A frase da nossa enquete é de ninguém
menos do que o fundador da Filosofia Ocidental, Sócrates.
Vem do diálogo platônico Filebo.
Para aqueles professores de Filosofia que espumaram
com a minha exortação à estatística,
vai aqui um paliativo: não conheci a frase por
via do diálogo original. Acabei me topando com
ela, por acaso, no último livro de Eduardo Giannetti,
O Livro das Citações.
O livro merece uma nota à parte, aliás.
Não foi resenhado, que eu tenha lido, por nenhum
veículo de imprensa, porque impera na nossa imprensa,
e também dentre as editoras, o tabu burro de
que todo material já publicado é necessariamente
desinteressante. Livro de citações, então,
já vem impregnado daquele aroma de auto-ajuda
ou de humor fácil dos autores que confundem enciclopedismo
com cultura. Creio que o gênero foi eternamente
condenado ao opróbrio quando Churchill
paradoxalmente um dos melhores frasistas, se não
o melhor, de todos os tempos cunhou a frase definitiva
a respeito, dizendo que é uma coisa boa
para um homem ignorante (uneducated) ler livros de citações.
Giannetti mostra que também faz bem ao espírito
dos instruídos, quando o autor sabe combinar
erudição com um humor elegante. O Livro
das Citações está recomendado,
e também o anterior do mesmo autor, O Valor
do Amanhã. E os diálogos de Platão
também, é claro. A República
é leitura obrigatória.
Sexta-feira, 18 de julho de 2008
Notas
Satiagraha: Habeas Saco!
Folha Imagem
Acreditei, por alguns momentos, que a prisão
de Daniel Dantas era um indício da diminuição
da impunidade no Brasil. Fiquei surpreso de que o governo
deixasse prosseguir uma investigação sobre
alguém tão próximo do poder, com
certamente muitos tentáculos em Brasília.
A impressão começou a ruir com a proteção
que se fez a Greenhalgh. Levou mais algumas pancadas
com a leitura do relatório do delegado Protógenes
e as fragilidades da peça. Tomou um tombo definitivo
com o afastamento dos delegados da PF que cuidaram do
caso e, agora, a ridícula pantomima que se monta
ao redor dessa operação de abafa. A coisa
já degringolou para o circo, para a farsa. A
própria PF está grampeando os seus delegados
e vazando trechos da conversa para inocentar a sua cúpula.
O delegado Protógenes e o juiz de Sanctis viraram
alvos da própria investigação,
enquanto os meliantes e seus crimes desaparecem do noticiário.
É um caminho normal das revoluções
que acabem tombando sobre si mesmas, devorando os filhos
que criou. No Brasil o ciclo foi acelerado, e a mini-revolução
natimorta já entrega sua pizza cozinhada mesmo
antes de ir ao forno.
No mesmo dia, o foragido Cacciola chega de volta ao
Brasil sorridente, dizendo confiar na Justiça
brasileira. É o escárnio total. No restaurante
em que almoçava ontem quando o retorno do sorridente
plutocrata apareceu na TV, um trio de senhores comentava
o caso. Disse um deles para o outro: "Sabe qual
foi o grande erro desse aí? Ter fugido. Se tivesse
se entregado, já taria solto." É
isso aí. Basta prestigiar as instituições
tupiniquins pra que até os réus confessos
fiquem em liberdade. Só imagino o que os agentes
da PF disseram a Cacciola para deixá-lo com aquele
sorriso no rosto. "Foi querer morar na Itália,
ficar preso em Mônaco, né? Fez a gente
pagar mico. Agora vai passar uma semaninha em Bangu.
Perdeu, playboy!"
Leitura
A coluna de Fernando Barros e Silva na Folha de
S. Paulo deste dia 18 é um ótimo e
cortante resumo do que acontece nos intestinos do poder.
Ei-la:
A corrupção
dos outros
SÃO PAULO - Com o olhar agitado, evitando as
câmeras e a multidão de repórteres,
e a fala alterada, denotando desconforto e irritação,
o presidente Lula dizia anteontem que, "moralmente,
este cidadão tem de continuar no caso",
"a não ser que diga publicamente e espontaneamente
que não quer". O que não pode, seguia
a bronca, "é vender insinuações
à sociedade".
Protógenes Queiroz desde então nada
disse -nem pública nem espontaneamente. O governo
decidiu falar pelo delegado. Fez liberar fragmentos
de uma reunião gravada na PF, na qual Protógenes
estaria jogando a toalha por sua escolha. Mentira. A
fala editada do outro que não quis falar é
coisa de regime de exceção -teatrinho
stalinista.
Protógenes foi afastado à revelia de
suas funções, como sabe qualquer adulto.
E não caiu em função de seus erros
- muitos e graves -, mas porque parte deles, junto com
os acertos da investigação, chegou perto
demais do coração do poder sem que os
palacianos percebessem a dimensão da encrenca
em curso.
