasil construtivista
(ou pós construtivista) e ao fato de que é
mais estruturado com menos margem para a "livre
ação" do professor e também
exige muito trabalho - pelo menos esse é um argumento
que alguns professores utilizam para manifestarem sua
discordância com esse método. A Secretaria
não pretende definir um método oficial
de alfabetização. Nosso objetivo é
construir a matriz de habilidades cognitivas em leitura
/ escrita e em matemática que devem ser necessariamente
devolvidas com as crianças de 6 e de 7 anos nos
dois primeiros anos do ensino fundamental de 9 anos,
de forma a contribuir para o atingimento da meta do
Todos pela Educação relativa a alfabetização
de todas as crianças até os 8 anos de
idade. Cada escola poderá escolher seu método
de alfabetização mas deve cumprir com
a meta de desenvolver as habilidades fixadas nesta matriz.
Além disso, a Secretaria pode divulgar características
e resultados das diferentes propostas pedagógicas
de alfabetização para que as escolas tenham
mais elementos para fazerem suas escolhas metodológicas.
É um posicionamento louvável. Espero
que os dados referentes ao desempenho dos diferentes
métodos de alfabetização sejam
amplamente divulgados, e que rapidamente tenhamos uma
convergência para aquele que tiver melhores resultados.
Para quem quiser obter maiores informações
sobre o projeto pode consultar, a partir desta quinta-feira,
o site da Secretaria de Educação do estado:
www.educacao.rs.gov.br.
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