Não foram, é claro, imagens como a de
Celso Pitta de pijama e algemado o que derrubou Protógenes.
Caiu porque usou arapongas da Abin para espionar o presidente
do STF -supremo delírio. Mas sobretudo porque
entrou com o grampo no Palácio do Planalto e
instalou uma bomba perto demais de Lula.
Seu chefe-de-gabinete, Gilberto Carvalho, foi flagrado
num diálogo pouco republicano com Luiz Eduardo
Greenhalgh, petista histórico a serviço
de Humberto Braz, capanga dileto de Daniel Dantas.
O papel vexatório de Greenhalgh -lobista com
anel de doutor- o coloca na rabeira de uma longa fila
de petistas e/ou amigos de Lula que já caíram
na folha de pagamento de Dantas, do advogado Kakay ao
compadre Roberto Teixeira. O deputado Zé Eduardo
Cardozo diz que nada tem com isso -hummm...
O PT e o governo têm mesmo razões de
sobra para se preocupar.
E a oposição tucano-democrata, tão
loquaz na condenação da tapioca, emudeceu
agora, diante deste suculento banquete de tubarões.
Fiquei pensando durante alguns dias se deveria responder
aos comentários sobre o artigo a respeito do ensino
de Filosofia, Sociologia e Estatística. Acho que vou
me abster. Dou a palavra a alguém com intelecto maior
do que o meu, e convido os leitores a identificar a
origem do pensamento. O dito é o seguinte:
Veja a resposta certa na coluna Dubitandum de segunda-feira.
Terça-feira, 15 de julho de 2008
Notas
Greenhalgh
Dida Sampaio/AE
O Brasil é o país onde é surpreendente
surpreender-se. Ou deveria ser. O acúmulo de
escândalos e falcatruas exige o desenvolvimento
de uma pele grossa por parte dos cidadãos. É
necessária certa dose de cinismo para se manter
a lucidez. Essa é uma conquista desse governo:
o mar de lama é tão espesso que ninguém
se choca com mais nada, a capacidade de indignação
foi pro buraco. Procuro não escrever mais sobre
política por isso: se o sujeito comprovadamente
recebe recursos de caixa dois para a sua campanha ou
faz pagamento ao marqueteiro em paraíso fiscal
e ainda é reeleito, não há nada
que a minha verve possa produzir que terá qualquer
efeito sobre quem tolera esse nível de pilantragem.
Melhor falar sobre educação, que é
a única maneira de construir um eleitorado mais
consciente.
Dito isso, preciso registrar que duas coisas da operação
Satiagraha me surpreenderam - pelo menos um pouquinho.
A primeira é que o único pedido de prisão,
que me conste, que não foi acolhido pelo juiz
foi justamente o de um quadro do PT, Luiz Eduardo Greenhalgh.
Mantenho o que já disse aqui: me parece que todas
as prisões preventivas, nesse caso, são
desnecessárias. Mas se o juiz concede o pedido
de prisão de doleiros e políticos aposentados,
não entendo como pode querer deixar solta uma
pessoa que está se informando sobre o andamento
das investigações com o chefe de gabinete
da Presidência da República. A segunda
é que o próprio Greenhalgh esteja envolvido
nisso. Não conheço o ex-deputado nem sabia
de sua história. Até que há alguns
meses atrás vi um documentário, ruinzinho,
chamado Condor, sobre a operação de mesmo
nome, protagonizada pelos governos militares do Cone
Sul, que "desapareciam" com seus presos políticos.
E quem foi o advogado dos presos políticos que
com mais empenho e dedicação lutou por
sua soltura e pela elucidação de seus
desaparecimentos? Ele mesmo, Luiz Eduardo Greenhalgh.
Tendo a achar que as pessoas não mudam muito
ao longo da vida. Quem nasceu patife há de morrer
patife, quem nasceu inseguro jamais será confiante
etc. Fica verdadeiramente difícil de entender
como alguém que tenha arriscado a sua pele para
salvar desaparecidos políticos em um regime de
exceção agora esteja usando de seu prestígio
para defender Daniel Dantas. Não entro aqui no
mérito jurídico da questão; não
saberia dizer se o que Greenhalgh fez é lícito
ou não, se deve ser indiciado ou não.
Mas o fato é que, ao advogar para essas causas
e desse jeito, ele joga fora a sua biografia. Espero
que a remuneração compense.
Vergès
Falando em advogados e filmes, vale a pena conferir
O Advogado do Terror, documentário sobre
a atuação de Jacques Vergès, defensor
de gente de primeira como Klaus Barbie (O Açogueiro
de Lyon), Carlos o Chacal, Slobodan Milosevic, terroristas
palestinos, Tariq Aziz et caterva. É um estudo
sobre os limites da canalhice humana. Especialmente
recomendado para aqueles que lêem a cobertura
política do noticiário brasileiro e acham
que a coisa não pode ser pior. Animem-se! Ainda
há muito espaço para piora!